Diana Spencer, ilustração de Lia Ferreira

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

We’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their house and look in for a change.

Stella, Rear Window (1954).

 

 

Podes fechar a janela? Um pouco mais?

Pergunto-te, muda, com um movimento breve de olhos, acreditando em poderes telepáticos, teus, que ainda não mencionaste mas decerto possuis.

Pareces anuir a cabeça, mas era um pássaro que parecia dirigir-se à carruagem.

Presságios?

Recordo-me da pomba morta atacada pela gaivota em pleno voo no Vaticano.

As pombas, sempre as pombas, esse pássaro humilde da cristandade, a serem assassinadas. Por milho, proibições da câmara ou transeuntes (in)felizes.

 

Que frio que faz, penso, enquanto viro a página do jornal: gosto da letra grafada, da tinta impressa, em vez do kindle com o anúncio da batata frita e o beep beep.

 

Lembras-te do carro de Diana Spencer e das fotos?

Somos quase todos obscenos no olhar.

 

Em miúdos, na era distante dos anos 80 – aquela agora recuperada em Stranger Things e outras séries que a tua geração acompanha – as velhas espreitavam o tempo lentamente através da frincha da janela.

E todos se beijavam debaixo dessas mesmas janelas, em madrugadas quentes de Verão, corpos iniciantes e iniciados na vida sexual.

O cheiro do orvalho, pensava.

 

Mas talvez fosse a inexperiência aliada ao olhar perscrutador das velhas na persiana a alimentar as mãos a descerem por debaixo das blusas a avançarem em direcção ao triângulo proibido.

O olhar.

 

Das vizinhas cuscas.

Do colega no cubículo ao lado no escritório.

O ecrã e as redes sociais: a multiplicação das janelas – todos (quase todos) passam no crivo, e oferecemos o corpo ou a vida, mais ou menos verdadeiramente, mais ou menos despudoradamente.

 

A net sangra todos os dias, quer mais Mercedes a 120 km/h a estamparem-se em Paris. Quer miúdas apanhadas em nudes casuais.

 

Em dias em que tens o coração ao pé da boca e desabafas na janela do ecrã como se estivesses no café regular: porque esqueces o vizinho da janela, estranho, ali à espreita, pedem o teu corpo servido para o menu de almoço.

Servido quente como a cabeça de João Batista a servir Salomé.

Um amuse-bouche.

 

A net nunca esquece, armazena, reedita, censura.

As pontes tombam e torçam de cadeados presos sob juras esquecidas, traídas.

O peso do tempo e o fantasma do amor.

Faz um pouco menos frio agora.

Vemos filas de árvores cujo nome desconheço e à minha frente continuas a ler um livro que não consigo decifrar o nome.

 

Imagino um parágrafo:

 

Fading. Prova dolorosa segundo a qual o ser amado parece retirar-se de todo o contacto sem que esta indiferença enigmática se volte contra o sujeito apaixonado ou se decida em benefício de outro, seja ele quem for, mundo ou rival.

 

(Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edições 70)

 

Podíamos trocar duas palavras, impressões, mas lemos.

Leio sobre o aniversário da guerra Rússia-Ucrânia e um dossier de fundo sobre a especulação imobiliária em Portugal e as pessoas que voltam finalmente à rua, a reivindicar um tecto.

 

Sem um tecto é possível viver?

Viver sem ser subsistir?

 

Viver, enregelado em cobertores doados por uma carrinha de voluntários levados pela mão de deus ou Iaveh, ou os Santos dos Últimos Dias, ou outra fantasia qualquer, ou só um grupo de voluntários anónimos movidos por uma vontade sem nome.

O frio e o olhar.

 

Passam, agasalhados por ti, cidadãos que fotografam a tenda, o saco, a casa improvisada. Almas boas da internet.

A pornografia do olhar.

Puta que os pariu! penso e perante a tua cara de espanto temo que me tenha distraído e dito neste português vernacular o que pensei, mas sorris de mansinho (os olhos safira, ainda, como numa estátua renascentista, o olhar doce mas distante) e regresso a mim.

Desculpe, digo timidamente, mas sem corar, como acontecia nas noites de Verão, longínquas.

 

Viro a página.

Penso nas casas que tive, nas trouxas que fiz, nos livros que não me devolveram, em tantas peripécias, leitor, que de igual modo à tenda do sem-abrigo não te quero trazer agora em modo polaroid escrita porque a emoção barata é pornografia romantizada.

Uma contradição nos termos.

 

A reportagem de Zelensky e da esposa na lente de Annie Leibovitz.

Pensei: o aviltamento do olhar.

Disseram-me: a comoção do olhar.

Pensei: como podem os dois coexistir?

O inferno da guerra prosseguiu, indiferente a tudo isto.

 

Um telemóvel deixa cair os phones, e uma miúda ouve Amy Winehouse, que partiu cedo demais. Bigger than life, premiu stop. 

 

Ouço-a :

(…)

I knew I hadn’t met my match

But every moment we could snatch

I don’t know why I got so attached

It’s my responsibility

And you don’t owe nothing to me

But to walk away, I have no capacity

He walks away

The sun goes down

He takes the day, but I’m grown (I’m grown)

And in your way

In this blue shade

My tears dry on their own

I don’t understand

Why do I stress the man?

When there’s so many bigger things at hand

We coulda never had it all

We had to hit a wall

So this is inevitable withdrawal

(….)

 

E recordo-me dela, bela e trôpega, voz rouca e afónica.

Uma miúda gigante esmagada pelo mundo.

Ah, os anos oitenta!

 

Nos anos oitenta e nos anos noventa, havia uma tradição nas escolas de ciclo em Portugal: no dia de aniversário, podias ser presenteado com ovos crus seguidos de farinha, e por vezes, no caso dos rapazes, levado ao poste. Pernas abertas, entalado num poste.

Brincadeiras idiotas e violentas, penso, enquanto imagino que falas comigo.

 

O Mercedes antes do Mercedes, a humilhação em particular dos mais tímidos, em dia de anos.

A selva.

A net substitui a selva.

O ímpeto continua: as tribos, as claques, as discussões.

As impossibilidades de discussão (sem leões como os romanos, mas com pão.

E algum circo).

 

Bam! Quantas vezes vamos de Mercedes contra a parede?

Bam! Quantas vezes provocamos o acidente?

Bam! Quantas vezes compramos a notícia?

A miséria do outro é a nossa pomada do dia-a-dia?

 

Passamos por cavalos que mastigam pacificamente, casas em ponto menor, e invade-me uma ideia de silêncio possível.

Uma utopia que me alimenta sempre que penso em fugir da cidade.

Fugir do conhecido, sendo que vou sempre presa a mim.

 

Gostava de te conhecer melhor.

Descobrir se lês Thomas Bernhard ou James Ivory.

Se gostas de ovos bem cozidos ou à la benedict.

 

O interesse no Outro é sempre irrisório, necessário, imprevisível e obsceno.

 

Penso na casa, tenho saudades dela.

Da mobília gasta, dos livros à espera de sair da estante, do cheiro a alho na cozinha.

A fortuna de ter uma casa onde se pode fechar as janelas.

E sonhar com acidentes de Mercedes que findam e não se reproduzem.

O fim da festa da carne, dirias.

A salvação da pomba.

Amém.




_
Ilustração de Lia Ferreira

Relacionados

Dicas de beleza para futuros falecidos
Boa Vida
Rafaela Ferraz

Dicas de beleza para futuros falecidos

Há duas fases da vida em que se torna absolutamente essencial ter uma rotina de cuidados de pele: a vida propriamente dita, e depois a morte. Felizmente, a indústria da beleza fatura cerca de 98 mil milhões de dólares por ano nos EUA, a indústria funerária 23 mil milhões, e

Ler »
George Carlin e a Verdade na Comédia
Artes Performativas
Pedro Goulão

George Carlin e a Verdade na Comédia

“Dentro de cada cínico, existe um idealista desiludido” Quando comecei a escrever na Almanaque, o Vasco M. Barreto pediu-me que não escrevesse sobre o estafado tema dos limites do humor. Aceitei, mesmo tendo em conta que isso era um limite ao humor, pelo menos o meu, e que alguns números

Ler »
A queda do Governo e o Império Romano
Em Destaque
André Canhoto Costa

A queda do Governo e o Império Romano

1. Quando o Criador, na sua infinita sabedoria, inspirou ao apóstolo a visão tenebrosa do Apocalipse, nunca imaginou vir a ser superado pelos comentadores políticos portugueses na noite do dia 8 de novembro de 2023. Com efeito, os quatro cavaleiros saídos da abertura do primeiro selo do rolo manuscrito na

Ler »