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Inventário da Vida Privada #1

Trabalhos Bizarros que Tive

1. Au Pair de um rapaz de 17 anos
Esta história tinha tudo para dar merda – e deu. Mas a culpa não foi do rapaz que, a bem dizer, vivia num colégio interno e só ia a casa às quartas. Comecemos pelo início: acabei o curso de História em 2012. Com a crise económica em Portugal, a única perspetiva de emprego era num Call Center. Entre ser explorada cá ou ser explorada no UK, comprei um bilhete só de ida e cravei um casaco quentinho ao meu pai. O meu inglês era suficiente menos, portanto tinha aqui a oportunidade de torná-lo bom com letra pequenina (que é o que é hoje – ótimo para copos e amizades, ótimo para discursos motivacionais na Web Summit). Uns dias antes do voo, saquei um trabalho num site de au pairs internacionais. A Gilly garantiu-me casa – uma cottage só para mim – comida e um Nissan Micra de 1996. Pareceu-me estranho o meu trabalho ser tomar conta de um rapaz de 17 anos – e claro que era, eu tinha 22. Mal cheguei, apercebi-me de que iria essencialmente limpar o casarão, tratar da roupa, fazer as camas, as compras, as refeições, trezentos e quarenta e sete cups of tea por dia, limpar vidros, rodapés, passear a cadela, levar o lixo, abrir a porta aos jardineiros e aos mecânicos (sim, eram esse tipo de ricos). Basicamente, começava às 6h30 e acabava às 21h30 – isto pela módica quantia de 100 pounds por semana. Só lá fiquei quatro meses. No Natal, eles estavam em Miami e eu estampei-me toda no Nissan Micra. Mal chegaram, chamaram-me para ter “aquela conversa”, convocada naquele tom em que sabemos que vai dar cocó. Lá fui eu, preparada para ter de negociar o pagamento do carro ou ser despedida. Despediram-me, mas afinal não foi por causa do carro. Um dia em que eu não estava, foram à minha cottage e encontraram (passo a enumerar a lista dela): um pão com bolor, restos de comida na pia da loiça, um batom vermelho escuro dela (juro que pretendia devolver) e um pacotinho de erva refundido ao fundo de uma gaveta.

2. Monitora num campo de férias
Foi no primeiro verão de Tota-universitária, tinha eu 19 anos e uma viagem de 3 semanas marcada com o Albino André, um dos meus melhores amigos – fazer o sul de Espanha à boleia no mês de agosto. Em julho trabalhei 15 dias num campo de férias com crianças dos filhos da Auchan, empresa que na altura eu não conhecia mas que hoje dá o nome à cadeia de supermercados outrora chamados Jumbo. Foi das experiências laborais mais intensas que tive: muitas crianças numa colónia de férias no meio da serra, entre os 5 e os 13 anos, com atividades intensas durante o dia e noites loucas de pesadelos, choradeiras de saudades dos pais ou quedas de beliche de partir a boca toda. O meu corpo não aguentou o andamento, fiquei com candidíase. Não sei se nos anos dois mil se falava abertamente dessas coisas; tive alguma vergonha de partilhar essa informação, mas expliquei que estava com problemas “lá em baixo”. Não tinha levado computador e os telemóveis eram de teclas, impossível encontrar solução na internet. Liguei a uma amiga sábia: contou-me que o iogurte natural tem probióticos naturais que lutam contra o excesso da produção de cândida, sugeriu-me que o colocasse na vagina. Não resultou.

3. Cozinheira na casa de uma família de ricos, daqueles ricos muito ricos de nascença
Ele tinha um tumor maligno no cérebro e ela estava convencida de que a medicina tradicional chinesa o poderia salvar. Viviam num pequeno palacete na Foz do Porto e tinham outro pequeno palacete para os lados de Miramar e mais uns tantos entre Portugal e Espanha, quiçá mundo fora. Contrataram-me em part-time, 3 dias por semana, dinheiro na mão (era ótimo porque na altura recebia subsídio de desemprego – informação totalmente fictícia caso as Finanças leiam esta prosa). O meu trabalho consistia em cozinhar comida adaptada aos tratamentos dele. Por exemplo, segundo ela, se ele fazia uma sessão de quimio, durante 3 dias só podia comer alimentos vermelhos: carne de vaca, beterraba, groselha, tomate, morango, pimento… Se ficasse uma semana sem terapia, só podia comer alimentos brancos: nabo, courgette, batata, couve-flor, pastinaca, alho francês e por aí fora. Muita cúrcuma, quilos e quilos de cúrcuma, sempre com pimenta preta para fazer efeito. Dos lanches às refeições principais, toda a alimentação tinha de derivar desses alimentos, e nunca podia alcançar os 100°C. Não me apercebi que trabalhassem ou tivessem sequer alguma vez trabalhado na vida. Viviam de serem ricos, gerirem propriedades, heranças – tinham pouco mais de 40 anos e filhos pequenos. Foi um bom trabalho, entrava às 15, saía às 20, apanhava o autocarro de volta para o centro do Porto cheio de empregadas de famílias de bem que contavam as vidas todas dos patrões. A empregada deles não apanhava o autocarro porque vivia lá; era uma miúda de vinte e poucos anos, de Baião, que dormia na despensa. Só lá estive uns meses, o homem morreu.

4. Contar pessoas na rua
Quando vim para Lisboa estudar, fui aceitando todo o tipo de biscates que me apareciam à frente. Tive a sorte de ter muitos e de ter sido possível não trabalhar no LIDL – cheguei a assinar contrato e tudo. Um deles, logo em setembro, creio, foi contar pessoas no Rossio. Deram-me um colete, quatro contadores (eu achava que só serviam para contar pessoas que entram nas discotecas), dois para cada mão, e uma cadeira branca de esplanada. Durante 10 horas, contei as pessoas que vinham de duas esquinas diferentes nas duas direções possíveis. Tinha de apontar de 15 em 15 minutos o resultado, quase sempre na casa das centenas. Infelizmente, não sou daquelas pessoas que poderiam simplesmente ter inventado números. Fui rigorosa, metódica, os meus dedos rapidamente dominaram a arte de dedilhar os contadores e os meus olhos arregalaram-se ao ponto de me capacitar uma visão de quase 360º. Tive uma pausa de 15 minutos para almoçar. A única pessoa conhecida que vi durante este período foi o Alaxid_90, um rapaz com quem joguei à bola no jardim do Parque das Nações num encontro do canal @hiphoptuga do mIRC, por volta de 2002. Foi estranho encontrá-lo ali, assim, ele na sua hora de almoço de uma empresa qualquer, eu freneticamente a contar pessoas na rua por 5 euros à hora, dinheiro na mão. Vidas.

5. Cozinheira no acampamento de jovens do bloco de esquerda
Montei um arsenal na parte de trás do balneário: aluguei fogões e fornos industriais, panelas e tabuleiros grandes, chamei equipa e fiz das pias da roupa do parque de campismo as copa quente dos meus tachos grandes. Durante 5 dias, servimos cerca de 300 refeições por dia, metade ao almoço, metade ao jantar. Correu bem e gostei muito, deu para gerir bem o trabalho e o lazer, grandes partidas de olho do cu na piscina – o clássico jogo de cartas em que os pobres ficam mais pobres e os ricos mais ricos. Foi precisamente numa dessas jogatanas que vimos ao longe o início de um incêndio. Caos, pânico, morte, histerismo – imaginem 200 jovens do bloco de esquerda ainda adolescentes rodeados por chamas assassinas. Hoje rio-me, mas na altura foi assustador, foram horas intensas de helicópteros a sobrevoar por cima de nós, barcos no rio prontos para o resgate. Sobrevivemos todos. Nessa noite comemorei a vida e fiz xixi na cama. Foi a última vez que fiz xixi na cama. Tinha 29 anos.

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