Regressemos à “Operação Manguel”, o eruditíssimo (dizem-me, quem sou eu para o desmentir) escritor, ensaísta, editor e tradutor nascido em 1948, em Buenos Aires.
Que sabemos nós ao certo, hoje, sobre a doação à Câmara Municipal de Lisboa (CML) dos 40 mil livros da biblioteca do argentino e a criação do Centro de Estudos da História da Leitura?
Agitemos o sonolento passado recente, reavivemos o fluxo de alguns acontecimentos.
A ideia de trazer a biblioteca de Alberto Manguel para Lisboa foi da editora da Tinta-da-China, Bárbara Bulhosa.
Segundo o próprio Manguel, foi Bárbara Bulhosa que desencadeou o processo:
“Ela sabia do destino dos meus livros que estavam encaixotados desde 2015, porque tinha publicado a minha elegia, Embalando a minha biblioteca. A Bárbara falou com o presidente da Câmara de Lisboa, com a proposta de instalar a minha biblioteca nessa cidade. Fernando Medina é um político jovem, que equilibra sabiamente as necessidades práticas dos seus cidadãos com um grande interesse pela cultura. Pretende fazer de Lisboa um grande centro cultural, uma tarefa já iniciada pelo seu antecessor, António Costa, que entregou a bela Casa dos Bicos a Pilar del Río, para aí instalar a Fundação Saramago. Medina compreendeu imediatamente a importância internacional de um centro para o estudo da história da leitura (que é o meu tema)” (Entrevista de Carlos Fiolhais a Alberto Manguel, por incumbência do Plano Nacional de Leitura).
Não se sabe em que ano decorreu a conversa entre Bulhosa e Medina, então presidente da CML. Sabe-se, porém, que desde 2017 a Tinta-da-China é um dos parceiros empresariais do município da capital, em particular por via da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), empresa municipal cujo capital social é detido na totalidade pela CML.
Entre 2017 e 2022, a Tinta-da-China e a CML (em nome próprio ou da EGEAC) celebraram 10 contratos, num valor total de cerca de 112 mil euros. Isto sem contar com os valores que não foi possível apurar (para mais pormenores sobre tais contratos, consulte-se a lista no final).
No lançamento de algumas obras apoiadas pela CML, o município, inclusive, fez-se representar ao mais alto nível. Por exemplo, a apresentação do livro Lojas com História, no dia 22 de Novembro de 2017, no Salão Nobre da CML, contou com a presença de Fernando Medina, presidente da CML, Duarte Cordeiro, vice-presidente e vereador com o pelouro da Economia e Inovação, e Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura e Relações Internacionais.
Do Canadá a Lisboa, passando por Buenos Aires
Quando Bárbara Bulhosa e Fernando Medina se encontraram com o intuito de discutir a possibilidade de trazer para Lisboa a biblioteca de Alberto Manguel, os livros do argentino estavam quase todos empacotados no Canadá, onde vivera entre 1982 e 2000 (exceptuando uma breve estadia na Europa). Algures nesse período, Manguel casou com o psicólogo canadiano Craig E. Stephenson e adquiriu nacionalidade canadiana.
Em 2000, Manguel abandonou a América do Norte para se instalar em França, na povoação de Mondion (próxima do Vale do Loire e de um parque natural, no Sudoeste daquele país, na região da Nova Aquitânia), onde, juntamente com o marido, comprou um presbitério medieval e o celeiro anexo, ambos meio decrépitos.
Convenientemente renovados, a velha residência paroquial foi transformada na sua nova casa e o celeiro — depois de transfigurado em biblioteca, com enormes estantes em madeira de carvalho, ocupando as paredes de ponta a ponta — passou a abrigar a sua colecção, prenhe de clássicos da literatura mundial, de romances policiais e de ensaios sobre isto e aquilo e aqueloutro.
Depois de anos a carregar ciclicamente tão pesada biblioteca — entre Paris, Londres, Taiti e Toronto —, e de ter recebido ofertas para instalar os livros em diferentes países (México, Istambul, Quebec, etc.), projectos de que desistiria por “razões burocráticas, económicas e outras”, Manguel concretizava um sonho: manter vivos os livros arrecadados ao longo de muitos anos de peregrinação por esses mundos de Cristo (ou Maomé, Confúcio, Lao-Tsé, Moisés, Buda, Judá, Zoroastro, Rei David… escolha a opção que melhor se aplicar ao seu caso).
Em caixotes, ou empilhados em grandes montes, quase tão altos como a Torre de Babel, os livros são partes ou elementos acumulados, não formam um todo. Só a sua organização numa biblioteca os converte numa totalidade significante.
Segundo o canadiano Le Devoir (jornal online), de 8 de Dezembro de 2015, Manguel atribuiu a Jillian Tomm (fixem este nome, a ele voltarei mais adiante) a missão de catalogar os cerca de 35 mil livros da biblioteca. Porque, como o próprio Manguel disse, “sem catálogo, uma biblioteca não existe”.
Manguel preparava-se então para abandonar França, na sequência de problemas fiscais não especificados. Alguns Natais depois (15 anos, mais concretamente), o sonho tornara-se em pesadelo. Diria então: “Morei em muitos outros países que também sofrem com a perniciosa burocracia, como Itália, Argentina. Mas em nenhum desses países senti tanta opressão burocrática quanto na França”.
Fosse como fosse, era necessário embalar de novo os livros em caixotes, rotulá-los e classificá-los, e vender depois o antigo presbitério medieval francês.
Os livros foram expedidos para o Canadá (para um depósito em Montreal, onde permaneceriam dentro das caixas), mas Manguel mudou-se para Nova Iorque, onde residiria alguns meses.
Em Dezembro de 2015, o ministro da Cultura argentino, Horacio González, do governo neoliberal do presidente Mauricio Macri, anunciou que Manguel seria o novo director da Biblioteca Nacional da República Argentina — também conhecida como Biblioteca Nacional Mariano Moreno —, mas que só assumiria o cargo em Julho de 2016 (Manguel invocou compromissos pessoais numa universidade estrangeira para adiar a tomada de posse).
Quando finalmente ocupou o cargo, Manguel levou consigo, para o assessorar e tratar das relações com os parceiros internacionais da Biblioteca Nacional, Jillian Tomm, que fora bibliotecária da Universidade do Quebec (Canadá).
Durante o tempo em que viveu em Buenos Aires, como director da Biblioteca Nacional, os livros de Manguel continuavam adormecidos no Canadá, em caixotes, sem que nenhum país manifestasse interesse em recebê-los (apesar de terem sido feitas diligências nesse sentido).
Em 2018, alegando razões de saúde, o argentino-canadiano renunciou ao cargo. Quando mais tarde lhe perguntaram como fora a experiência de director da Biblioteca Nacional da Argentina, Manguel confessou que fora “maravilhoso e difícil. Uma grande experiência de trabalho e uma constante batalha contra a burocracia e as mesquinharias da política”.
Daí a meses, já recuperado, tornar-se-ia guia de turistas ricos em “cruzeiros literários” por Itália.
De Lisboa para o Mundo
No Verão de 2020, deu-se a assinatura de um “Contrato de Doação”, entre “Alberto Adrian Manguel, o doador, e o Município de Lisboa, pessoa colectiva n.º 500.051.070, com sede em Lisboa, na Praça do Município, através do seu órgão executivo, Câmara Municipal de Lisboa, aqui representada pela Vereadora da Cultura e Relações Internacionais, Dra. Catarina Vaz Pinto, com poderes para o ato, na qualidade de Donatário, Município de Lisboa ou Segundo Contraente”.
No texto do contrato lê-se que Manguel “propôs doar ao Município de Lisboa o acervo bibliotecário de que é proprietário, com cerca de 40.000 volumes” e que, com base nesse património documental, o Município de Lisboa “pretende criar, no âmbito da sua política de promoção do livro e da leitura, um equipamento cultural de vocação internacional especialmente dedicado ao estudo da história da leitura, designado Centro de Estudos da História da Leitura (CEHL)”.
Segundo a CML, “a criação do CEHL e a incorporação, neste equipamento cultural, do acervo doado nos termos do presente contrato, vai valorizar o património do Município de Lisboa e potenciar a fruição do referido acervo pelo público em geral, bem como a presença de autores e investigadores nacionais e internacionais na cidade de Lisboa”.
A primeira notícia dos contactos entre os principais responsáveis da CML e o escritor argentino-canadiano terá sido a que saiu no semanário Expresso, em 7 de Setembro de 2020, intitulada “A assombrosa biblioteca de Alberto Manguel. Agora em Lisboa“.
Explicava-se que “A assinatura do protocolo de criação do Centro de Estudos da História da Leitura, estabelecido entre o município e Alberto Manguel será assinado em cerimónia especial no próximo sábado, 12 de setembro, às 18 horas, nas imediações do Pavilhão Carlos Lopes e no âmbito da Feira do Livro de Lisboa”; revelava-se que seria criado, no âmbito daquele Centro, um Conselho Honorário que contaria com autores como Olga Tokarczuk (Prémio Nobel em 2019), Margaret Atwood, Salman Rushdie e Chico Buarque, assim como uma lista considerável de directores dos maiores centros literários de bibliotecas internacionais, entre eles “o cardeal Tolentino Mendonça, responsável pela Biblioteca do Vaticano”; e anunciava-se que Manguel iria iniciar, na revista do Expresso, uma colaboração regular (sobre os problemas desta colaboração, pronunciei-me antes, primeiro na revista Sábado, depois em Chatear o Camões. Inquérito à Vida Cultural Portuguesa, 2021, Maldoror, pp. 536-544).
Chegados ao dia 12 de Setembro de 2020, Fernando Medina e Alberto Manguel assinaram finalmente, na Feira do Livro, o “Protocolo para a Cedência e Implementação na cidade de Lisboa do Centro de Estudos da História da Leitura” (CEHL). Na cerimónia, fizeram-se os discursos da praxe.
Manguel referiu-se a Lisboa como “Uma cidade que, nesta época de insanidade universal, mesmo sabendo que nenhum lugar na terra é uma utopia perfeita, de certa forma se tornou um refúgio para o diálogo civilizado e para dignificar a resistência”.
Fernando Medina revelou que fora a editora portuguesa de Manguel, Bárbara Bulhosa, “que lhe trouxe de ‘forma apaixonada’, pela primeira vez, esta ideia de acolher a sua biblioteca, e que, como ambos tinham lido o mesmo livro de Manguel (Embalando a Minha Biblioteca. Uma elegia e dez divagações), chegara-se até este momento, com a ajuda da vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto e da sua equipa.
Medina confidenciou ainda que, na primeira conversa que manteve com Alberto Manguel, o escritor lhe disse que gostaria de, depois da doação, ter acesso permanente aos livros, a qualquer hora. “Isso será possível?”, perguntou. O presidente da Câmara de Lisboa percebeu então que o criador seria sempre inseparável da sua obra. Imaginou-o de noite, passeando entre os 700 metros de prateleiras, e respondeu-lhe que sim. Mas disse-lhe que ‘teria de ser mais do que o acesso pleno aos livros’, ‘devia ser a direcção de um centro de estudos da leitura e dos incríveis mundos que ela pode abrir’. Perceberam então que Alberto viria viver para Lisboa, onde chegou esta semana” (Isabel Coutinho, Público, 12 de Setembro de 2020).
Nessa ocasião, “carregada de simbologia política” (como diria mais tarde a vereadora Catarina Vaz Pinto), Manguel entregou ao presidente da CML uma Bíblia manuscrita em pergaminho do século XIII.
Na plateia, a assistir à cerimónia, estavam, entre outros, a presidente da Fundação José Saramago (Pilar del Río), a secretária-geral da Casa da América Latina e ex-comissária da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, 2018 (Manuela Júdice), o poeta Nuno Júdice (casado com Manuela Júdice), os escritores Rui Cardoso Martins, Pedro Mexia e Afonso Reis Cabral, o editor Manuel Alberto Valente e a comissária do Plano Nacional de Leitura, Teresa Calçada
Na entrevista que deu ao Expresso, nesse 12 de Setembro de 2020, Manguel disse: “Nós vivemos, infelizmente, numa época em que um político culto é um oxímoro. E de súbito aparece esta excepção, Fernando Medina, que além de culto, no melhor dos sentidos, tem consciência da função social da cultura”.
O protocolo definia os termos em que Manguel cedia à CML a colecção de obras literárias de que era proprietário, tendo em vista a instalação de um Centro de Estudos da História da Leitura, bem como os termos em que o argentino-canadiano exerceria as funções de Director/Coordenador Artístico daquele equipamento.
Entre as obrigações da CML, contam-se, entre outras:
- a) Disponibilizar o Palacete dos Marqueses de Pombal, situado na Rua das Janelas Verdes, n.º 37-39, em Lisboa, para aí implementar o CEHL, que contará com espaços de leitura, escrita e eventos, tendo a área para tal cerca de 600 metros quadrados, prevendo-se a existência de 700 metros lineares de prateleiras.
- b) Contratar uma equipa de recursos humanos, de três a cinco pessoas, a tempo inteiro, que ficará responsável pelo funcionamento do CEHL, sob a direcção de um Director Executivo, em articulação com o Director/Coordenador Artístico, cargo este exercido por Alberto Manguel.
- c) Garantir as necessárias disponibilidades financeiras e suportar todos os custos operacionais, incluindo, quer a instalação do equipamento e despesas associadas, nomeadamente, o transporte dos livros de Montreal para Lisboa e respectiva catalogação, mobiliário e tecnologias adequadas, quer a sua manutenção, incluindo os encargos com recursos humanos, aquisição de novas obras literárias, organização de eventos e outras actividades como conferências, seminários, exposições, residências literárias e respectiva divulgação.
- d) Assegurar a reabilitação e manutenção do edifício e do CEHL como um todo.
Em anexo ao protocolo (Anexo 1), juntava-se “Uma breve visão geral” sobre “A Biblioteca de Alberto Manguel” e “Uma nota sobre o estado actual da documentação”.
De acordo com essa “breve visão geral”, a de Manguel é “uma biblioteca bem preservada de livros principalmente do século XX em muito boas condições de utilização e exibição”, que contém uma “importante colecção em torno do livro como tema”, “uma impressionante variedade de livros de artistas contemporâneos (principalmente cópias oferecidas por artistas”), “várias primeiras edições”, “centenas de livros de arte” e “centenas de volumes de literatura infantil”.
A maior parte desta “colecção multilingue” consiste “em textos em inglês, francês e castelhano, com colecções mais pequenas em italiano, alemão e português”, onde constam os grandes “nomes canónicos, como Cervantes, Dante, Jorge Luis Borges, Lewis Carroll, Robert Louis Stevenson ou Rudyard Kipling”.
Por tudo isto, continua o anexo, esta biblioteca é “uma fonte extraordinária tanto para a alegria da leitura como para o seu estudo”, promovendo um “ambiente único criado tanto pelo amor como pelo respeito pelo poder da palavra escrita”.
Na “nota sobre o estado actual da documentação” afirma-se que “Foi produzido um inventário parcial detalhado para a biblioteca de Alberto Manguel, tal como estava em Mondion, França, em 2015. Este inventário é composto por cerca de 14 mil títulos”.
Com base nesse inventário, refere-se também a existência de uma colecção de Literatura e Poesia inglesas (contendo mais de oito mil títulos listados), uma colecção de Literatura e Poesia francesas (perto de três mil livros), uma colecção multilingue de Dante (mais de 150 volumes por e sobre Dante), literatura em castelhano (com destaque para Cervantes e Jorge Luis Borges), uma colecção de não-ficção inglesa, principalmente sobre a história da Europa e o Humanismo renascentista.
Entre os livros desta lista constam: “uma grande e muito fina colecção de referência de literatura”; “secções multilingues sobre Religião (principalmente, mas não só, no Cristianismo, Judaísmo e Islão) e Filosofia (principalmente, mas não só, no Ocidente)”; “colecções de literatura e poesia noutras línguas além do inglês, francês e castelhano (os maiores grupos são o alemão e o italiano, com uma componente crescente em português); “uma grande colecção de literatura de mistério” (policiais e outros); “outros livros de não-ficção, especialmente na história e na política”; “livros culinários relacionados com literatura”; “uma grande colecção de livros de arte de grandes dimensões”.
A terceira secção do Anexo 1 refere-se a “Alguns exemplos de artigos especiais ou invulgares”, de onde destaco:
1) Uma primeira edição de Through the Looking-Glass and What Alice Found There (1872), de Lewis Carroll;
2) Uma primeira edição dos 95 Poems (1958), de e.e. cummings;
3) Primeiras edições de obras de Margaret Atwood, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, T.S. Eliot, Jean Genet, Hugh Walpole, William Butler Yeats e outros.
4) The Bibelot: A Reprint of Poetry and Prose for Book Lovers, Chosen in Part From Scarce Editions and Sources Not Generally Known (20 volumes, Nova Iorque, 1895-1913).
5) Miguel de Cervantes Saavedra, Vida y hechos del ingenioso caballero Don Quijote de la Mancha. Composto por Miguel de Cervantes Saavedra (reedição de 1782, em quatro volumes, em Madrid, pelas edições de Manuel Martin).
6) Juan de Ascargota, Manual de Confesores ad mentem Scoti, Madrid, 1724 (quarta impressão).
7) Rachid Koraichi, Les sept dormants (traduzido por Walid Chmait), Paris. 2003.
8) Joaquim Cândido Guillobel, Usos e costumes do Rio de Janeiro nas figurinhas de Guillobel. Vida e modos no Rio de Janeiro como se vê nos pequenos desenhos de Guillobel. Organizador Paulo Berger, publicação de Cândido Guinle de Paula Machado, 1978 (o coronel e engenheiro militar Joaquim Cândido Guillobel, nascido em Lisboa em 1787 e falecido no Rio de Janeiro em 1859, foi desenhista, aguarelista, arquitecto, topógrafo e cartógrafo, e terá sido o autor do projecto do Palácio Imperial de Petrópolis, no Brasil).
9) Johann Weyer, Histoires, disputes et discours: des illusions et impostures, des diables, des magiciens infâmes, sorcières et empoisonneurs, edição de 1885.
10) Uma edição limitada rara de Chérie, de Colette, de 1947.
No final, somos informados de que “Esta lista foi extraída em grande parte de uma lista substancialmente mais longa de artigos especiais compilados pelo [sic] especialista em livros de antiquário Lucie Pabel”.
Notícias da Argentina
Entretanto, do outro lado do Atlântico, na Argentina, questionaram o escritor: porque é que Manguel não doou os seus livros à Biblioteca Nacional, que dirigiu durante cerca de dois anos — entre 2016 e 2018 —, no âmbito do Governo de direita neoliberal de Mauricio Macri?
Em resposta, na entrevista que concedeu ao diário La Nación (8 de Setembro de 2020), Manguel disse: “Depois da minha experiência na (Biblioteca) Nacional, entendi que, embora tenhamos muitos especialistas talentosos no tema da leitura e bibliotecários especializados, o país não teria o orçamento necessário para os contratar, nem para instalar e manter uma biblioteca como esta. Sobretudo, no meio desta crise”.
No país de Eva Perón, de Astor Piazzolla e de Mafalda, estas declarações caíram como um míssil balístico intercontinental. Sobretudo entre os funcionários da BN da Argentina. Reunidos no sindicato Asociación de Trabajadores del Estado (ATE), apareceram de imediato a rebater as declarações do ex-director daquela instituição, lançando um comunicado, um ou dois dias depois, transmitido pela Agência Télam: “Inteirados da notícia, os trabalhadores da instituição fundada por Mariano Moreno, em 1810, vêm manifestar publicamente o seu repúdio perante tais declarações“.
Lembrando os dois escassos anos que durou a gestão de Manguel à frente da Biblioteca Nacional, apresentavam um rol de informações assombrosas: “conhecemos bem a situação difícil em que ficou o nosso país, e em particular a nossa Biblioteca, após quatro anos de gestão da Cambiemos [nome da coligação política em nome da qual Mauricio Macri concorreu às eleições presidenciais e que o levariam à presidência da Argentina a 10 de Dezembro de 2015], que Manguel integrou. Cortes orçamentais, demissões, intimidações no local de trabalho, extinção da editora da BN e de vários projectos, encerramento do Museu do Livro e da Língua, gastos supérfluos, almoços pagos, dispendiosas viagens internacionais e absentismo laboral marcaram a sua passagem pela Biblioteca”.
Chamavam ainda a atenção para o facto de a Biblioteca Nacional ter sido formada a partir de inúmeras e valiosas doações, entre elas, as de Jorge Luis Borges — também ele ex-director daquela instituição — e as de Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo.
Além de considerar que Manguel se limitara a dar seguimento a todo o trabalho iniciado por Horacio González (o seu antecessor na direcção da BN argentina), o comunicado dizia ainda que “ao contrário do que o ex-diretor [Alberto Manguel] afirma, sabemos bem, como trabalhadores da casa, que a instituição reúne as condições estruturais e o pessoal habilitado para aumentar e preservar o seu património, como todos nós aliás o fazemos diariamente, algo que faz parte das nossas tarefas fundamentais e quotidianas”.
Para os funcionários da BN, as declarações de Manguel eram a prova concludente de que o ex-director “nunca teve confiança na instituição, nem naqueles que apoiam e garantem o seu funcionamento, nem antes, nem durante, nem depois da sua passagem pela sua direcção. Acima de tudo, mostravam a sua falta de convicção na construção do Estado — algo que condena ao fracasso qualquer administração pública — e no crescimento e preservação do património cultural do nosso país, aquilo com que os trabalhadores, os investigadores e os leitores trabalham diariamente”.
A 10 de Setembro, a agência Noticias Argentinas colocava em título: “Polémica na Cultura. Porque é que Alberto Manguel não doa os seus livros à Biblioteca Nacional que dirigiu?”.
Depois de perguntar se “Não teria sido lógico, e até ético, ter doado os livros que colecionou ao longo da vida à mesma instituição pública argentina com cuja presidência fora honrado?”, a notícia referia que durante os meses em que não assumiu o cargo de director, o governo argentino demitiu um quarto dos funcionários da Biblioteca.
Já com o bibliófilo fisicamente sentado na cadeira de director, os funcionários da BN revelaram que, só nos primeiros cinco meses de trabalho, o gabinete de Manguel gastou “mais de 400.000 pesos em viagens pelo mundo“, isto depois de ter “quintuplicado o salário recebido pelo anterior Director, Horacio González”. Além disso, acusaram-no de “perseguição ideológica aos funcionários da casa” e de ter deixado um “rasto de demissões, que a transformaram num “local fechado, destinado, sobretudo, à consulta de investigadores”.
Contactado por aquele órgão de informação, Horacio González ironizou: “Manguel elogiava Mandela, mas escondia um [Mauricio] Macri dentro dos seus chapeuzinhos engraçados”, “elogiava Silvina Ocampo — que aliás merece, como grande escritora que foi, tal como o seu marido [Adolfo Bioy Casares] —, mas não conseguiu ocultar a sua vocação e a sua disponibilidade para apoiar o autoritarismo, a única resposta de que dispunha face aos desafios de um país que teimosamente desconhecia”.
No final, a agência Noticias Argentinas perguntava: “Poderia Manguel ignorar que o macrismo que o trouxe da Europa para assumir a direcção da Biblioteca Nacional rebaixou o Ministério da Cultura à categoria de Secretaria de Estado, reduziu o respectivo orçamento, encerrou centros culturais e degradou a escola pública, entre muitos outros ataques ao sector cultural? Manguel não ouviu Macri dizer, quando era presidente, ‘o que é isso de criar universidades em todos os lados?’. Não soube da sua política de destruição contra o CONICET [Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas: organismo dedicado à promoção da ciência e da tecnologia na Argentina]? Se algo caracterizava os dirigentes do macrismo era o seu absoluto desprezo pela cultura e a sua supina ignorância em relação a tudo o que não fosse atribuir a Borges algo que ele nunca disse ou enganar-se nas citações de Cortázar, talvez dois factos ‘menores’ no interior do desastre cultural (e de toda espécie) que o seu governo produziu”.
Segundo esta notícia, havia motivos fundados para acreditar que a nomeação de Manguel constituíra “uma subtil troca de favores”.
Com a presença do escritor no seu Executivo, Mauricio Macri tentara melhorar a sua imagem internacional. E Manguel, por seu turno, podia ufanar-se de ocupar “o trono outrora ocupado por Borges” e, ao mesmo tempo, também ele ampliava, “aos olhos do mundo”, o seu prestígio cultural, que lhe valeu epítetos como o “Bibliófilo mais conhecido do mundo”, o “Don Juan das bibliotecas”, “Uma das pessoas mais eruditas do planeta”, “o leitor mais compulsivo do mundo” ou “O homem que lia para Borges”.
Somado o que havia a somar, o veredicto era este: a nomeação de Alberto Manguel como director da Biblioteca Nacional e a aceitação do cargo tinham sido um fenómeno de marketing, muito mais do que um acontecimento cultural.
Em 15 de Setembro de 2020, no Tiempo Argentino, Mónica López Ocón lembrava que “É verdade que nenhuma lei obriga Manguel a doar a sua biblioteca à Argentina. Mas não é de somenos o facto de o campo cultural, do qual o livro é um elemento emblemático, ser também um campo de disputa política. Horacio González esteve à frente da mesma instituição dirigida por Manguel e fez uma gestão impecável, ampliando os limites da Biblioteca, transformando-a num centro de irradiação cultural e executando um plano editorial que levou à publicação de mais de 400 livros representativos da cultura argentina, que nenhuma editora comercial jamais teria publicado. Longe de ser um depósito de livros reservados a especialistas, a Biblioteca não apenas ampliou, então, o seu horário de funcionamento, como conquistou um público que a ela talvez nunca tivesse ido se Horacio González não tivesse decidido transformá-la numa instituição viva em vez de mumificá-la em nome da sagrada erudição”.
A controversa passagem de Manguel pela direcção da BN ultrapassou as fronteiras da Argentina e chegou até ao Canadá. Em 8 de Agosto de 2018, o jornal canadiano The Globe and Mail, num texto assinado por Gabriela Samela, lembrava que um ano antes, quando ainda era director, Manguel dissera ao mesmo jornal que “Quando decidi aceitar, aceitei-o com a condição de que não fosse um cargo político”. E acrescentava: “Na Argentina, desde que a Biblioteca foi fundada, o cargo de director da biblioteca sempre foi visto como uma nomeação política, se não mesmo um cargo político”. Legalmente, dizia ainda, a biblioteca “actua com independência de quaisquer decisões políticas e eu só respondo directamente ao Ministro da Cultura. Se receber alguma instrução que sinta não poder seguir, demitir-me-ei”.
Lembrava também o The Globe que “a controvérsia e o cepticismo perseguiram Manguel desde o início do seu mandato, quando 250 funcionários da Biblioteca foram demitidos antes de ele ocupar efectivamente o cargo, que foi sendo adiado durante meses. Valentina Viglieca, representante dos trabalhadores do maior sindicato do sector público argentino, disse recear que as ausências de Manguel no estrangeiro, decorrentes dos seus compromissos, fossem uma forma de se livrar das demissões que o Governo de Macri estava a preparar: “Ele pediu que se as pessoas tivessem de ser demitidas, a tarefa deveria ser feita quando ele não estivesse presente”.
O mesmo terá acontecido quando Manguel anunciou que renunciava ao cargo de director, devido a problemas de saúde, precisamente na altura em que saiu a notícia de que o Governo iria aplicar medidas de maior austeridade. Tudo indicava, pois, que Manguel se queria desvincular dos processos de demissões laborais (quando o Governo de Macri assumiu o cargo, no final de 2015, a Biblioteca Nacional tinha 1048 funcionários, quando Manguel deixou o cargo, tinha 870).
Antes de se sentar na cadeira de director, explicava Diego Martinez, representante sindical da Biblioteca Nacional, Manguel “sempre falou bem de nós, como trabalhadores e nesse momento parecia um aliado nosso”. Depois, “executou uma política de ajustes nos serviços comunitários oferecidos pela Biblioteca, cortou no pessoal do Museu do Livro e da Língua, acabou com os eventos públicos no anfiteatro da Biblioteca e reduziu os festivais relacionados com o livro e a leitura”. Enfim, a gestão de Manguel não apenas fora responsável por fortes cortes orçamentais, como minimizara a importância social e cívica da Biblioteca Nacional.
Por certo, nada disto era uma novidade. Já em 21 de Dezembro de 2016, os trabalhadores da BN denunciaram ter recebido ameaças de despedimento por terem publicado nas redes sociais o relatório de um portal de notícias que acusava Alberto Manguel de supostas irregularidades na utilização dos fundos públicos em despesas de deslocação. A notícia que os empregados da BN difundiram nas redes sociais fora publicada na página digital Letra P, de 24 de Novembro desse ano, e revelava que Manguel, em apenas cinco meses de gestão, dilapidara mais de 400 mil pesos em despesas de deslocação para as suas viagens à volta do mundo, e ainda que o salário do director da BN equivalia ao de um secretário de Estado (150 mil pesos).
Segundo a Agência de Notícias “Ciências da Comunicação” (ANCCOM), da Universidade de Buenos Aires, os trabalhadores referiam-se à existência de directivas do director da BN, enviadas aos responsáveis de diferentes áreas, para que proibissem os trabalhadores de divulgar aquilo que considerava uma “campanha de difamação”.
Uma dessas directivas dizia: “Têm duas opções: ou deixam de atrapalhar o nosso trabalho comum por via de repetidas acusações, sem fundamento, ou têm de procurar emprego noutro lugar”.
A ANCCOM explicava ainda que as tensões na Biblioteca não eram novas e que em Março de 2016, felizmente, os sindicatos de trabalhadores tinham conseguido reincorporar 140 dos 240 funcionários demitidos.
A denúncia daria origem a um pedido de audiência ao ministro da Cultura, Pablo Avelluto, por parte dos delegados da Asociación Trabajadores del Estado (ATE) e da Unión del Personal Civil de la Nación (UPCN). A 7 de Dezembro, ambos os sindicatos tinham feito assembleias com os seus associados, para depois realizarem um plenário conjunto, de onde saiu uma declaração considerando que as directivas de Alberto Manguel representavam “práticas persecutórias que atentam contra a liberdade de expressão e de pensamento”, o que sendo grave ainda mais o era numa instituição como a Biblioteca Nacional. Dizer que um trabalhador prejudica o trabalho da instituição por reenviar mensagens, em canais que pertencem à vida privada de cada um, indiciava tendências autoritárias da parte do director da BN.
Foi neste ambiente, contaminado pelas denúncias e as críticas, que Manguel, com o argumento de que estava gravemente doente, se demitiu em meados de 2018.
Muito do que aqui foi reproduzido resultará das disputas políticas na Argentina, de que pouco ou quase nada sei. Mas uma coisa é certa: não podemos ignorá-las, em nome de uma utópica autonomia da arte e da literatura, impingida como valor absoluto pelo próprio Alberto Manguel. É que, como vimos, a sua passagem pela Biblioteca Nacional é tudo menos indissociável das lutas ideológicas em curso naquele país, algo de que o próprio sempre se tentou desvincular, lavando as mãos, como Pilatos.
Aparentemente, Fernando Medina — que é do Partido Socialista e diz admirar o autor de Embalando a Minha Biblioteca —, quando assinou o protocolo com Manguel, desconhecia ou não deu importância aos antecedentes do escritor como responsável de uma instituição de serviço público, na Argentina.
Reuniões e sessões extraordinárias
De regresso a Portugal: em 30 de Setembro de 2020, semanas depois da assinatura do protocolo na Feira do Livro, realizou-se a 146.ª reunião da Câmara Municipal de Lisboa.
Entre muitos outros assuntos, só após quase sete horas de reunião, quando já eram quase dez da noite (22h), e depois de discutidos mais de 30 pontos da ordem de trabalhos, é que o presidente da mesa apresentou a Proposta N.º 599/2020: “Aprovar a ratificação do Protocolo celebrado com Alberto Adrian Manguel, a aceitação da doação do respetivo acervo bibliotecário, a cedência de utilização do imóvel municipal designado ‘Palacete dos Marqueses de Pombal’, bem como as orientações estratégicas para a criação do Centro de Estudos da História da Leitura, nos termos da proposta”.
Nessa altura, já a sala estava quase vazia. Os vereadores João Ferreira (PCP), Assunção Cristas (CDS/PP) e Teresa Leal Coelho (PSD) tinham, entretanto, abandonado a reunião. Antes de isso acontecer, porém, a vereadora do PSD pediu a palavra para lamentar que estivessem ainda a discutir àquela hora da noite e disse que os pontos da ordem de trabalhos que estavam a discutir mereciam mais dignidade, sobretudo tratando-se de propostas com implicações financeiras, que exigiam a aprovação de verbas. Por isso, e porque já não havia computadores e as baterias dos telemóveis estavam descarregadas, “entendemos que não temos condições para continuar a trabalhar”.
De seguida, foi a vez de Assunção Cristas declarar:
“São nove e meia da noite, o senhor presidente da Câmara resolveu não estar presente nesta reunião, fez a sua opção e, entretanto, não apareceu. Todos nós temos outras vidas e, de facto, não acho aceitável ou exigível que estejamos aqui a esta hora ainda a reunir. Foram aventadas hipóteses de continuidade desta reunião, curiosamente, quem se opôs a isso já não está na sala e, com toda a franqueza, acho que é exigir demasiado dos vereadores da oposição. Portanto, acompanho a senhora vereadora Teresa Leal Coelho quando digo que o CDS também se vai retirar. Se calhar o pecado é original, porque era uma agenda demasiado ambiciosa para uma reunião pública, que normalmente tem poucos pontos (não me lembro de nenhuma reunião com tantos pontos quanto esta). Não acho aceitável continuarmos. Da nossa parte não é aceitável. São nove e meia da noite, eu também já não tenho praticamente bateria no telemóvel e daqui a nada já não posso perguntar nada a ninguém, nem ver nada. Não são condições para se continuar a trabalhar”.
Em face disto, o presidente da reunião, penalizando-se, reconheceu que “o problema foi claramente meu”, porque não “conduzi a ordem do dia de outra maneira”, para rematar: “Estamos todos cansados, não sei que lhes diga”.
Ainda assim, apesar da fadiga e da ineficácia, e depois de Teresa Leal Coelho e Assunção Cristas já não estarem na sala, o presidente da reunião retomou a condução dos trabalhos, para quase de imediato propor à votação o ponto 36 da ordem de trabalhos (proposta 599/2020). Fernando Medina continuava ausente, tal como Catarina Vaz Pinto (se estava presente, permaneceu calada).
Sem debate e sem intervenções, sem que Medina nem Vaz Pinto explicassem, justificassem e defendessem o protocolo assinado com Alberto Manguel, a única voz que se ouviu foi a da vereadora do PCP, Ana Jara, que apresentou um pedido de intervenção, para dizer que o seu partido queria votar por pontos, “porque há questões que temos em relação a esta proposta”, de modo que o PCP gostava de agrupar ou isolar as alíneas c), d) e e), que correspondem ao seguinte:
- c) Aprovar (…) a cedência de utilização do imóvel municipal designado “Palacete dos Marqueses de Pombal”, sito na Rua das Janelas Verdes, n.ºs 37-39, em Lisboa, a favor da EGEAC;
- d) Fixar (…) que a cedência de utilização do Palacete dos Marqueses de Pombal a favor da EGEAC durará se e enquanto o imóvel continuar afecto ao CEHL e aquela empresa municipal for responsável pela gestão do equipamento cultural;
- e) Incumbir a EGEAC de criar, no imóvel identificado na alínea anterior, um equipamento municipal designado “Centro de Estudos da História da Leitura”.
Submetidas a votação, as três alíneas foram aprovadas por maioria, com os votos a favor dos restantes vereadores (do PS e não se percebe de quais outros partidos, visto que tanto o CDS como o PSD estavam ausentes, e o BE ou também não estava ou permaneceu mudo), e o voto contra do PCP.
Quanto às alíneas a) e b)
— respectivamente “Aprovar ratificar o Protocolo para a Cedência e Implementação na cidade de Lisboa do CEHL, naquilo que lhe seja aplicável, celebrado a 12 de setembro, entre o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, em representação do Município e o Senhor Alberto Manguel” e “Aceitar, com contrapartidas para o Município de Lisboa, a doação da biblioteca pessoal de Alberto Manguel, compreendida como universalidade de facto, assim como os direitos de utilização de obras de sua autoria incidentes sobre a mesma, para constituição do futuro Centro de Estudos da História da Leitura, bem como a correspondente minuta de contrato a celebrar, que constitui o Anexo I à presente proposta e da qual é parte integrante, sendo a lista definitiva dos bens doados apresentada à Câmara Municipal de Lisboa, após conclusão dos trabalhos de catalogação em curso” —
foram aprovadas por unanimidade (estranha unanimidade), incluindo o voto favorável de Ana Jara (PCP).
Entre outras coisas, ficava ratificada a transferência, para a esfera da EGEAC, do Palacete dos Marqueses de Pombal, para ali ser instalado o CEHL.
O Palacete dos Marqueses de Pombal, como lembrou Alexandre Pomar, “foi biblioteca do Instituto do Restauro-Instituto José Figueiredo, por muito tempo cedido pela CML ao IPPC/IPCR/IPPAR, se as siglas estão certas…. Depois foi atribuído a uma ‘coisa’ chamada Centro de Arte Africana Contemporânea, Africa.cont, que se extinguiu demoradamente sem préstimo (2008-2017, oferecido por Sócrates ao Professor J. A. Fernandes Dias), e a seguir foi colocado à venda (mas os compradores árabes iriam tapar ou destruir as pinturas figurativas e a ideia abortou também)”. Resultado: “ao fim de dez anos de delapidação de meios, ficou tudo na mesma, só mais arruinado”.
Manguel regozijou com o Palacete da Rua das Janelas Verdes, em Santos, não muito longe da Tapada das Necessidades, “um belo jardim que não satisfaz os critérios da beleza francesa; não tem uma visão da perfeição formal, é coberto com flores que crescem livremente” (palavras do próprio Manguel).
Na entrevista que concedeu a Florent Zemmouche (o responsável da edição em espanhol da revista Le Grand Continent, do Groupe d’Etudes Géopolitiques, e cedida à Mensagem de Lisboa, para publicação exclusiva em Portugal, em 26 de Agosto de 2022), Manguel parecia divertir-se à grande (nada contra).
Como uma criança que acabou de sair de uma loja de brinquedos, carregado com grandes sacos cheios de presentes, confessou: “O Fernando Medina ofereceu-me um dos muitos palácios do município. Escolhi um belo palácio do Marquês de Pombal datado do século XIX”. É o que se chama, em linguagem da vida nocturna, um autêntico “bar aberto” de palácios municipais!
Entretanto, a vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto (que não esteve ou se manteve em silêncio na reunião da CML), apareceu numa entrevista à Casa da América Latina em Lisboa (dirigida por Manuela Júdice), conduzida por Raquel Marinho, a propósito da doação da biblioteca de Alberto Manguel, e publicada em 2 de Outubro de 2020.
Aí, Vaz Pinto explicava “a necessidade de intervenção no edifício” do Palacete, informava que “a pouco e pouco iremos construir também a equipa, que não vai ser uma equipa muito grande, para gerir o Centro. Fundamentalmente, terá alguns bibliotecários, depois algumas pessoas dedicadas mais à promoção de atividades. O próprio Alberto Manguel será o director artístico, portanto, queremos aliviá-lo de toda a carga burocrática, haverá um director executivo. Mas, enfim, isto será feito gradualmente porque nós ainda não temos os timings completamente estabelecidos. Sobretudo, vai depender da dimensão da intervenção que tivermos de fazer no Palácio. De qualquer forma, é um edifício que está, há vários anos, à espera de um destino, já teve várias hipóteses de destino. Já esteve pensado para ser o ‘Africa.cont’, um projeto pensado no tempo do Dr. António Costa sobre arte contemporânea africana, depois esse projeto não se concretizou. Depois pensou-se para uma embaixada de um determinado país”.
Sobre o CEHL, defendeu que “vem de alguma forma dar uma outra projecção, um outro protagonismo cultural a Lisboa”, que ficará “sob a alçada da EGEAC, vai ser gerido pela EGEAC, a nossa empresa municipal de cultura. Já temos a Casa Fernando Pessoa, que também é gerida pela EGEAC e, por outro lado, dentro da administração directa da Câmara, temos a rede das Bibliotecas de Lisboa. Portanto, o primeiro triângulo que nós vamos querer fazer é este: Centro de Estudos, Casa Fernando Pessoa, Bibliotecas de Lisboa”.
Um mês depois, no dia 18 de Novembro, pelas 12h00, realizou-se uma reunião da 7.ª Comissão Permanente da Assembleia Municipal de Lisboa, contendo como ponto único da ordem de trabalhos a “Audição da Exm.ª Senhora Vereadora Catarina Vaz Pinto” sobre vários temas, entre os quais “Informação sobre a Biblioteca recém-adquirida pela CML a instalar no Palacete Pombal na Rua das Janelas Verdes”.
Apesar de não ter conseguido ter acesso a essa discussão, alguma coisa fiquei a saber através da Acta n.º 126 da Sessão Extraordinária da Assembleia Municipal de Lisboa, realizada no dia 3 de Dezembro de 2020:
Nessa circunstância, a deputada municipal do PCP, Graciela Simões, usou da palavra e, enquanto colocava uma série de questões relativas ao acervo de Alberto Manguel, revelava que “na reunião da 7.ª Comissão, em Novembro, a Senhora Vereadora Catarina Vaz Pinto, perante as sucessivas perguntas dos deputados municipais sobre os gastos em relação ao futuro Centro de Estudos de História de Leitura, comentou que ‘não tinha valores para apresentar, tudo estava em estudo, estavam a ser feitos levantamentos e projetos e não compreendia a abordagem dos deputados às questões da Cultura’”.
Nessa sessão, continuava Graciela Simões, tinham pretendido colocar à Câmara “questões económicas no sentido do aproveitamento eficiente dos recursos. Para o PCP é inconcebível que tenha sido assinado um protocolo em cerimónia pública, mesmo antes de ir à Câmara ou à Assembleia, processo esse com o qual não concordamos, mas em que a Câmara assume um conjunto vastíssimo de responsabilidades com grandes impactos financeiros e, no entanto, não tem valores para apresentar desses custos”.
Entre essas responsabilidades, Catarina Vaz Pinto referiu o transporte e a catalogação do espólio – esta última atribuída a “uma bibliotecária canadiana” –, mas “a Senhora Vereadora não tinha valores para apresentar”.
Além disso, ficara decidido que o CEHL seria implantado no Palacete dos Marqueses de Pombal, “no entanto, quanto vai custar o restauro e a adaptação deste imóvel? Também não se sabe. Como é que são tomadas decisões sem se ter uma ideia dos valores? Se não sabe quanto custa, como é que a Câmara consegue avaliar que aquele imóvel, aquele projeto de recuperação, é a melhor opção para a cidade?”.
Quanto aos Recursos Humanos, que já estavam decididos, Vaz Pinto voltou a confessar que desconhecia os custos.
Perante isso, a deputada do PCP interrogava-se: “Os fundos para a criação deste Centro são infinitos? Perguntamos. Não tem de ser feita a correcta gestão dos recursos? Sejam eles financeiros, patrimoniais ou outros para encontrar as melhores soluções? Como se faz uma gestão se não sabe quanto custa o projeto?”.
A concluir, dizia: “Estas são questões financeiras de gestão de recursos, são questões económicas, não economicistas, como foi tentado classificar na Comissão. A economia é uma componente fundamental na cultura (…), encontrar recursos, tomar decisões sobre como os usar. (…) a Assembleia tem de conhecer que opções são essas, que recursos a Câmara usará para honrar as responsabilidades que assume, tendo em conta que apenas 40% dos livros estão catalogados, como foi avaliada a qualidade deste acervo literário? Quais os prazos previstos para a conclusão do projeto, a sua catalogação, a catalogação dos restantes 23 mil livros e quais os custos das obras do Centro de Estudos?”.
Catarina Vaz Pinto responderia a esta interpelação na referida Sessão Extraordinária, de 3 de Dezembro, com as seguintes palavras (que transcrevo com algumas adaptações, para melhor compreensão do discurso):
“Em relação à Biblioteca do Centro Histórias da Leitura, queria esclarecer que (…) todo este projeto surgiu da doação que foi feita por Alberto Manguel (…), e esta doação vai permitir a (…) construção de um novo equipamento precisamente dedicado à história da leitura, que é aquela área em que Alberto Manguel é o reconhecido especialista mundial, e daí também que, quando falei da dimensão simbólica desta biblioteca [‘Esta é uma biblioteca de renome cultural, acolhê-la é também um ato carregado de simbologia política’], é porque ela, além de ser um projeto cultural de per si, (…) posicionará Lisboa como uma cidade aberta ao mundo, com uma dimensão universalista, (…) a própria biblioteca (…) é um factor muito importante de afirmação da nossa identidade e também da afirmação de Lisboa no mundo global de hoje.
Em relação a nós (…), há todo um projeto que se tem de montar, (…) com algumas incógnitas, daí ainda estarmos, neste momento, na fase preliminar de avaliação e diagnóstico, nomeadamente relativamente ao estado do edifício. Portanto, aquilo que foi aqui feito, até agora, neste ano de 2020, tem sido o estudo de diagnóstico sobre a estrutura do edifício, o levantamento prático, o levantamento patrimonial sobre a validade e a qualidade do património azulejar do próprio edifício, que é bastante relevante; começámos também a delinear a estratégia de trabalho para os próximos anos, nomeadamente a estratégia de catalogação da Biblioteca, do acervo bibliotecário (…), e neste momento estamos em condições de começar a fazer esse trabalho de uma forma sistemática, a partir do início do próximo ano, que será feito por uma equipa já constituída, uma equipa que integra colaboradores da rede das Bibliotecas de Lisboa, no serviço de catalogação, com uma equipa também exterior, que será contratada, e também com a colaboração de Jillian Tomm, que é uma bibliotecária canadiana muito conhecedora da Biblioteca de Alberto Manguel. Portanto, neste momento, estamos na fase de levantamento. (…) O que já houve foi o transporte da Biblioteca para Lisboa, com os custos que não chegaram a atingir 20 mil euros. Neste momento, é o que tem estado a ser feito, também com a contratação do próprio Alberto Manguel, que opera uma remuneração que é equivalente aos demais directores artísticos dos equipamentos da EGEAC”.
Contudo, naquela altura, já a EGEAC tinha contratado os serviços de fornecimento de mudanças da John Gray Moving & Storage Inc., com sede em Montreal (Canadá), para “embalamento e meios complementares de carga e transporte para transportar o conjunto de bens previamente identificados, desde Montreal até Lisboa fazendo as entregas na morada indicada pelo Bibliógrafo ou por quem este vier a indicar”. Segundo o respectivo contrato (contrato n.º 8207), assinado em 9 de Outubro de 2020, a EGEAC pagou, a título de honorários, a quantia total de 32.939,25 euros, acrescida de IVA (12.900,00 euros pelas mudanças e 20.039,00 euros pelo seguro de transporte, por via marítima).
Portanto, Catarina Vaz Pinto estava mal informada, pois não acredito que fosse capaz de mentir à Assembleia Municipal. Depois, não se percebe por que razão a EGEAC não contratou uma empresa portuguesa. E, uma vez que os livros de Manguel já estavam empacotados, no depósito de Montreal, porquê pagar um novo embalamento? Relativamente à remuneração dos “directores artísticos dos equipamentos da EGEAC”, ao que consegui apurar, ultrapassará os 2.000,00 euros líquidos mensais.
Em 2021, começaram efectivamente os trabalhos que conduzirão ao funcionamento do CEHL. Desde logo, teve início o Projeto Geral de Restauro e Reabilitação do Palacete dos Marqueses de Pombal, futura sede do CEHL, que ficou a cargo do ateliê da arquitecta Teresa Nunes da Ponte [uma das poucas mulheres, em Portugal, a liderar um ateliê de arquitectura, Teresa Nunes da Ponte foi responsável pelo projecto para o Hotel Verride, no Palacete de Santa Catarina em Lisboa, e pelo Projecto de Requalificação do Campus de Campolide da Universidade Nova de Lisboa], na sequência de um acordo estabelecido entre a CML e a Fundação Calouste Gulbenkian.
Segundo o Relatório & Contas da EGEAC, de 2021, “A apresentação do projecto reflecte, em traços gerais, as necessidades que foram sendo levantadas: criar uma boa leitura das circulações e hierarquização dos espaços, garantir a clareza e segurança dos caminhos de evacuação sem proceder a alterações significativas no edifício, restaurando-se e valorizando-se os elementos decorativos dos pisos nobres e reforçando a relação entre os espaços interiores e o jardim. Foi também entregue a primeira parte do relatório da autoria do Historiador de Artes Decorativas Professor José Meco [docente de História de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, grande especialista em azulejaria], que procede ao estudo e identificação do património azulejar do palacete”.
Foram também desenvolvidos o chamado naming (marca de comunicação), a identidade visual e o logotipo do CEHL, que passará a ser chamado, futuramente, “Espaço Atlântida”, por se tratar, segundo a EGEAC, “de uma designação mais apelativa para os leitores do mundo: um espaço aberto à imaginação, à curiosidade, à aventura e à viagem que se inicia na primeira página do livro que vier a ser consultado. A apresentação desta marca de comunicação, nome, assim como deste novo posicionamento, aguarda o desenvolvimento do site do equipamento cultural, que acontecerá no primeiro semestre de 2022”.
O CEHL, ou “Espaço Atlântida”, também já aumentou a sua colecção original, através da aquisição de novas obras (cerca de 70), em torno da leitura e da história da leitura, de forma a potenciar “a sua vocação de centro de estudos pioneiro, referência nacional e internacional na área da história da leitura”.
Em 2021 e 2022, decorreu parte dos trabalhos de inventariação e catalogação da colecção do Centro, coordenados por Conceição Santos (Bibliotecária das BLX – CML) e com consultoria de Jillian Tomm, que iniciou funções em Março de 2021. Para esse efeito – “prestação de serviços para tratamento técnico das obras literárias da colecção Alberto Manguel” –, foram contratadas “quatro técnicas bibliotecárias” (Beatriz Magro, Margarida Isabel Abrantes Neves, Patrícia Alexandra Lopes Pimenta, Joana Isabel Aires Góis Janeiro), que “desenvolveram o seu trabalho de acordo com o previsto. Em 2022, prosseguirá este trabalho de catalogação da biblioteca do Centro”.
Entre Novembro de 2021 e Março de 2022, foi apresentada na sala de exposições temporárias da Casa Fernando Pessoa, em colaboração com o CEHL/Espaço Atlântida, a exposição “Marionetas da Comédia de Dante – Folhas que o Vento Colhe”, onde foram exibidas as marionetas que Alberto Manguel criou a partir das personagens d’A Divina Comédia, no ano em que se assinalaram 700 anos da morte de Dante Alighieri.
Também na Casa Fernando Pessoa, decorreu uma tarde de leituras, no âmbito do lançamento da obra Poetas de Dante, com a participação de 16 poetas (de um total de 34 que colaboraram no livro): Nuno Júdice, Rosa Oliveira, Elisabete Marques, Miguel Martins, Ricardo Marques, Ana Paula Tavares, Luís Filipe Castro Mendes, Miguel Cardoso, João Paulo Esteves da Silva, Vasco Gato, Rita Taborda Duarte, André Tecedeiro, Filipa Leal, Jaime Rocha, Matilde Campilho, Fernando Pinto do Amaral.
Custos parciais (apurados até agora)
No que diz respeito às empreitadas de obras públicas no Palacete dos Marqueses de Pombal, só consegui ter conhecimento de um contrato, assinado em Novembro de 2022, para o isolamento provisório de entrada de águas pluviais, que ficou a cargo da VNZ Construção S.A. (empresa de construção imobiliária com sede em Rio de Mouro), pelo valor de 22.156,05 euros.
No site “Base: contratos públicos online”, não consta, por exemplo, nenhuma informação sobre os serviços prestados pela arquitecta Teresa Nunes da Ponte, no âmbito do Palacete dos Marqueses de Pombal, ou pelo professor José Meco.
Pela “aquisição de serviços de identidade visual” e pelo “desenvolvimento e manutenção sítio de Internet” do CEHL, a EGEAC já pagou à empresa Globaz, S.A., com designação comercial LOBA – Customer Experience Design, um valor total de 24.800,00 euros (13.400,00 euros em Agosto de 2021, e 11.400,00 euros em Março de 2022).
O custo total das quatro técnicas em regime de prestação de serviços ronda, até agora, os 130 mil euros (BASE: contratos públicos online). Jillian Nita Tomm, contratada para prestar serviços de consultoria no âmbito da implementação do CEHL/Espaço Atlântida, recebeu 19.200,00 euros (Março de 2021) e 23.040,00 euros (Janeiro de 2022), perfazendo um total de 42.240,00 euros. O que dá 1.920,00 euros mensais (10+12 meses).
O que Jillian Tomm já ganhou é um escândalo. O director artístico, Alberto Manguel, que receberá mais por mês, trouxe uma consultora que não se percebe ao certo o que faz, já que os livros estão a ser catalogados por outras pessoas.
Quando catalogadores de livros e manuscritos antigos da Biblioteca Nacional não levam para casa nem mil euros por mês, a CML resolve pagar generosamente a consultores externos. Mas, bem vistas as coisas: a consultora está a fazer o quê, uma vez que já existe um consultor artístico, que é, também ele (ao que se diz), bibliófilo? Está só a espreitar por cima dos ombros das catalogadoras, enquanto elas fazem todo o trabalho?
Em relação a estas últimas (as catalogadoras), tendo em conta que tem sido dito que o CEHL integrará a Rede de Leitura Pública da CML, porque é que, em vez de prolongar a precariedade daquelas quatro técnicas, não as integra nos seus quadros, criando-lhes condições de estabilidade, evitando mantê-las em regimes de trabalho que prolongam a precariedade? Se, como dizem, o CEHL vai fazer parte da Rede de Leitura Pública da CML, então provem-no e integrem estas técnicas.
Para a produção e montagem da Exposição “Marionetas de Dante”, a EGEAC pagou a António José da Costa Rodrigues o valor de 13.819,05 euros (Novembro de 2021). E para a edição do livro Poetas de Dante. Visita ao Inferno, lançado no final de 2021, a EGEAC pagou às Edições Tinta-da-China 5.630,00 euros.
No que toca ao ordenado de Alberto Manguel, não consegui obter a informação exacta, porém, tendo em conta o já revelado por Catarina Vaz Pinto, na Sessão Extraordinária da Assembleia Municipal – “opera uma remuneração que é equivalente aos demais directores artísticos dos equipamentos da EGEAC” –, é possível que já tenha auferido, entre 2021 e 2022, um valor próximo dos 100 mil euros líquidos (incluindo subsídios de férias e 13.º mês). Mas o valor exacto, sublinho, terá de ser explicado pelos responsáveis da CML, os actuais (Carlos Moedas) e os seus antecessores (desde logo Fernando Medina, o actual ministro das Finanças).
O custo total do que aqui conseguimos apurar com alguma exactidão aproxima-se dos 300 mil euros (o valor real será muito mais elevado, pois deveria incluir, entre outras despesas, além dos ordenados de Manguel, os custos do ateliê de arquitectura, de todas as obras do Palacete, o trabalho do especialista em azulejaria, as novas aquisições de livros para a Biblioteca, etc.).
Se a CML, em 2023, prevê gastar três milhões de euros com o CEHL/Espaço Atlântida, conforme consta na sua proposta de orçamento para este ano, quanto não terá gastado já entre 2021 e 2022?
É uma pergunta a que Fernando Medina ou Catarina Vaz Pinto deveriam dar uma resposta cabal, sem subterfúgios nem meias-verdades.
O Hipnotizador de Perus
Aos jornais portugueses, Manguel disse desconhecer os custos da empreitada e do projecto elaborado e suportado pelo Município de Lisboa. Percebe-se. Segundo ele, “Os portugueses não gostam de investir dinheiro. Quando vou aos comerciantes do meu bairro, tenho dificuldade em pagar porque eles começam uma conversa sobre cultura, ou os últimos movimentos sociais… Tenho sempre de encontrar estratégias para pagar e que as minhas dívidas não se acumulem” (A Mensagem, 26 de Agosto de 2022).
Quem ler esta entrevista verificará que Manguel é bom no elogio, mas no mais é desolador e falho de ideias. Além de encorajar os comerciantes portugueses a não lhe cobrarem dinheiro nas lojas que ele frequenta (depois do que disse sobre eles, os comerciantes do seu bairro sentir-se-ão obrigados a corroborá-lo, ou a não o desmentir), o argentino/canadiano é excelente nos essencialismos. Orientaliza os portugueses, derrama-se em generalizações absurdas.
O Portugal de Manguel é uma espécie de cabeleireiro com fotografias amarelecidas (ou desbotadas) na montra, o género de salão de beleza frequentado por velhotas e por estrangeiros que lá vão para ver as caras pré-históricas dos indígenas enfeitados.
Alguns exemplos:
1) “Encontrei a mesma generosidade e nobreza de espírito, um certo sentido de honra que associamos à era feudal. Não há nada pior para um português do que uma mentira ou a rudeza.”
2) “Agora, tenho uma rubrica num programa de televisão, mesmo que não saiba falar bem português, para falar de um livro durante 15 minutos. É ‘A vida privada dos livros’. O meu talhante e a mulher seguem o meu programa com rigor e depois falam-me sobre os livros que escolhi. Em Portugal, o peixe também é extraordinário. Descobri que o meu peixeiro era um artista que faz belas obras. Então desenvolvi uma relação especial com muitos lugares na cidade.”
3) “Lisboa é definitivamente uma cidade literária. (…) as pessoas que conheço no mercado ou num café estão muito interessadas em ler.”
4) “A estátua que representa o Adamastor, o gigante das tempestades, evoca a figura mítica criada por Camões. Nos Lusíadas define, de certa forma, o sentimento épico e heroico que ainda existe nas profundezas da alma portuguesa.”
5) Portugal é “um dos últimos lugares civilizados da Terra”, é “uma sociedade que talvez seja uma das últimas democracias do mundo”, é uma “sociedade sem pressa”, “A busca do sucesso e da glória não é uma aspiração comum em Portugal”.
Mesmo quando ensaia uma pequena crítica – “a administração é muito lenta” (em Portugal) –, fá-lo apenas como ponto de partida para o elogio inconsequente: “No entanto, ao contrário das administrações italiana, argentina ou turca, que também conheço, se um português lhe disser que fará alguma coisa, mesmo que leve tempo, pode ter a certeza de que o fará”.
Ou: “Tem de se ser paciente aqui. Em Portugal, a impaciência está associada à rudeza. Todas as conversas devem começar com uma saudação e depois com ‘como estás’ ou ‘como está a tua família’. Só depois de trocarmos estas poucas fórmulas educadas é que podemos passar ao tema que nos interessa”. E ainda: “Sinto-me muito confortável aqui. Aprendi a não me apressar e a contemplar o que me rodeia”.
Este processo de particularização – da sociedade portuguesa em relação às outras sociedades – é acompanhado de um trabalho simétrico e inverso de generalização, nomeadamente das qualidades que observa em alguns bípedes implumes da capital (essencialismo, para quem o não sabe, é uma forma de explicar toda a realidade com base em meia dúzia de especificidades individuais).
Claro que Manguel, como estrangeiro a viver em Lisboa com condições excepcionais, teria de dizer que os portugueses somos uma coisa única no planeta, que somos dotados de uma imensa sabedoria. Porque ele sabe que as pessoas têm uma profunda necessidade de aprovação, acreditam sempre nos elogios que lhes fazem. Mesmo que elas saibam que não são desinteressados, acham-nos merecidos. É o chamado discurso para hipnotizar perus.
Assim como compreendeu a base clientelar da sociedade portuguesa. Depois de andar pelas grandes cidades e centros culturais do mundo, Manguel percebeu que o nosso meio literário é constituído, maioritariamente, por deslumbrados e por consumidores de alta cultura, apenas ou sobretudo pela sua função decorativa.
Como excelente promotor da sua imagem, Manguel sabe que a posse dos grandes nomes – a posse de Dante, a posse de Milton, a posse de Chaucer, a posse de Boccaccio, a posse de Cervantes, a posse de Proust, a posse de Stevenson, a posse de Alice no País das Maravilhas, etc. – equivale a títulos de nobreza. Por isso, ostenta-os como objectos de devoção, como talismãs, ou mesmo bibelôs (porcelanas, etc.).
À semelhança de Jorge Luis Borges, mas em género pastiche, Manguel sabe que, no agrupamento desses grandes nomes, o mais importante é o seu empilhamento (ou atravancamento), não os próprios nomes.
Basta ler os livros de Manguel, que se organizam em torno do bricabraque do valor das referências da alta cultura, no seu consumo ostensivo, em que o status social se associa à aparência, em que a promoção social é a exibição de um estilo de vida (por isso se poderia dizer que, a Manguel, lhe interessava ser director da Biblioteca Nacional argentina, para manter a sua ligação à magia literária de Jorge Luis Borges).
Na sua ornamentação rebuscada, os livros de Manguel lembram aqueles bolos cheios de açúcar das vitrinas das pastelarias portuguesas. De certo modo, parafraseando Savignac, o bom gosto de Manguel é apenas uma das formas do seu mau gosto…
Manguel dilui o perfume dos clássicos no seu estilo de vida nómada, errante ou cosmopolita. Com a sua voz de chilro de canário, Manguel é um homem elegante, com a camisa e as calças imaculadas, que usa o chapéu como se fosse uma segunda cabeça que lhe tivesse nascido no cocuruto (nem nos programas de televisão o tira).
Por trás da sua barba cortada rente, o seu rosto é paradoxalmente infantil: tem as bochechas vermelhuscas e rechonchudas, como as de um bebé.
Não se iludam, porém: Manguel é um homem inteiramente dedicado aos seus próprios interesses, está a jogar o seu próprio jogo. Daí ter integrado, de imediato, um dos sindicatos mais fortes em Portugal, a famosa “Confraria do Elogio Mútuo”.
Veja-se as referências a escritores portugueses nas entrevistas a jornais portugueses ou o prólogo que escreveu para o seu último livro, Guia de Um Perplexo em Portugal (Edições Tinta-da-China), em particular as referências ao cardeal Tolentino Mendonça, mestre a disfarçar-se de humilde, franco, sensível, delicado, desinteressado.
Graças aos adornos do seu discurso, que através das referências abundantes aos grandes clássicos convocam a força acumulada de uma tradição literária bem ancorada na cultura ocidental, Alberto Manguel conquistou de imediato várias tribos da literatura portuguesa.
Não apenas na CML, não apenas nas Edições Tinta-da-China, mas também no Expresso, no Público (curso online “Cinco Lições com Alberto Manguel”, através de uma parceria entre a Tinta-da-China e o jornal Público), na RTP (“A Vida Privada dos Livros”, programa de Alberto Manguel e Ana Daniela Soares, na RTP3), na Porto Editora, na Casa Fernando Pessoa, no Teatro Municipal do Porto (através de um ensaio numa publicação que assinalou os 90 anos do Teatro Rivoli), na Fundação José Saramago (como comissário das cinco conferências sobre o Prémio Nobel português, no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de José Saramago, assinalado em 16 de Novembro de 2022).
Entendamo-nos: Manguel não está mal, Manguel faz apenas (e bem) pela vida.
No fundo, Portugal é, para ele, mais um troféu de viagem. E Lisboa uma região exótica onde o argentino/canadiano descobriu que poderia aplicar, sem grandes embaraços, a sua estratégia de falsos consensos, o seu elogio à arte subversiva no conforto da sua vida burguesa: “O Centro de Estudos da História da Leitura que abriremos em Lisboa tentará ser um pequeno contrapeso ao poder crescente da ambição política e económica da sociedade de consumo, cujo propósito óbvio é converter-nos a todos em escravos que perderam a confiança na sua própria inteligência” (segundo o Observador, de 26 de Setembro de 2020, Alberto Manguel disse que queria que a biblioteca que doou à cidade de Lisboa se tornasse – engulam o riso – um “centro de subversão intelectual”).
De resto, Manguel diz-se defensor da autonomia absoluta da arte e da literatura, rejeitando as “escolhas orientadas por valores extraliterários”. Um dos exemplos por ele citados, ao Expresso, foi o de Amanda Gorman “a jovem convidada a ler um poema na tomada de posse de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos”.
Segundo Manguel, “ela tem um pequeno talento. Estava lá por ser mulher e por ser negra. Isso é um insulto à poesia universal, à literatura de língua inglesa e aos próprios afroamericanos. Ela estava a ser insultada e não se dava conta. Tenho amigos a quem são outorgados prémios, mas que não sabem se os recebem por serem negros, gays, mulheres ou porque escrevem bem…”.
Para uma Câmara socialista, como era a de Medina, e para uma Vereadora da Cultura, como era Catarina Vaz Pinto, que justificou a vinda da Biblioteca dizendo que ela posicionaria “Lisboa como uma cidade aberta ao mundo, com uma dimensão universalista”, e que isso seria “um factor muito importante de afirmação da nossa identidade e também da afirmação de Lisboa no mundo global de hoje”, é estranho que tenham dado guarida a um apoiante de Mauricio Macri e a um crítico das posições daqueles que procuram identificar os preconceitos reproduzidos na linguagem quotidiana, que têm lutado para corrigir algumas injustiças do passado e que tentam “nivelar os lados do jogo”, na esperança de com isso se melhorar um pouco as relações sociais (Geoffrey Hughs, Political Correctness: A History of Semantics and Culture, 2010).
Conclusões
Há algo de estranho e sem sentido neste caso, que precisa de ser deslindado. Aqui e além, encontramos vários fios soltos que Fernando Medina, Catarina Vaz Pinto e Carlos Moedas deveriam explicar.
Em primeiro lugar, a própria Biblioteca. Pelo que percebi da reportagem do jornal Expresso, de 19 de Março de 2022, as 800 caixas com os livros da colecção privada de Manguel foram depositadas no antigo Arquivo Municipal de Lisboa, no Alto da Eira, na zona da Penha de França, e já começaram a ser abertas e a catalogação está, neste momento, a ser feita.
Entre os autores que estavam adormecidos há mais de cinco anos, dentro dos caixotes que vieram do Canadá, encontram-se nomes como Joseph Brodsky, Vladimir Nabokov, Beckett, Dante, Cervantes, Atwood, Cortázar, Borges (com “uma presença forte”), Stevenson, etc. Obras como a Odisseia de Homero, uma em inglês, outra em espanhol; uma história do Arlequim e muitas do Don Juan; um fac-símile do livro que Rodolphe Töpffer, o inventor do cartoon, dedicou a Goethe; o primeiro romance de Adolfo Bioy Casares, que ele renegaria, com anotações do seu punho e letra, bem como a primeira edição anotada de A Invenção de Morel; o romance Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez (livro que sairá em português, em 2023, nas Edições Tinta-da-China); Allegorizings, de Jan Morris; várias edições de Alice no País das Maravilhas e de Alice do Outro Lado do Espelho; várias edições de As Mil e Uma Noites; muitos livros religiosos e teológicos.
“Neste labirinto de reflexos”, continuava o Expresso, “não faltam os portugueses, e de uma das caixas começam a sair volumes de textos escritos originalmente em português e traduzidos para várias línguas. Dois autores se destacam. Um é António Lobo Antunes, o outro Eduardo Lourenço.”
Pergunto: é esta a chamada “biblioteca mítica” de Alberto Manguel? É que, ao contrário do que muitos pensam, a quantidade não produz, por pura acumulação, qualidade.
Na “nota sobre o estado actual da documentação”, anexa ao Protocolo assinado com a CML, afirma-se que “Foi produzido um inventário parcial detalhado para a biblioteca de Alberto Manguel, tal como estava em Mondion, França, em 2015. Este inventário é composto por cerca de 14 mil títulos”. Mais adiante, fala-se em “17 mil volumes, já listados e catalogados”.
Nesse anexo, valha a verdade, lavra a confusão. Nada parece bater certo. Nem o número de volumes, nem a catalogação (o que está ali reproduzido é uma bibliografia, não é uma catalogação, para o ser teria de incluir a dimensão da obra, o número de páginas, etc.).
Na realidade, ninguém sabe quantos livros compõem a biblioteca de Manguel (saberá o próprio Manguel quantos livros tem a sua biblioteca?). O protocolo fala de obras, de exemplares, de livros, de títulos e de volumes, como se fosse tudo a mesma coisa. Serão 17 mil títulos em 40 mil volumes (um título pode conter 10 ou 20 volumes). Afinal, quantos títulos, quantas obras e quantos volumes é que são? Poderão ou saberão Manguel, Medina, Vaz Pinto e Moedas esclarecer-nos?
A CML de Medina admitiu que não conhecia o conteúdo da biblioteca: a cláusula 4.ª do Contrato de Doação dizia que só “após a conclusão dos trabalhos de catalogação dos bens doados” é que “a respetiva listagem definitiva será apensa ao presente contrato, dele fazendo parte integrante”. O mesmo se dizia na Proposta n.º 599/2020 que foi ratificada em reunião da CML, acima referida: “(…) sendo a listagem definitiva das obras doadas apresentada à Câmara Municipal de Lisboa, depois de concluídos os respectivos trabalhos de catalogação”.
Terá sido sensato aceitar a doação de uma biblioteca desconhecendo-se o seu conteúdo, sem que tudo estivesse devidamente catalogado ou inventariado? Que dizem os regulamentos ou as leis sobre as condições de aceitação pública de doações? Não deveria a Biblioteca Nacional pronunciar-se a este respeito, fornecendo um parecer técnico?
E, afinal, quem é que fez o inventário parcial referido no protocolo? No final do anexo diz-se que a lista “foi extraída em grande parte de uma lista substancialmente mais longa de artigos especiais compilados pelo [sic] especialista em livros de antiquário Lucie Pabel”.
Quem é Lucie Pabel? Uma autoridade indiscutível em bibliofilia, mas obscura? Uma eminência parda? Não se sabe, na Internet não consta o seu nome. As únicas referências surgem no Google Books, em livros assinados pelo próprio Alberto Manguel e pelo marido Craig E. Stephenson. Por exemplo, Manguel diz o seguinte no livro Embalando a Minha Biblioteca: “Jillian Tomm, Lucie Pabel e Gottwalt Pankow, juntamente com Ramón de Elía e Finn Willi Zobel, foram os principais desmanteladores, organizadores e empacotadores”. Além disto, não se sabe absolutamente mais nada sobre Lucie Pabel.
Seja como for, o referido inventário ou catalogação (até isto é confuso, por vezes é inventário, por vezes é catalogação), feitos pela amiga (e não amigo, como consta do anexo) de Manguel, não servirão de muito, pois dificilmente os seus critérios poderão ser aplicados ao tipo de catalogação das bibliotecas da Rede de Leitura Pública da CML.
De resto, tenho muitas dúvidas quanto à importância desta biblioteca. Não há nada, do que conhecemos até aqui, que nos permita afirmar que é uma biblioteca extraordinária. Sobretudo, que é uma biblioteca que faz falta a Lisboa.
Tirando a Bíblia alemã manuscrita, do ano 1300 (que ainda assim não valerá uma fortuna, talvez uns milhares de euros), apresentada na cerimónia pública de assinatura do protocolo, na Feira do Livro de Lisboa, nenhuma outra obra se destaca grandemente. Muitas delas, entre as que foram qualificadas como raridades, existem na nossa Biblioteca Nacional. Veja-se a obra de Johann Weyer (Histoires, disputes et discours: des illusions et impostures, des diables, des magiciens infâmes, sorcières et empoisonneurs, de 1885), que consta do catálogo da BN.
Depois, em relação a Miguel de Cervantes Saavedra, Vida y hechos del ingenioso caballero Don Quijote de la Mancha. Composto por Miguel de Cervantes Saavedra (reedição de 1782, em quatro volumes, em Madrid, pelas edições de Manuel Martin), a BN dispõe até de edições anteriores (veja-se o catálogo A Exposição Cervantina da Biblioteca Nacional de Lisboa, de Xavier da Cunha, publicado pela Imprensa Nacional em 1908). Mais: há uma edição do livro de Cervantes de 1605, editada em Lisboa, e depois dessa foram feitas dezenas de reedições.
E a quarta impressão do Manual de Confesores ad mentem Scoti, (Madrid, 1724)? Quanto valerá? 20 ou 25 euros, talvez, dependendo do seu estado?
Quem é que foi o avaliador desta lista de livros? Não será que o valor material e cultural da biblioteca é muito inferior aos custos que a CML já pagou e vai continuar a pagar no futuro? Aparentemente, nada disto interessou a Fernando Medina e a Catarina Vaz Pinto: tanto compram o borrego como o carneiro, é como calha…
O que parece interessar, segundo Luciana Leiderfarb, na reportagem do Expresso, é que “Alberto Manguel não é um colecionador, mas um leitor. Como tal, a biblioteca traça o seu próprio retrato, as suas preferências literárias, temáticas, editoriais”. Ou, como considera Jillian Tomm, “a amiga de Alberto Manguel de longa data”, “o valor maior da coleção, aquilo que a torna verdadeiramente única e lhe confere sentido é o facto de ser ‘um espelho’ de quem a criou” (Luciana Leiderfarb).
À vista disto, porque carga de água é que a CML vai investir três milhões de euros, só em 2023, numa estrutura excepcional, em vez de aumentar os apoios aos seus outros equipamentos culturais?
E porque é que o orçamento para os Arquivos da Cidade, para 2023, é de apenas 1,6 milhões de euros, quase metade do dinheiro destinado só para a Biblioteca de Alberto Manguel (3 milhões)?
Porquê este sangramento dos recursos públicos para um equipamento duvidoso – sobre o qual estamos em escuridão quase completa –, que continua a aguardar explicações plausíveis?
Isto é tanto mais bizarro quando sabemos que, nos últimos anos, vários técnicos dos arquivos municipais, onde estão guardados alguns dos mais importantes espólios do país, se têm queixado da falta de condições mínimas para trabalhar e para cumprir a sua missão de salvaguarda dos respectivos documentos.
Quando sabemos que há arquivos extraordinários que, por falta de pessoal qualificado, estão há dezenas de anos à espera de serem catalogados.
Quando há colecções de fotografias e de material audiovisual em estado desgraçado.
Quando há instituições de investigação universitária, com provas dadas, que se debatem no dia-a-dia com as maiores dificuldades financeiras, algumas das quais nem sequer conseguem financiar as suas próprias edições.
Quando as carreiras dos técnicos dos arquivos e das bibliotecas continuam a não ser devidamente valorizadas (salários de miséria, quase ausência de investimentos na sua formação, etc.).
Quando tantos equipamentos municipais, incluindo os teatros, se debatem com subfinanciamento crónico.
Quando continua a haver falta de meios, de recursos, de condições materiais e humanas para os profissionais da cultura trabalharem com autonomia, dignidade e independência (entre muitos outros problemas, que não merece a pena repisar).
Quando tudo isto é assim, quando tudo é carência ou escassez no nosso campo cultural, para o CEHL/Espaço Atlântida, em contrapartida, parece não faltarem verbas.
Para a catalogação da biblioteca, para pagar generosamente a consultoras externas, para pagar ordenados chorudos a directores artísticos, para financiar exposições de marionetas, para editar uns Cadernos CEHL (revista composta por ensaios de autores convidados referentes a temas diversos relacionados com a História da Leitura sob coordenação da Direção do CEHL), para custear o projecto arquitectónico e as obras de reabilitação e adaptação do Palacete dos Marqueses de Pombal, para pagar um livro sobre a história e o património daquele edifício (“com textos de vários autores, referente ao património imóvel e integrado, bem como a algum património móvel identificado, do Palacete onde ficará alojado o centro”, como é referido no documento “Instrumentos de Gestão Previsional para o exercício de 2022”, publicado em finais de 2021 pela EGEAC), para tudo isto, repito e sublinho, o dinheiro não escasseia.
Enfim, porque é que ainda não se conhece o valor do projecto de arquitectura, bem como os custos previstos para as obras? Porque é que o dinheiro já pago a Manguel continua a ser informação sigilosa? Porque é que ainda não sabemos, pormenorizadamente, como é que os três milhões de 2023 vão ser aplicados por Carlos Moedas, e quais os critérios de selecção das despesas? Que informações vitais contém? Haverá aí material explosivo? Envolverá problemas graves do ponto de vista legal ou ético? (Nenhuma destas dúvidas chega para demonstrar que poderá ter havido algum tipo de prevaricação, porém, as esmagadoras provas circunstanciais autorizam-nos a suspeitar que alguma coisa se passou, ou passa, neste processo).
Entretanto, uma investigação da revista Sábado revelou que a EGEAC assinou um contrato vitalício com Alberto Manguel (2500 euros líquidos por mês), mais um gabinete sumptuoso no Palacete dos Marqueses de Pombal (com cozinha e WC) e viagens pagas à assessora do argentino-canadiano.
Os recentes acontecimentos na TAP vieram estilhaçar, definitivamente, a dura carapaça de manigâncias do glorioso Partido Socialista. Mostraram que a verdade é uma coisa que raramente se encontra na boca dos políticos do Governo e que há uma facção considerável de políticos que põe o seu bem-estar económico à frente da prosperidade do país.
O triunfo de Manguel – Manguel é um fenómeno de todos os tempos e de todas as regiões do planeta, que atingiu o seu apogeu em Lisboa – resultou de um capricho de Fernando Medina.
Fernando Medina tem de explicar muitas coisas (ou já se esqueceu?) sobre a situação (a gestão autárquica de Medina está cheia de “situações”) da biblioteca de Alberto Manguel e a respectiva operação de marketing político.
Não se terá convencido ele que Manguel, pelos seus contactos internacionais, podia pôr Lisboa no mapa (e posicioná-lo bem, a ele Fernando Medina, na corrida à sucessão de António Costa)?
A avaliar pelo comportamento-padrão de Medina, com avanços e recuos, mas que é sempre o mesmo, quer se trate de Sérgio Figueiredo, quer se trate da CML, quer se trate da TAP, o seu estilo não é propriamente a transparência ou a capacidade de ouvir os outros (sobretudo os que o contrariam).
Reparem: não se trata de ser bisbilhoteiro. Trata-se de trazer a público um conjunto de inquietações (que não são apenas minhas) relativamente à boa gestão dos recursos públicos. Trata-se de continuar a falar das situações duvidosas, contribuindo para tornar as eventuais manigâncias o mais difíceis possível.
Trata-se de alinhar uma série de perguntas sobre a forma como o nosso dinheiro é investido, colocando-as aos respectivos responsáveis políticos. Trata-se, enfim, de seguir os ensinamentos apontados pelo próprio Alberto Manguel, em entrevista à Casa da América Latina em Lisboa: “Eu acho que tudo o que é importante na vida nos ajuda a fazer perguntas melhores e não nos dá respostas. São os dogmas, os slogans políticos, as mentiras que dão respostas. Os políticos, no geral, tratam sempre de dizer o que temos de fazer e não dão razões. Em troca, a literatura, a arte, fazem perguntas”.
Post Scriptum
Para se perceber as sinergias entre a CML de Fernando Medina (em particular a EGEAC) e as Edições Tinta-da-China, que facilitaram os contactos entre Bárbara Bulhosa, Alberto Manguel e o então presidente da autarquia lisboeta, reproduzo uma lista de contratos assinados entre aquela editora e a edilidade da capital.
2017: As Edições Tinta-da-China assinaram dois contratos de aquisição de serviços, por ajuste directo (regime geral), um com a EGEAC (26 de Janeiro), outro com o Município de Lisboa (20 de Outubro). O primeiro, tendo como objecto a edição do livro Lojas com História, no valor de 28.145,00 euros, o segundo, para a co-edição em português da colecção infantil “Antiprincesas” e a reedição do livro Condor, de João Pina, no valor de 17.883,00 euros. O livro Lojas com História seria apresentado no dia 22 de Novembro de 2017, no Salão Nobre da CML, ocasião que contou com a presença de Fernando Medina, presidente da CML, de Duarte Cordeiro, vice-presidente e vereador com o pelouro da Economia e Inovação, e de Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura.
2018: A CML adjudicou à Tinta-da-China um contrato no valor de 8.478,20 euros, para pagar os serviços de produção, impressão, distribuição e comunicação para a co-edição de obra no âmbito da programação de Lisboa como Capital Ibero-Americana de Cultura.
2019: A EGEAC adquiriu à Tinta-da-China 200 exemplares do livro O Tempo das Mulheres, de Alfredo Cunha, pelo valor de 9.434,00 euros. E encomendou, também por ajuste directo, a edição e fornecimento da revista Persona, por 8.449,25 euros. Ainda em 2018, a CML pagou 2.194,50 euros pelo “Lançamento de procedimento por consulta prévia para aquisição de 150 exemplares da obra literária Lojas com História“.
2020: A CML pagou à mesma editora 19.600,00 euros pela aquisição de serviços de edição, impressão, distribuição e colocação em venda do livro Lojas com História 2. No mesmo ano, a CML apoiou a edição do Atlas Almirante Reis e a EGEAC co-editou, com a Tinta-da-China, o catálogo da exposição do fotógrafo Daniel Blaufuks — Hoje, nada —, que esteve patente no Pavilhão Branco das Galerias Municipais da EGEAC (sobre estas duas últimas obras não obtive informação relativa ao tipo de apoio prestado).
2021: A EGEAC voltou a contratar os serviços da Tinta-da-China, para a aquisição de 500 exemplares do livro Poetas de Dante, obra inserida já nas actividades e programação do Centro de Estudos da História da Leitura (CEHL), em parceria com a Casa Fernando Pessoa (CFP). Custo da encomenda: 5.630,00 euros.
2022: A EGEAC e a Tinta-da-China celebraram mais dois contratos. O primeiro relativo à publicação de Sombras do Império. Belém – projetos, hesitações e inércia 1941-1972, por 5.660,00 euros. O segundo para a execução de 500 exemplares do catálogo da exposição temporária “Mulheres e Resistência Novas Cartas Portuguesas“, no valor de 6.240,57 euros.
Indirectamente, pelo menos, a EGEAC terá pago Censura: A Construção de uma Arma Política do Estado Novo, o livro da Colecção Ephemera que parte dos materiais usados na exposição “Proibido por Inconveniente” (que esteve patente no Edifício do Diário de Notícias, em Lisboa), organizado a partir do espólio do Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira. O contrato assinado entre a EGEAC e a Associação Cultural Ephemera, em Abril de 2022, no valor de 27.500,00 euros previa, entre outras coisas, o pagamento de direitos de autor pelos textos produzidos no âmbito da exposição, e demais custos associados.
No total (sem contar com os valores que não foi possível apurar), a Tinta-da-China recebeu do Município de Lisboa, directa ou indirectamente, entre 2017 e 2022, cerca de 112 mil euros.
Para se perceber a ligação excepcional da CML com a Tinta-da-China, consulte-se o site Base: Contratos Públicos Online. Verificarão que praticamente mais nenhuma editora (tirando, no passado, a Abysmo, do falecido João Paulo Cotrim) tem beneficiado do orçamento da CML para a Cultura. Uma das únicas editoras que assinou um contrato (e apenas um) com a EGEAC foi a Clube do Autor, para a execução do livro Santo António, de Lisboa e Pádua, de António Mega Ferreira, no valor de 15.500,00 euros, em Julho de 2019.




