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O Maravilhoso Potencial da Inutilidade

Tinha este texto “na gaveta”, mas acaba de ser anunciada uma possível fusão entre o Instituto Gulbenkian de Ciência, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o Instituto de Medicina Molecular, da Universidade de Lisboa. A ideia, dizem-me, é criar o maior instituto de ciências da vida da Península Ibérica, com uma forte componente biomédica e ligação ao Hospital de Santa Maria. Uma vez que esta fusão surge na sequência de uma série de outras decisões políticas que empurram a ciência no caminho de uma maior aplicação, que forçam a ciência a ser cada vez menos fundamental e muito menos independente, achei por bem recuperar o texto e acrescentar esta introdução. O tamanho conta, mas está longe de ser o mais importante.

 

Em 2016, tive o gosto de apresentar o livro Uma coisa não é outra coisa de José Maria Vieira Mendes (JMVM)[1]. Esta adaptação da sua tese de doutoramento centra-se na tensão entre teatro e literatura, mas, como não percebo nada de literatura e ainda menos de teatro, combinámos que eu iria falar apenas sobre ciência. Isto porque, pareceu-me na altura, a tese era também sobre a necessidade de colocar coisas em caixinhas estanques e sobre o difícil que é fazer uma coisa sem ter de a obrigar a não ser outra coisa (ou a ser uma coisa qualquer, bem definida). Essa é uma discussão que cada vez mais vamos tendo dentro das ciências: tendo começado por ser uma coisa única, uma procura conjunta, foi-se especializando em disciplinas e subdisciplinas e ainda recentemente  ouvi um colega dizer que faz investigação multidisciplinar porque combina dois tipos de biologia tão próximos que é quase preciso ser-se especialista em ambos para os distinguir. Fiquei sem perceber se a sua afirmação era irónica.

Claro que esta enumeração e divisão das ciências em caixinhas foi muito útil durante muito tempo. A especialização e a dedicação ao pormenor, principalmente durante os dois últimos séculos, permitiram uma compreensão mais profunda e detalhada do mundo. Igualmente, dentro das artes, o avanço da técnica foi levando a uma especialização e são cada vez mais raros os “homens dos sete instrumentos”.  O problema surge quando a categorização deixa de ser uma forma de organizar ideias e passa a ser um entrave ou um fim em si mesmo, podendo criar três problemas centrais que tentarei discutir: 1) é cada vez mais difícil comunicar mesmo dentro de cada (sub)área e esta dificuldade de comunicação e hiperespecialização limitam a abrangência das perguntas; 2) a ciência está a ser vítima do seu próprio sucesso e cientistas tendem a focar-se no seu problema muito específico e transformam-no unicamente numa procura de respostas, limitando a abrangência das ideias; e 3) a categorização cria hierarquias e ideias de pureza.

Começo pela última, da hierarquia, que é talvez a menos interessante, com dois exemplos.  O primeiro é retirado do ensaio de JMVM que, no contexto da criação teatral revela uma certa frustração ao escrever: «não tenho qualquer necessidade de expulsar o teatro da literatura dramática ou a literatura do teatro, como não tenho de expulsar o ator do teatro ou as luzes ou os linóleos ou as flanelas ou a caixa preta. Apenas tenho vontade de poder fazer um espetáculo sem atores, texto ou flanelas ou caixa preta e que este espetáculo não seja entendido como uma afirmação contra o teatro. Como se se tratasse de um espetáculo “diferente”, “reativo”, “antiteatral”, “adolescente”, etc.». Será necessária uma definição rígida, uma classificação, do que constitui teatro? E se esta existir, quantas novas classificações teremos de criar para o que não couber nessa definição de “teatro”? O segundo é uma anedota em que entra Enrico Fermi, figura tão fundamental da física que lhe foi dada a honra de ter o seu nome associado a um grupo de partículas elementares (os fermiões), nas quais se incluem, por exemplo, os electrões. Diz-se que estava Fermi numa fila de almoço quando um jovem investigador lhe perguntou qual a probabilidade de uma certa partícula existir. Fermi terá perguntado: “essa é qual?” e, quando o rapaz se mostra escandalizado por o professor não conhecer o nome das putativas partículas, Fermi teria respondido: “meu rapaz, se eu conseguisse decorar o nome dessas inutilidades todas seria botânico”. Note-se que Fermi não se coloca numa posição necessariamente superior, decorar nomes era capacidade que ele não tinha, pelo que teve de escolher outra arte (se bem que, como bom físico, é possível que visse todas as outras ciências como inferiores à sua). Mas, não sendo forçosamente contra a botânica, não achava que fosse necessário focar-se nesse tipo de pormenores para ter uma compreensão do problema. Uma coisa não tem de ser outra coisa.

Em segundo lugar, surge a questão da profundidade do debate. Cientistas tendem a defender a força das ideias e a liberdade que nos traz a incerteza, sem espartilhos de utilidade. No entanto, tanto a ciência como a arte, no seu crescente confinamento e dependentes de financiamento externo, sentem a tentação do utilitarismo e, por medo ou necessidade, apequenam-se. Justificamos a ciência dizendo que serve para curar doenças e tornar a vida mais confortável; e justificamos a arte dizendo que serve para entreter, para alegrar os longos dias pandémicos. Paul Nurse, premiado Nobel com uma vida que dava um filme (ou talvez um futuro artigo Almanaque), comentou num artigo relativamente recente que as palestras científicas estão cada vez mais cheias de dados e de resultados de experiências, evitando a discussão de ideias: «It is as if speculation about what the data might mean and the discussion of ideas are not quite ‘proper’»[2]. E existe um movimento no qual a ciência e a arte não têm de inspirar ou ser compreendidas, apenas usufruídas. Um exemplo extremo e actual é a aceitação de uma “inteligência artificial” não explanável, que desistimos de compreender, desde que nos sirva. Outro é confundir ciência fundamental (que se faz porque se quer saber) com ciência aplicada, que se faz porque nos pode servir. Por vezes, vamos um pouco mais fundo e defendemos que a ciência e a arte têm o propósito de aprender a observar, de treinar o espírito crítico. Com estas justificações, damos-lhes uma utilidade menos tangível, mas igualmente de serventia.

Por fim, surge a questão da comunicação. Em 2007, George Steiner tinha ido ainda mais longe do que Nurse quando perguntou se estaria a ciência a aproximar-se dos seus limites, dando o mote para a conferência anual da Fundação Calouste Gulbenkian. Ao longo de dois dias, vários cientistas reflectiram sobre a(s) fronteira(s) do conhecimento e sobre uma suposta desaceleração das novas descobertas. Em particular, Steiner menciona o problema cada vez maior da sobre-especialização, principalmente porque cientistas deixam de arriscar expressar opiniões sobre outras áreas, mesmo que próximas, e porque a informação é tanta e tão especializada, que: «there is now a distinct risk of collapse inward. Too often the significant and the trivial cannot be sorted out either rapidly or with certitude (…) It is becoming nearly impossible to have a general conspectus and overview in any but an impressionistic, perfunctory sense»[3].  Tal como o do fim da História, o anúncio do fim da Ciência é possivelmente a gross exaggeration, o que não quer dizer que esta não esteja em crise: em vez de abertura e risco temos o “publish or perish” que cria mercado para milhares de revistas científicas hiperespecializadas (entre elas o Journal of Parametric Practice, o Australasian Journal of Paramedicine, o International Journal of Paramedicine, o British Paramedic Journal, o Journal of Paramedic Sciences ou o Journal of Paramedic Sciences and Rehabilitation)[4].

Assim, a sobre-especialização, a linguagem específica, a incompreensão do que quer dizer “ciência fundamental”, a falta de discussão de ideias e de formas de as testar rigorosamente, abrem caminho para uma ciência que, na melhor das hipóteses, é apenas utilitária e, na pior, não se consegue distinguir de uma fraude de Sokal, em que conceitos científicos são apropriados por ignorantes ou manipuladores em busca de validação científica. E cientistas sofrem a tentação de se escudar na complexidade do seu trabalho para excluir “leigos” ou até para manipular narrativas.

Nada disto é novo. C. P. Snow, no seu famoso “The Two Cultures”, já se tinha queixado da dificuldade que pessoas das humanidades tinham em compreender as ciências (cada vez mais múltiplas) e, pior, da falta de vergonha que sentiam quando diziam não perceber nada sobre o assunto. Apesar de algum esforço e de bastante vergonha, é também assim que me vou sentindo no mundo das artes: é-me cada vez mais difícil compreender uma simples newsletter de programação teatral ou até textos de exposições. Têm tantas referências e auto-referências específicas, que só podem ter sido escritos para um público especialista e, consequentemente, cada vez menor e menos capaz de arriscar opiniões.

E é possível que esta frustração seja comum mesmo dentro do meio artístico. No recente livro O Desensino da Arte, as autoras Maria Sequeira Mendes, Marta Cordeiro e Marisa F. Falcón descrevem como as próprias escolas de artes se foram especializando tanto, e quase sempre em função da técnica, que é cada vez mais difícil a uma estudante de teatro interessada em cenografia frequentar cadeiras de belas-artes ou de design[5].

Então onde é que a conversa se torna possível? Naturalmente, é importante ter conhecimento específico e técnico no nosso próprio campo, mas parece-me que é no plano das ideias que se encontram pontes naturais e onde é possível aprender com o conhecimento mútuo. É quando são menos “úteis”, no seu sentido mais restrito, que têm mais potencial de partilha, por exemplo, na procura da beleza ou do prazer intelectual. Infelizmente, são cada vez mais raros os espaços onde cientistas de diferentes áreas se possam encontrar e cada vez mais raros mecenas que valorizem e apoiem investigação que “não sirva para nada”. Mais raros ainda são espaços ou ocasiões para conversas entre cientistas, artistas e outras.

Note-se, não são raras as vezes em que a arte nos serve para ter ideias para projectos, apesar de certamente não ter sido esse o seu intento, e não faltam exemplos de projectos de investigação que não tinham qualquer propósito para além de saciar a curiosidade e que deram origem a enormes avanços para a humanidade (e até a novas “estéticas”). Mas essa promessa parece já não ser suficiente.

Também n’O Desensino da Arte, as autoras citam Allan de Souza dizendo: “Sem que abandonem tudo o resto, a arte e a educação também deveriam almejar servir para absolutamente nada, um nada que resiste à instrumentalização para outros desígnios e que permite possibilidades que ainda não foram constrangidas”. Podemos facilmente substituir “Arte” por “Ciência” e perguntar o que devemos fazer para promover todo o seu maravilhoso potencial de inutilidade.

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[1] José Maria Vieira Mendes. Uma coisa não é outra coisa, Livros Cotovia. 2016

[2] Paul Nurse. Biology must generate ideas as well as data.” Nature 597 (2021), p. 305.

[3] George Steiner. “Is Science Nearing Its Limits?”, Fundação Calouste Gulbenkian (2008), p. xxiv.

[4] Esta lista não exaustiva de jornais em Paramedicina é apenas um exemplo e possivelmente nem sequer o melhor. Inúmeras áreas têm ainda mais revistas especializadas e terão nomes ainda mais próximos.

[5] Maria Sequeira Mendes, Marta Cordeiro, Marisa F. Falcón. O Desensino da Arte, Teatro Praga/Sistema Solar. 2022

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