Literatura

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente
Cinema e Audiovisual
José Carlos Fernandes

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira acima da lei e cujo entendimento da “ética republicana” é estritamente subordinado ao proveito pessoal, poderá imaginar-se quão nocivo é para o carácter de um

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As coisas mais aborrecidas
Literatura
Filipe Nunes Vicente

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de coleira com GPS. Somos linces ibéricos em extinção, os cientistas sabem sempre de cada passo nosso.   Tenho trabalhado nas contra-medidas, claro. Ter o zingarelho desligado

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Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Artes Performativas
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez pelas mãos de um filme, uma trilogia romântica dos anos noventa, daquelas que nos enchem de esperanças para a vida toda (the right place, the

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O folhetim Alberto Manguel
Literatura
Diogo Ramada Curto

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e mesmo esses carecem de verificação, são os seguintes: nasceu em Buenos Aires, em 1948, passou a infância em Israel e a adolescência na Argentina; quando

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Weimar #3
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #3

POLÍCIA DA MORALIDADE – SALVAR A DEMOCRACIA – DIREITOS HUMANOS – OBSERVATÓRIO DO ÓDIO – PANTEÃO   POLÍCIA DA MORALIDADE  O dia em que se extinguiu a Polícia da Moralidade foi um dia bonito. Na rua, homens de negro, em grupos pequenos, abandonavam as pistolas no chão, o chicote, vários estranhos instrumentos de tortura. Alguns Polícias da Moralidade, de tão contentes, rezavam baixinho, enganando-se de propósito no nome de Deus. À sua volta, as mulheres sorriam,

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O Mistério
Literatura
Filipe Nunes Vicente

O Mistério

Ao fim de trinta anos desta vida (psicólogo, terapeuta, demiurgo, bruxo, lançador de búzios) ainda me espanto. Como é que as relações sobrevivem? Sabemos por que começam: obrigação, necessidade, tempo livre, casas pequenas. Como raio se prolongam? Não faço caso das terapias conjugais salvo para evitar assassínios ou fogo posto. O conceito de tratar casais, portanto casamentos ou relações, é exótico. Lembro-me sempre das pessoas que querem um cão e depois vão para uma escola

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Fernando Pessoa e África: Colonialismo, Escravatura e Racismo <sup>[1]</sup>
Filosofia e História
Diogo Ramada Curto

Fernando Pessoa e África: Colonialismo, Escravatura e Racismo [1]

À margem das biografias de Fernando Pessoa, há que considerar a inovadora fotobiografia de Maria José Lancastre (1981) e o livro intitulado 33+9 leituras plásticas de Fernando Pessoa (1988) de Alfredo Margarido. Ao exemplar que me ofereceu, este último juntou uma aguarela intitulada “Pessoa e o fantasma sul-africano”. Por razões relacionadas com a estima intelectual e amizade que sempre tive pelo autor, essa imagem não só me emociona como encontro nela formulado um problema pertinente,

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Fragmentos do Diário de Rui Teixeira #2
Literatura
João Berhan

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira #2

* Hoje pus a tocar um disco. Já se estava a estragar fora do frigorífico mas ainda cheirava bem. Gosto muito de música; há inclusive uma pessoa que quando me fala me considera um melómano de um certo ponto de vista. Há dias, no trabalho, do outro lado do open space, ouvi a Luísa perguntar o que era aquele som que ainda não tinha parado de tocar desde a manhã, e eu saltei da cadeira,

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Simpatia Inacabada #2
Literatura
Alda Rodrigues

Simpatia Inacabada #2

MONSTERAS NA BIBLIOTECA Um dos meus parágrafos preferidos de Walden, talvez o preferido, é este, na secção “Economia”:  “Há muito tempo perdi um cão de caça, um cavalo baio e uma rola; procuro-os até hoje. Falei com muitos viajantes sobre eles, descrevendo os seus percursos habituais e os chamamentos a que respondiam. Um ou dois tinham ouvido o cão, o galope do cavalo e até visto a rola desaparecer atrás de uma nuvem, parecendo tão

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Senhor Doutor Couto
Artes Performativas
Ricardo Alves

Senhor Doutor Couto

Escritório do Senhor Doutor. O Senhor Doutor Couto come uma banana. Entra Asdruval a correr.    Asdruval – Doutor, Doutor, Doutor Couto dá licença?  Dr.Couto – Ah é você Asdruval! Entre, entre. Estava precisamente a pensar em si. Asdruval parando de correr – Ai é? Doutor Couto, mas eu não fiz nada de errado! Dr.Couto – Não, Asdruval claro que não. Eu também não penso só nos meus trabalhadores quando eles fazem alguma coisa errada.

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Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira

As coisas mais aborrecidas

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez

O folhetim Alberto Manguel

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e

Weimar #3

Weimar #3

POLÍCIA DA MORALIDADE – SALVAR A DEMOCRACIA – DIREITOS HUMANOS – OBSERVATÓRIO DO ÓDIO – PANTEÃO   POLÍCIA DA MORALIDADE  O dia em que se extinguiu a Polícia da Moralidade foi um dia bonito. Na rua, homens de negro, em grupos pequenos, abandonavam as pistolas no chão, o chicote, vários

O Mistério

O Mistério

Ao fim de trinta anos desta vida (psicólogo, terapeuta, demiurgo, bruxo, lançador de búzios) ainda me espanto. Como é que as relações sobrevivem? Sabemos por que começam: obrigação, necessidade, tempo livre, casas pequenas. Como raio se prolongam? Não faço caso das terapias conjugais salvo para evitar assassínios ou fogo posto.

Fernando Pessoa e África: Colonialismo, Escravatura e Racismo <sup>[1]</sup>

Fernando Pessoa e África: Colonialismo, Escravatura e Racismo [1]

À margem das biografias de Fernando Pessoa, há que considerar a inovadora fotobiografia de Maria José Lancastre (1981) e o livro intitulado 33+9 leituras plásticas de Fernando Pessoa (1988) de Alfredo Margarido. Ao exemplar que me ofereceu, este último juntou uma aguarela intitulada “Pessoa e o fantasma sul-africano”. Por razões

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira #2

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira #2

* Hoje pus a tocar um disco. Já se estava a estragar fora do frigorífico mas ainda cheirava bem. Gosto muito de música; há inclusive uma pessoa que quando me fala me considera um melómano de um certo ponto de vista. Há dias, no trabalho, do outro lado do open

Simpatia Inacabada #2

Simpatia Inacabada #2

MONSTERAS NA BIBLIOTECA Um dos meus parágrafos preferidos de Walden, talvez o preferido, é este, na secção “Economia”:  “Há muito tempo perdi um cão de caça, um cavalo baio e uma rola; procuro-os até hoje. Falei com muitos viajantes sobre eles, descrevendo os seus percursos habituais e os chamamentos a

Senhor Doutor Couto

Senhor Doutor Couto

Escritório do Senhor Doutor. O Senhor Doutor Couto come uma banana. Entra Asdruval a correr.    Asdruval – Doutor, Doutor, Doutor Couto dá licença?  Dr.Couto – Ah é você Asdruval! Entre, entre. Estava precisamente a pensar em si. Asdruval parando de correr – Ai é? Doutor Couto, mas eu não