Genealogia_FJViegas_ilustracaoLiaFerreira

Princípios de genealogia

Explica-se a coisa com alguma facilidade. Há um problema geracional contra o qual não há nada a fazer. O Dr. A foi guitarra-baixo (uma Fender vermelha) numa banda de garagem que animava bailes nos arredores de S. João do Estoril. Era primo de C, que frequentava um grupo de Belém onde se reuniam D, B, E e F. Bom: F era uma estudante de germânicas, irmã de G, baterista da banda. O que aconteceu foi isto: entre A e F foi amor à primeira vista – casaram (SAR o duque de Bragança compareceu), tiveram três filhos e divorciaram-se depois do 25 de Abril. Entretanto, B e C, que terminaram o curso de Direito ao mesmo tempo, foram cooptados para um governo em 1983; um, teve gabinete de ministro; outro, esteve de secretário de Estado antes de passar a um instituto. Passavam férias em Portimão, que na altura tinha recantos aprazíveis. Foi lá que conheceram G, que esteve a um passo de chefiar o partido X na altura. B foi para o partido Z; C manteve-se no X. B acabou por conhecer F num festival de cinema da Figueira da Foz – eles tinham sido militantes maoistas, da facção dos artistas, e recordaram os velhos tempos em que pediam a cabeça de Marcelo, o outro. «Quem nos viu e quem nos vê», ela ainda teve tempo de dizer. Mas um dos filhos de F e de A, R, precisava de emprego; tinha um master americano e entrou num banco, o W, onde ficou até seguir para a delegação de Nova Iorque (o pai, A, tinha-o encontrado num restaurante de Belém e mencionara o assunto, «ele é esperto e tal»). De facto, A e B nunca se tinham dado muito bem, mas viviam no mesmo bairro, onde J comprara uma casa, e combinavam o cruzamento de cavalos no picadeiro onde um ordenança da GNR lhes guardava os carros, de sentinela; J era jornalista sénior e acabou diretor do jornal T, o que desgostou o pai, E, que continuava muito influente e havia de ser falado como candidato a Belém (tinha sido fundador do partido Y, um prodígio revolucionário nos anos setenta, cheio de Reforma Agrária, retratos de Enver Hoxha e um controlador de moral proletária que depois seria um senador da direita), enquanto a mãe, M, regressava à tradição familiar – casa em Estremoz (virada para a estrada de Fronteira), Algarve no verão e uma temporada de adultério picante com A, que subiria a ministro mais tarde ou mais cedo. Ele, A, tinha andado no Técnico na mesma altura que o primeiro-ministro, e tinha um barco em Vilamoura, que também era utilizado por H durante a Páscoa – H enriquecera a pouco e pouco, a pulso, e o dinheiro faz a coisa andar por si, viagens, acionista de um banco, enfim, muito gosto pela arte contemporânea. Foi para esse banco que R, com muita fé no Opus Dei, partiu depois de uma temporada no governo; tinha casado com Q, filha de G e de S. Claro, S lembrava-se perfeitamente de F; tinham passado temporadas no Portinho da Arrábida quando eram duas adolescentes que gostavam de ié-ié, salvo seja, fumavam cigarros baratos, sem filtro, nas traseiras da casa de férias, junto da garagem, enquanto se apalpavam a medo. Na faculdade (a de Letras) também tinham estudado juntas (F era de germânicas). Entretanto, E, que continuava «de esquerda», era advogado de um grande grupo de empresas de construção civil, consultor do banco W. Um dos administradores do grupo tinha sido membro do Coro Popular de Almada durante a revolução e militante da FEC(m-l). A pouco e pouco, e graças ao pai, D, entrou na vida empresarial – e foi conselheiro político num governo de Cavaco, a quem detestava o corte de cabelo e o desenho dos fatos. Ele lembrava-se muito desses tempos, guardava uma guitarra atrás do armário, junto com fotografias de rapazes de cabelo comprido e de bigode, roupas justas, pullover de decote em bico, «outros tempos», ele dizia, como o avô já tinha dito antes de se despedir há muitos anos, depois de uma merenda de melancia com cerveja preta. Como dizia Camilo, «portanto, lá vamos todos para a posteridade».

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