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Aventuras da Bélinha e do cão preto

Aventuras da Bélinha e do cão preto

Personagens: um cão de guarda e uma voz humana

Época e lugar: lugar sagrado embutido num muro

 

Cão (momentaneamente sentado por cima das Alminhas): O mundo é um aborrecimento. Quase ninguém passa por este lugar. Contam-me os antepassados que houve tempo em que havia missa todos os dias naquela capela e terço ao fim da tarde; tocava a sineta e quando calhava havia festa e procissão. À vista do nicho aqui por baixo, toda a gente se benzia e trazia velas, espigas de milho, flores e orações por uma boa morte, pelas almas do purgatório ou por um lugar no paraíso (não se sabe como é que a vida de cão aí se organiza). Havia também muita canalha ruidosa que atirava pedras aos cães e por via disso tudo se levava uma vida agitada para cima e para baixo do muro a ladrar furiosamente àquela corja de ganapos raivosos. Adiante. A Bélinha, a que me faz mais festas e guisados frescos, passa a vida dentro do espigueiro aqui ao lado a falar ao telefone. Diz que é uma espécie de cabine arejada, um refúgio seco descolado do chão… e não me liga nada desde que se embeiçou pelo homem que me trouxe para cá e…

 

Voz humana (fechada no espigueiro a fazer não se sabe o quê): Com quem estás a ladrar, canídeo? Baixa o volume que estou ao telefone com o teu dono que diz que nunca mais põe cá os pés (!!) e ainda ontem se desfazia em juras de amor… (isto está cheio de interferências, não se ouve nada), estou? Estás a ouvir-me? (aparte, baixando a voz) Vou desligar; às vezes faz isto, mas continua a ouvir à espera de alguma coisa que eu pense em voz alta e que depois possa usar contra mim. Conheço muito bem este mamífero. Estás aí?

 

Cão (a rosnar para dentro): Algo no meu instinto me dizia que isto ia acontecer. Um cão fareja acontecimentos que os humanos nem sonham. Quando esse espécimen me foi buscar à casa do meu antigo dono que teve de emigrar, disse a esta criatura fechada no espigueiro que me trazia para aqui porque íamos ser muito felizes no adro da capela, a sineta a tocar, a banda e as procissões. Coitada, esta simplória nunca percebeu que aquilo era só teatro de pouca dura enquanto não encontrasse uma galdéria com contas no estrangeiro a casa na Côte d’Azur onde o frio e o granito não se empilham como aqui da calçada à cruz em cima da sineta.

 

Voz humana (fechada no espigueiro com a rede sempre a falhar): Queres que queime as cartas? Que dizes?… Que fique com o cão? Que te esqueceste das luvas? Que te queres esquecer de mim? (aparte, como se fora desdobramento daquela que fala) se não ouvira, não acreditara… deve querer dizer outra coisa (retomando a firmeza da voz) Ouves a minha voz? Conheces o Jean Cocteau? Sim, aquele que tinha dificuldade em contratar actores e arranjou forma de escrever uma peça de teatro para uma mulher em cena a falar só para um telefone com fios e uns tantos adereços em volta… é isso? É drama ao telemóvel o que tu queres? Comédia? Estás a dizer o quê? A Geni? Que a Geni te disse que estava perdidamente apaixonada e tu não sabias e ela não sabia que tu e eu estamos, estávamos juntos? Terás memória de que fui eu quem te apresentou essa com quem te embeiçaste, lembras-te? E fazias muitas perguntas…, e eu a pensar que era só porque ela te arranjava muitos clientes em Marselha…

 

Cão (apurando a escuta): Houvesse algum santinho neste nicho aqui e baixo e até se veria um cão em preces para que isto pudesse tomar outro rumo ou acabar de vez. A coitada ainda não percebeu completamente o que a deplorável criatura lhe está a tentar dizer em falas mansas. O telemóvel facilita-lhe a conversa fiada, a voz sem corpo, a máquina falante, fonética do oco.

 

Voz humana (fechada no espigueiro com dores nas costas e maus pressentimentos): Que não vens cá mais? Como podes dizer uma coisa dessas? Que me ias fazer infeliz! Que admirável prova de coragem e abnegação! … que sorte! E que mais? Que não virias para aqui trabalhar nos campos e carregar cestos de milho com morcões? Que a minha mãe te chama bimbo? … Ora, ora… que mais terás para embrulhar nesse relambório estrambelhado! Estou? Está? O raio do artefacto outra vez sem som (entre risos e ardências nas frontes, outra vez aparte) e agora esta! … que andava esquisito, andava… e eu, grande estúpida e apaixonada, a pensar que era covid ou crise de vesícula… (recuperando) Estou? Que dizias? Que a minha mãe te chamava lindo, bimbo? Isso é tudo carinho, bimbo, a minha mãe chama lindo ao porco quando ronca, ao galo, ao sol, ao arroz de cabidela, a tudo.

 

Cão (alheado do assunto): A mim também. A mãe dela sempre me tratou bem. Uma mulher às direitas, forte, escorreita da cabeça. Era ela que mudava as flores de plástico nas alminhas e as pilhas às lamparinas, que caiava a capela e tocava o sino e que, quando abria a porta ao forno, dividia o pão com uns desgraçados que aí andavam à fome; uma mulher de virtude que não se coibia de disparar a caçadeira contra a televisão quando se enervava com aquela pessegada… vejo-a tão apagada desde que lhe retiraram a licença de uso e porte de arma…

 

Voz humana (fechada no espigueiro, momentaneamente sem rede): Bem me enganou esta besta que nem sequer tem coragem para vir aqui em pessoa em vez de usar o telefone a partir de um lugar onde a rede está sempre a falhar. Desgraçado!… (fungando e murmurando) da próxima que ligares, vais falar com o cão que te cantará Edith Piaf enquanto eu me debulho em lágrimas e soluços para fazer a cena breve das exéquias desta paixão funesta em meio rural. Ó Boby canta aquela música para este ouvir ao telefone! Cantas?

 

Cão (pesquisando o Google Tradutor): Em francês, Bélinha? Je ne suis pas un petit basset griffon!, Allez, venez, Milord!, vou já organizar esses trinados em português distribuído pela partitura

Aventuras da Bélinha e do cão preto

Anda pra cá meu artista

Instala-te a comer sável

Lá fora está tanto frio

Aqui é confortável

 

Põe-te à vontade, marreta

Deixa-te levar por mim

Chora no meu regaço

Descansa os pés na escalfeta

 

Eu sei quem és, falcatrua

Tu não sabes quem eu sou

Moro no beco das docas

Sou uma sombra na ruuuuuuuuuuuuuuuuuuuua!

 

Voz humana (fechada no espigueiro, com o telefone em alta voz): Ouves o Boby, ó frédástére? Isto é que é uma verdadeira voz, um cão melhor que tu, um animal vivo, ossos, alma, patas, um corpo presente em plenos pulmões, visível, entendes? e não essa oratória sem alma filtrada pelas telecomunicações e que eu tenho que ouvir só pelo simples facto de esta coisa ter tocado e me aparecer o teu nome e eu atender sem sequer pensar se me apetecia falar contigo. Já nem posso dizer que estás por um fio, porque  este dispositivo nem tem fios, nem o espigueiro é uma cabine transparente onde me podiam ver a esbracejar sem se ouvir nada do que digo. Ouves a voz do Boby? Ouves?

Cão (a babar-se): Queres que cante outra vez?

Voz humana (fechada no espigueiro, a chispar): Canta, Boby, que o teu cantar vale mais que este a ladrar ao telefone a missa cantada do raio que o parta (risos nervosos). A tua voz, marreta, não vale nada porque tu (uns decibéis acima em letras maiúsculas) NÃO VALES NADA, entendes? Nem coragem tens para me olhares de frente! (arremessando o telemóvel contra o fasquiado do espigueiro e afirmando em tom solene) Acabou-se! Comprarei outro telemóvel e tu ficarás aí emaranhado na sucata electrónica em que existes (sossegando) Sairei do espigueiro, farei isso, ganharei outra voz, outro corpo, outra vida. Canta, Boby!

Cão (abrindo muito a boca, de focinho para o ar):

 

Eu sei quem és, falcatrua

Tu não sabes quem eu sou

Moro à porta da capela

Sou sol, sou filha da luuuuuuuuuuuuuuuuuuuua!

Da luuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu (inspirando) luuuuuuuuuuuuuuuuuuuua!

 

uuuuuuuuuu………a! e mais digo que, citando Agamben que muito comi misturado com a ração, que aquela que se deixa capturar no dispositivo telemóvel, qualquer que seja a intensidade do desejo que a impulsionou, não adquire por isso uma nova subjectividade, mas apenas um número pelo qual pode ser, eventualmente, controlada. Força Bélinha! Descontrola-te! Ganha volume! Liberta-te! Toca a sineta que outro tempo começará! Mandaremos britar estes muros e estas pedras! Pintaremos tudo com outra vida cor de transparente, instalaremos a alma da alegria neste nicho e fios de cobre novamente neste poste para ligar a um telefone fixo na tua cabeça giratória e livrar-te-ás dessa cisma de pensares que só tens rede dentro do espigueiro que te aprisiona, que é no espigueiro que estás segura como o milho fora do alcance dos ratos! Canta Bélinha! Ladra! Faz-te à vida sem telecomunicações! Sai do espigueiro!

 

(repica a sineta e fecha o pano)

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