Julia-Boyd_with_Angelika-Patel-A_Village_in_the_Third_Reich-How_ordinary_lives_were_transformed_by_the_rise_of_fascism

O ovo da serpente

E quando já tudo havia sido dito e escrito sobre o nazismo e o III Reich, eis que surge um livro como este: A Village in the Third Reich. How ordinary lives were transformed by the rise of fascism (Elliot & Thompson, 2022). A autora, Julia Boyd, que contou com a colaboração da historiadora alemã Angelika Patel, já antes tinha dado à estampa uma obra sobre os viajantes na Alemanha nazi (Travellers in the Third Reich. The rise of fascism through the eyes of everyday people, 2018), a qual, sendo curiosa e interessante, não tem, de modo algum, o fulgor deste seu trabalho mais recente.

         A trouvaille de Julia Boyd não reside no facto de ter escolhido captar o avanço do nazismo através dos olhos dos cidadãos comuns, já que, nessa perspectiva, muitos outros antes dela haviam feito incursões semelhantes, das quais as mais conhecidas serão, porventura, Os Carrascos Voluntários de Hitler. O povo alemão e o Holocausto, de Daniel Jonah Goldhagen, e O Estado de Hitler. O poder nacional-socialista de 1933 a 1945, de Norbert Frei, ambos publicados entre nós pela Editorial Notícias. Sobre o nazismo no quotidiano, uma das obras mais originais que conheço não tem sequer pretensões historiográficas, mas iconográficas, e chama-se Hitler dans mon salon, da autoria de Riss, uma assombrosa compilação de dezenas de fotografias tiradas entre 1933 e 1945 e que mostram o omnipresente retrato do Führer nos interiores domésticos alemães. Também em francês, é impressionante o relato autobiográfico de Géraldine Schwarz (Les Amnésiques, de 2017), que mostra como os seus avós beneficiaram da perseguição aos judeus em Mannheim e, mesmo no pós-guerra, recusaram assumir-se como Mitläufer, os milhões de alemães comuns que, com diferentes graus de culpabilidade, se tornaram cúmplices voluntários de Hitler, mesmo que não tenham trilhado caminhos tão bárbaros e assassinos como os dos membros do Batalhão de Polícia de Reserva 101, descritos por Christopher Browning no arrepiante Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland.

         Em face de tão abundante literatura, a originalidade de Julia Boyd consistiu, por um lado, em optar por analisar o nazismo «a partir de baixo», e, por outro lado – e mais decisivamente –, em concentrar o seu olhar numa aldeiazinha perdida da Baviera, no meio de um cenário idílico, de encantadora inocência. Para isso, beneficiou em muito de um dado singelo, infelizmente raro em Portugal: Oberstdorf tem o culto da sua história e conserva em arquivo, com escrúpulo e minúcia, tudo quanto diga respeito ao seu passado, mesmo quando este se afigura mais sombrio e até abominável. Aliás, a alemã que colaborou na obra, Angelika Patel, tinha sido autora do volume da história de Oberstdorf relativo ao período da ascensão do nazismo e da 2.ª Guerra e a escrita deste livro surgiu de uma conversa casual com Julia Boyd, que já anteriormente se dedicara a escrutinar o governo de Hitler a partir da perspectiva dos cidadãos vulgares e comuns (mesmo que, em muitos passos do seu Travellers in the Third Reich, se fale de viajantes famosos, não propriamente de turistas anónimos).

         Sem receio de exagero, não há muitas obras que, como este livro A Village in the Third Reich, nos permitam perceber a lenta progressão do nazismo e compreender o que ele realmente foi e, sobretudo, como é que ele conseguiu dominar, de forma tão eficaz e letal, a alma de milhões de alemães. Tem, por isso, a vantagem de permitir desmontar estereótipos com o seu quê de xenófobo e racista, segundo os quais os povos germânicos estariam mais predispostos do que outros ao uso da violência, ao culto da obediência e da ordem, ao desprezo pelos seus semelhantes, ao anti-semitismo abjecto. O que aqui se mostra, pelo contrário, e sem de modo algum «normalizar» o nazismo, é que este representou um avanço «normal», um caminhar passo a passo rumo à tirania, feito paulatinamente, umas vezes em cadência lenta, por aproximações sucessivas e tentativas, outras a um ritmo rápido, com golpes brutais, exemplares e aterradores.

         Se esta noção de avanço progressivo do nazismo é o primeiro ensinamento que poderemos extrair do livro – de resto, bem actual –, a segunda lição relaciona-se com a diversidade e a complexidade do fenómeno, a que corresponde outra tanta diversidade e complexidade das atitudes e dos gestos dos que a ele se sujeitaram, ou opuseram. Sem pretender, de modo algum, atenuar responsabilidades ou branquear o nazismo, Julia Boyd mostra-nos que, a este nível «micro», e ademais provinciano e rural, os seus protagonistas foram seres humanos de carne e osso, pessoas concretas que, consoante a sua ética e a sua personalidade, se comportaram de forma muito, muitíssimo, diferenciada (o caso mais emblemático foi o do presidente do município, Hans Fink, na aparência um devotado nazi, na prática um homem que, na medida do possível, protegeu muitos judeus e opositores ao regime). Uma constatação deste género só é possível, obviamente, quando se procede a uma análise muito fina, microscópica, averiguando o perfil de cada um dos intervenientes, acompanhando o seu quotidiano quase dia-a-dia, algo que tem sido feito em relatos memorialísticos ou através da publicação de diários e escritos íntimos (v.g., o de Victor Kemplerer), mas que agora é enquadrado numa perspectiva histórica mais vasta, que nos permite ver, entre o mais, a forma como os «grandes acontecimentos» ocorridos «lá fora», no exterior de uma aldeiazinha nos Alpes bávaros, marcavam fatalmente os destinos dos seus habitantes, ora chamados para combater na Rússia, ora perseguidos pelas medidas antijudaicas, ora sujeitos à privação e ao racionamento. O «ponto de vista de Oberstdorf», chamemos-lhe assim, é extraordinariamente interessante porque surge como conivente e integrado nas grandes transformações ditadas a partir de Berlim ou Munique, mas, em simultâneo, como distante e remoto em relação a elas, mesmo que não consigamos perceber – nem era esse, de resto, o propósito da autora – como se formou o mosaico entre centro e periferia, entre o urbano e o rural, ou seja, em que medida Oberstdorf conseguia ser autónoma perante o fulcro do Reich, o que obrigava, uma vez mais, a um permanente processo de negociação e ajuste, quase semelhante ao estabelecido entre o Estado nazi e os seus cidadãos, ou súbditos.

         A terceira mais-valia deste livro, essa não tão original, mas ainda assim importante, prende-se com a descrição do nazismo no quotidiano, mostrando, por um lado, o seu avanço por etapas e, por outro, revelando as estratégias de adaptação que todos, aderentes e opositores, foram desenvolvendo ao longo de meses e anos. No fundo, o livro mostra que mesmo a tirania é um processo de negociação entre o poder – ou, melhor dito, os poderes, já que aqui muitos se cruzavam, desde o central ao local – e os seus destinatários. Da parte das lideranças, houve avanços brutais, violentos, mas também recuos significativos, sobretudo quando encontravam a resistência das populações ou da Igreja Católica, que aqui teve um papel de discreta e extrema importância. A dado passo, quando se pensa construir novos edifícios num terreno comunitário, gerido há séculos pelos anciãos da terra, são mesmo expostas as contradições do regime, que tanto assentava numa ideia vanguardista de modernidade, baseada na indústria e no progresso, como cultuava o campo e os camponeses, tidos por mais puros e mais autenticamente arianos do que os habitantes das cidades. No livro adivinha-se também a tensão, a enorme tensão, que implicava conviver dia-a-dia com o nazismo (como, de resto, com todas as tiranias): seja para os que se lhe opunham, seja para os que a ela aderiam, a ditadura obrigava a um sem-fim de gestos, de expedientes, de manobras e truques, que denotavam diferentes graus de envolvimento ou de repulsa. Um dos casos paradigmáticos foi o das freirinhas franciscanas lideradas pela Irmã Biunda, que desde há décadas viviam na aldeia, onde se dedicavam a ensinar lavores e bordados. O livro descreve a forma insidiosa como os nazis foram sufocando a sua actividade, que acabou por ser proibida, mas, ao mesmo tempo, o modo cauteloso e manhoso como o fizeram, sobretudo nos primeiros anos de domínio. O mesmo se diga com a forma com que lidaram com personalidades que, por variadas razões, tinham intocável prestígio local, fosse porque se haviam destacado em proezas alpinistas, fosse porque eram artesãos famosos na Baviera inteira. Aos que julgam que o nazismo chegou, viu e venceu, arrasou pela força e calou pelas armas, este livro desvenda um rendilhado de pequenos gestos, quase todos simbólicos (por exemplo, o hastear das bandeiras nazis, a exibição do retrato do Führer), a partir dos quais se teceu a opressão mais vasta. Depois veio a guerra e, com ela, tudo mudou.

          A quarta e última reflexão que este livro sugere prende-se com a forma como, no pós-guerra, os habitantes de Oberstdorf geriram o seu passado de trevas. Fizeram-no, desde logo, com o mesmo oportunismo com que antes haviam saudado Hitler (ainda que, importa dizê-lo, o livro de Boyd seja avesso a esse tipo de generalizações e juízos de valor). Fizeram-no, também, num contexto de terríveis privações materiais, com a população da aldeia a duplicar devido ao afluxo de milhares de refugiados. E fizeram-no, por último, através de uma estratégia de silenciamento e de voluntário esquecimento que, nesse plano, não foi diversa da adoptada no resto da Alemanha, como o mostra um outro livro recente, também ele de excepcional interesse, da autoria do jornalista Harald Jähner, Wolfszeit. Deutschland und die Deutschen, 1945-1955, de que existe tradução inglesa (Aftermath. Life in the fallout of the Third Reich, 1945-1955). É possível, quase certo, que os Aliados, em articulação com os novos titulares do poder, tenham contribuído e até imposto essa estratégia de apagamento e desmemória, com vista a evitar confrontos graves e até, porventura, uma guerra civil como a então eclodida na Grécia. Ainda assim, e atendendo ao que ocorreu em Oberstdorf, surpreende a raridade dos ajustes de contas e das vendettas, o conformismo generalizado, o convívio, difícil mas inegável, entre antigos e figadais inimigos. A geração seguinte, como é sabido, iria questionar os alemães do pós-guerra por tão singular atitude, havendo mesmo quem considere que a revolução sexual dos anos 60 foi uma forma de os jovens da época se libertarem em definitivo, e em termos freudianos, da cumplicidade passiva dos seus pais (veja-se Sex After Fascism. Memory and morality in twentieth-century Germany, de Dagmar Herzog).

         Quem leia este livro pode impressionar-se pelo contraste entre a beleza da paisagem da terra, a harmonia e a ordem seculares, e o negrume trágico do seu passado, como se aquelas casas brancas, o campanário da igreja, as vaquinhas e os prados verdejantes escondessem um terrível e misterioso segredo. Mais realista é concluir que quer a beleza, quer o negrume, são representações que fazemos de uma realidade mais simples e crua, mais prosaica: uma aldeia bela, mas pobre, habitada por humanos que, como humanos, se deixaram seduzir pela promessa de uma vida melhor, mais tranquila e sobretudo mais próspera. A troco dessa promessa, não hesitaram em matar, ou aceitar que em seu nome matassem. Alguns, como sempre, ousaram resistir e opor-se. Desses, uns tiveram o infortúnio de Dachau e da morte; outros acabaram glorificados como heróis. Entre os aderentes fervorosos e o punhado dos mártires, uma enorme massa de gente que foi evoluindo nas ideias e na vontade, adaptando-se como pôde e soube. Houve ritmos e tempos diferentes, antes e depois da guerra, consoante o fluir e o evoluir da guerra, e uma densa floresta de atitudes e de comportamentos individuais. A «complexidade» em nada desculpa, sobretudo os crimes mais graves, mas convém termos consciência dela.

O ovo da serpente

Julia Boyd (com Angelika Patel), A Village in the Third Reich. How ordinary lives were transformed by the rise of fascism, tradução inglesa, Londres Elliot & Thompson, 2022, 459 pp.

Relacionados

Simpatia Inacabada #10
Filosofia e História
Alda Rodrigues

Simpatia Inacabada #10

APANHAR AMORAS #2   Tudo existe para se transformar em palavras? Nós próprios podemos ser só respiração que deseja transformar-se noutra coisa. Em vez de falarmos em voz alta, murmuramos, como a água a correr, os ramos das árvores ao vento, as abelhas e outros insectos. Música do sentido? No

Ler »
Dicas de beleza para futuros falecidos
Boa Vida
Rafaela Ferraz

Dicas de beleza para futuros falecidos

Há duas fases da vida em que se torna absolutamente essencial ter uma rotina de cuidados de pele: a vida propriamente dita, e depois a morte. Felizmente, a indústria da beleza fatura cerca de 98 mil milhões de dólares por ano nos EUA, a indústria funerária 23 mil milhões, e

Ler »
George Carlin e a Verdade na Comédia
Artes Performativas
Pedro Goulão

George Carlin e a Verdade na Comédia

“Dentro de cada cínico, existe um idealista desiludido” Quando comecei a escrever na Almanaque, o Vasco M. Barreto pediu-me que não escrevesse sobre o estafado tema dos limites do humor. Aceitei, mesmo tendo em conta que isso era um limite ao humor, pelo menos o meu, e que alguns números

Ler »