Fotografia de Álvaro Domingues

Pastagem rotacionada

Personagens: 5 ovelhas adultas e duas crianças

Época e lugar: Inverno num lugar que já foi outro

 

Ovelha malhada (distraída a roer erva): Que viemos aqui fazer?

Ovelha mais ao fundo (compenetrada no comer): Não faço a mínima ideia. Continua a comer que está ali alguém a fotografar. Se te perguntarem alguma coisa, diz mé com um bocadinho de vibrato, pouco.

Ovelha malhada (sem parar de roer erva escassa):  Mé é o que habitualmente dizemos. Quero lá saber se está alguém a fotografar. Por mim, estou à vontade. Eu até já fiz uns trabalhos de modelo porque tenho estes soquetes brancos, o pelo castanho, cabeça preta com uma poupa branca e aquele toque em cor creme esfiapado na cauda. Hoje em dia há muita procura pelo visual híbrido para muitas cenas que antes só tinham solução binária, o mundo em duas versões mutuamente exclusivas, avessas à biodiversidade e ao artigo indefinido.

A outra ovelha branca de cabeça para baixo:  Muito inventas, colega. És um artigo demasiado definido nessa conversa. Concentra-te. Esta erva é uma lástima. Se viemos cá por causa do pasto, está esclarecido e está no ir. Aquelas duas parece-me que já vão. Coitada da cornúpeta sempre com as crianças atrás, criaturas impertinentes que já podiam estar desmamadas há que tempos. Lá estão elas penduradas na leitaria mesmo em andamento. Cruzes!

A ovelha cornúpeta com os dois gémeos: Tu que do mundo só sabes o que apanhas de cabeça para baixo, o que é pouco e raso, deves ter alguma cisma por causa das crianças. Sempre as mesmas observações, as mesmas incomodidades, ou por uma coisa, ou por outra. Inveja, é o que é. As crianças são minhas e acompanham a mãe como é normal nas sociedades que não têm creches suficientes para a dimensão do rebanho e a vida incerta das progenitoras. Não vejo a razão pela qual isso tanto te incomode e te julgas ovino emancipado contrariando as leis da natureza e da reprodução não assistida, uma cria em cada ano, quando não são gémeos como os meus borreguitos que foram gerados em lua propícia de quarto crescente como diz nos almanaques.

A ovelha negra (em modo de saída): Melhor calarem-se. Não suporto este ambiente de constante confrontação. Imagine-se o que seria num rebanho a sério uma gritaria entre dez ou vinte ovelhas com o vosso feitio. Não se aguenta e depois ainda passam o tempo a dizer que eu é que sou a ovelha negra, o espírito da contradição sempre a desconversar. Tretas. Quando era mais nova, era de um ruivo que até fazia faíscas de inveja. Entretanto escureci, ganhei outro estilo e distinção e esta perna fina que me faz o andar gracioso e ágil. A ovelha negra, o bode expiatório e o patinho feio fazem parte de uma zoologia perversa feita de falsa moral e más recomendações. Tudo isso junto não vale mais que um prato de caganitas no cômputo geral daquilo que sei do mundo. Ovelhas brancas é o que mais há. Vulgaridades. Dos meus tempos de ovelha com estudos, ainda tenho por aí uns apontamentos de filosofia em francês sobre diferença e repetição, pequenas diferenças que conseguíamos vislumbrar na mais mecânica repetição, e falsas diferenças que não são mais do que simulacros de repetições e grandes circunlóquios sobre diferenças puras e repetições complexas. O que seja. Ao certo, ao certo, ovelha negra é diferença e ovelha branca, repetição, como se todas fossem clones indiferentes, ecos da mesma coisa por milhões de vezes repetida. Aquela dos soquetes brancos e tonalidades variadas é um embuste, um compromisso mal desenhado, uma ambiguidade que em vez de ser absolutamente diferente, é um acaso que resultou da junção de diferenças repetidas que por aí abundam como as ovelhas de poupa branca, as de cauda cor de creme e as dos soquetes brancos só numa pata, nas quatro ou em duas, atrás ou à frente. Canso-me com estes pensamentos.

Ovelha malhada (amofinada): Cansas-te, gastas a mioleira, dizes coisas sem nexo e irritas-me porque não tens nada deste exotismo que faz com que qualquer mamífero, incluindo bodes mais ou menos expiatórios, não tire os olhos de mim. Embuste é a tua tia e essa tua verborreia descontrolada desde que apanhaste a intoxicação por organofosfatos e confundes ter andado na escola com as vezes que foste pastar para os recreios desde que a escola fechou por falta de crias humanas em idade escolar. Os apontamentos de filosofia em francês devem ser os escritos naqueles pacotes de suplemento de ração que vinham de França e que tu fixavas obsessivamente à espera de que alguém abrisse o saco. Deve ser isso. Eu sou híbrida, percebes? Não sou de maniqueísmos, de filosofias binárias ou de manias de pureza de linhagem. Sou multinatural, multicultural, multinacional e vivo muito bem com essa identidade onde não existem ovelhas negras e ovelhas brancas, diferenças e repetições. As da minha tribo são todas repetições diferentes, inclassificáveis, sem tiques etnocêntricos e recalcamentos morais.

Ovelha lá do fundo (insistindo na erva rala, mas zangada com uma cabeçada que deu nos ferros): Que cena insuportável estas duas sempre pegadas e que péssimo exemplo para os borreguitos gémeos já tão nervosos e ansiosos com a aleitação e ainda por cima terem de aguentar com este ambiente de permanente discussão interminável sobre nada que a ninguém interessa. Saberão esses espécimes cultivados o que são estes espelhos azuis virados para o céu, espécie de telhados de vidro que não assentam em paredes e não se sabe que coisa abrigam e só assombram as ervas já de si tão enfezadas?

A ovelha dos gémeos: As crianças também já estão fartas de fazer perguntas sobre isso. São muito curiosas, muito perguntadeiras e sabem já muitas coisas que só não dizem porque não tem como, por falta de vocabulário ou de terapia da fala, não sei. O que são os espelhos azuis?

Ovelha negra (continuando em modo de saída): A outra que te responda, já que se julga tão híbrida e esperta. Respondes?

A malhada (fazendo de conta): Méééééééé….é

Ovelha negra (em modo de saída e pose filosófica): Já esperava. Sabemos muito bem quem confundia a escola com a erva do recreio, ó sonsa. Os espelhos são coisas dos humanos, são vidraças tecnológicas. As nossas antepassadas que os acompanharam desde o primeiro dia do processo civilizacional de que tanto se orgulham não se sabe por que razão, sabem muito bem. Os humanos lavram em duas frentes para se destacarem do resto e assim legitimarem a sua superioridade no seio da criação: numa frente separam cuidadosamente tudo que seja bicheza grande ou pequena, conhecida ou desconhecida, feroz ou mansa e chamam-lhe animais; na outra, fazem proliferar indefinidamente matérias artificiais, ferramentas, artefactos, máquinas, sistemas de máquinas, técnicas, tecnologias. Combinando animais com tecnologia, já usaram a nossa prima Dolly para provarem que podem replicar animais como se fossem carimbos.

A que deu com a cabeça nos ferros (ainda ourada): Carimbaram a prima Dolly? Tatuagens?

A filósofa: Não, mana! Que falta de discernimento. Carimbar é um modo de dizer que arranjaram um dispositivo técnico para replicar, reproduzir repetições puras do mesmo animal a partir de uma célula adulta. Morreu com seis anos, a coitada, e ainda teve seis crianças, filhas de um bode de laboratório.

A ourada: Expiatório?

A (definitivamente) filósofa: Não. Apenas bode. E assim vamos. Chamam-lhe progresso e andam cada vez mais atrapalhados e assombrados com o assunto sem conseguirem inventar outra solução que não seja mudar o palavreado sobre a matéria em causa. Os humanos conhecem o mundo por palavras e exercitam duas formas de o fazer: inventam palavras para nomearem coisas do mundo que vão conhecendo; e inventam mundos que não existem a não ser em palavras. Entretanto, apresentam muitas dificuldades de organização para evitarem ou adiarem o fim desses mundos todos. São um rebanho de muitos pastores mutuamente desentendidos e gastam demasiada energia a tirar o pasto uns aos outros com péssimos resultados porque está cada vez mais mal distribuído. Isto que aqui está virado para o céu é tecnologia, coisa limpinha e azul para alimentar e fazer funcionar ordenhas mecânicas, secadores de cabelo, lâmpadas e telemóveis, entre muita outra e interminável parafernália.

Os gémeos borreguitos:  E nós?

A mãe deles: Nós as ovelhas, transcrevendo informação gerada em modo automático pela inteligência artificial, vulgo ChatGPT, que os humanos criaram, teremos o seguinte futuro (voz sintética com balidos em fundo):

O futuro das ovelhas depende de vários fatores, como as demandas do mercado, o desenvolvimento de tecnologias e práticas agrícolas sustentáveis, e as preocupações com o bem-estar animal.

No que diz respeito às demandas do mercado, a demanda por lã e carne de ovelha pode flutuar dependendo das preferências dos consumidores e das condições económicas globais. Além disso, a preocupação crescente com a saúde e o bem-estar dos animais pode afectar as práticas de criação de ovelhas e aumentar a demanda por produtos de ovelhas criadas em condições mais humanas.

Tecnologias emergentes, como a genética avançada e a inteligência artificial, podem ajudar a melhorar a eficiência da produção de ovelhas e reduzir os impactos ambientais da criação de animais. Por exemplo, a criação selectiva de ovelhas pode produzir animais com características desejáveis, como maior resistência a doenças, maior produtividade e melhor qualidade da carne ou lã.

Por fim, práticas agrícolas sustentáveis podem ajudar a reduzir os impactos ambientais da criação de ovelhas, como o uso de pastagens rotacionadas e métodos de manejo de esterco que minimizam a poluição do solo e da água.

Em resumo, o futuro das ovelhas dependerá de uma combinação de fatores, incluindo a evolução das preferências do mercado, o desenvolvimento de tecnologias e práticas agrícolas sustentáveis e a crescente conscientização sobre o bem-estar animal.

 

Coro da pastagem rotacionada

Criadas em condições humanas,

(seja lá o que isso for)

Nós somos as ovelhas sustentáveis

(seja lá o que isso for)

Pastamos nas demandas dos consumidores

Para produzir animais com características desejáveis

(seja lá o que isso for)

E métodos de manejo de esterco que minimizam a poluição

 

Ninguém nos pergunta nada sobre bem-estar animal

Nem sobre genética avançada e inteligência artificial

 

A carne de ovelha pode flutuar

Apesar

Da crescente conscientização

Não ser sinónimo perfeito de consciente

(seja lá o que isso for)


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Fotografia de Álvaro Domingues

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