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Conversas da Puericultura Enlouquecida

Personagens: 5 cegonhas em cuidados com a criação

Época e lugar: num condomínio aberto sobre estacas, com vistas e muita aragem

 

Cegonha (a última, ainda sem filhos): Não há meio de me nascerem as crianças. Estou farta de estar sentada sobre estes três ovos aquecidos sem uma única rachadela, sem sinal algum de que o que tenham lá dentro se mexa.

Cegonho (o do meio): O cegonho que te galou terá alguma responsabilidade nisso. Bem te disse que devias ter tido uma conversa antes de te precipitares com essa história que contam acerca da monogamia da espécie e ao que sei nunca mais o viste, nem ele te procurou. Apanhas muito vento na cabeça, mana, muito arejo, muito pouco conhecimento do mundo e da procriação e depois encalhas para toda a vida com o primeiro que te aparece. Esse cegonho sempre viveu num ninho daqueles além nos postes da alta tensão e todos sabemos que isso prejudica a fertilidade e a escorreiteza, pois… aquilo sempre a zumbir e a dar chispas… estou farto de ler sobre isso dos campos electromagnéticos, coisa muito diferente dos campos de arroz e da tensão alta. Desiste. Já passaste quase o dobro das semanas suficientes para chocar esses ovos que nem para gemadas já servirão.

Cegonha (a última): Se te calasses! Sempre a mandar palpites sobre o que não sabes, tu que nem sequer ganhaste a confiança da cegonha que usava esse ninho e que já não vemos por cá há meses; ela que até tinha deixado de migrar por causa do clima e do controlo de fronteiras e que passou anos aqui alegre e atarefada a acrescentar esse ninho para o alto com a mania de ver ao longe. Os ovos são meus e faço deles o que eu quiser, omeletas, ovos moles ou palha de Abrantes. Tu mete-te na tua vida e deixa de vir para aqui bater ao bico e envenenar a vizinhança como os pesticidas nos campos. Vai-te catar, vai ao futebol, anilha-te, vai-te electrocutar à alta tensão!

Cegonho (o do meio): Tanta violência e agitação, miga! Calma. Estás amofinada pela baixa natalidade que aí vai, mas para o ano há primavera novamente, percebes? Entretanto, podemos voar até à praia, ir juntos à lixeira procurar pipocas e batatas fritas, ir aos lagostins-vermelhos dos arrozais, dançar, bater com o bico e atirar a cabeça para trás, ficar de perfil em contra-luz ao fim da tarde no sunset até, quem sabe, ir a Paris e trazer de lá um ranhoso pequeno para os humanos. Tantas coisas que podemos fazer…, um assotado neste ninho com jacuzzi, planar nas correntes térmicas, ganhar alturas e chegar às cimeiras do clima nos resorts de luxo, às democracias das arábias, à televisão… 

Cegonha (a penúltima, debruçada sobre a criação que teima em não dormir):

Os passarinhos
Tão esganados,
Fazem alheiras
Com mil cuidados. 

São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
As vão fazer.

Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas (…)

Cegonho (o do meio): Credo! Que cantoria que tu sabes tão confundida e fora d’época e tão mal conotada! Andaste a ler livros da escola de outros tempos (à parte) na lixeira, talvez… encontra-se lá muita coisa. Qual musgo e penas? Isso é a passarada pequena, desprovida de mentalidade evoluída e sem estudos sobre materiais de construção e engenharia civil. Nós somos da natureza sintética, do mundo moderno de asa larga e perna longa! Cala o bico que se as crianças ouvem essas pieguices muitas vezes repetidas, ficam atrofiadas para todo o sempre…

Cegonha (a penúltima, retomando, depois de respirar fundo):

Depois, lá têm
Os seus meninos,
Como pepinos
Ao pé da mãe.

Nunca se faça
Mal à sardinha,
E à linda graça
Da passarinha!

Que nos lembremos
Sempre também
De um barco a remos,
Da nossa mãe!

Cegonho (o do meio, insistindo): Ui, que te baralhas toda com o matraquear do repertório todo da passarinha! Nem o Afonso Lopes Vieira, se fosse cegonha viva, saberia responsar essa lengalenga, miga! Vê se te orientas com a letra! Terás, por certo, apanhado muito fumo de escape dos camiões que por aqui passam a esfumaçar e precisarás de espairecer e reformular essa estética bolorenta em ré menor e verso atamancado,

Cada cegonho
Despassarado
Usa no ninho,
Cimento armado

Da mãe que temos,

Dos nossos pais,

Venha fartura

E nada mais!  

 

Cegonha (a primeira, de pescoço retorcido): Chiu! Não haverá sossego neste condomínio? E se fossem a Viseu? E se contassem carros a passar para Vilar Formoso, de manhã e para o outro lado, pela tarde, a ver quando passam mais? Que vos parece? … e matrículas organizadas por ano e números primos? Estou farta dessas conversas, dessas cantorias, farta de estar aqui junto destes dois monos de bico p’ra baixo e ar ausente, cheios de fome à espera que o pai lhes venha regurgitar qualquer coisa… e nada. Tirou licença de parto, o finório; disse que me ia ajudar com os gémeos e é o que se vê. Desde que nos mudámos para aqui, só fala em motas, cores de motas, marcas de motas. Nem lesmas é capaz de caçar, quanto mais lagostins e restos de carne estufada escondidos nos aterros sanitários onde passa o tempo na mineração de jornais desportivos e de cripto-moedas para ir ao restaurante comprar chanfana engarrafada em jarros de gargalo estreito para se vingar de certas raposas que vivem nas fábulas. Tretas! Conversa de adormecer batráquios congelados!

 

Cegonha (a segunda, com três crianças): O mesmo te digo, vizinha. Sempre que levanta voo, o pai destes três é incapaz de se orientar para outro destino que não seja o que encontra ao longo destas longas tiras de asfalto sem fim por quilómetros e quilómetros a mais de cem à hora, distraindo-se com tudo, com as estações de serviço, os preços do gasóleo, as promoções nas lojas das áreas de serviço, o piscar das luzes dos automóveis da brigada de trânsito, as portagens. Da última vez que voou para longe, foi ao Alentejo conferir uns dizeres que leu num escrito datado de 1911, ainda a República ia no adro, cheio de erros ortográficos e que o teu cegonho deixou aí no chão por não ter retratos de motas e onde se lia que as cegonhas são estimadas por todos, e por isso não temem o homem, que quasi as pode apanhar á mão. Uma vez apanhadas, facilmente se prestam á domesticidade, aprendendo até a correr atraz do dono e acompanhal-o a toda a parte. Comtudo porém, dotadas de grande philosophia, chegada a epoca dos maiores rigores do clima, esquecem tudo, abandonando a casa hospitaleira e as pessoas amigas, e vão em busca de regiões mais suaves, etc.”…, ainda anda por aí a capa com o título, O Alemtejo – sua descripção geral, principaes producções e projectos de irrigação, e o nome do autor, um tal Mário Vieira de Sá. Disse que tinha de ir lá ver porque tudo aquilo lhe parecia esquisito, excepto os projectos da irrigação e a tal filosofia com ph. A cena da domesticação, sobretudo, deixava-o depenado de tanta irritação. De todas as naturezas que há – incluindo a sobrenatural e a artificial que nos serve de alicerce para estas casas ventiladas –, a doméstica é a pior de todas, salvo seja, que o que mais vejo quando vou à caça pelos sapais, são aviários, vacarias, talhos e restaurantes de frango assado, porco e vitela de Lafões… 

 

Cegonho (o do meio, há demasiado tempo calado): Pois…, que assunto tão aborrecido. Têm ido a Estarreja apanhar girinos e snifar dióxido de enxofre e óxido nitroso? Muito bom…! Rejuvenescedor, fortificante neuronal, abrilhantador do bico escarlate, da pena preta e da perna rubra. E Viseu? Existem lá colónias de cegonhas solteiras, aterros sanitários, campanários, ninhos já feitos, anfíbios comestíveis? Tem arrozais, lezírias, WiFi, gafanhotos? Quem foi Viriato, barba crespa e guedelhas retorcidas? E a cava? Nação porque reencarnaste, / Povo porque ressuscitou / Ou tu, ou o de que eras a haste – / Assim se Portugal formou… (lembro-me disto a propósito já não sei de quê).

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