Literatura

Wittgenstein em Alcochette
Literatura
Abel Barros Baptista

Wittgenstein em Alcochette

Não é raro o uso de alegorias fantasiosas para dar inteligibilidade a certos hábitos linguísticos; a origem da perturbação desses hábitos não se explica de outro modo. Nada me autoriza a reclamar a verdade desta proposição; sei que é verdadeira porque aprendi assim. Eis ali o homem com desgosto de amor agravado pela propensão alcoólica: passa as noites nos bares, cotovelos fincados no balcão, a beber e a lastimar-se até o expulsarem; entra no táxi,

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Princípios de genealogia
Literatura
Francisco José Viegas

Princípios de genealogia

Explica-se a coisa com alguma facilidade. Há um problema geracional contra o qual não há nada a fazer. O Dr. A foi guitarra-baixo (uma Fender vermelha) numa banda de garagem que animava bailes nos arredores de S. João do Estoril. Era primo de C, que frequentava um grupo de Belém onde se reuniam D, B, E e F. Bom: F era uma estudante de germânicas, irmã de G, baterista da banda. O que aconteceu foi isto: entre

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Os Enamoramentos
Artes Visuais
Lia Ferreira

Os Enamoramentos

Enamoramientos I, estudo sobre Los Enamoramientos, de Javier Marías, ilustração digital de Lia Ferreira, 2023 Leitura ilustrada do livro Los Enamoramientos, de Javier Marías, 2011. Ouvi esta obra em audiolivro, na língua original, estando disponível a edição (escrita) em português, pela editora Alfaguara, com o título de Os Enamoramentos. Enamoramientos II, estudo sobre Los Enamoramientos, de Javier Marías, ilustração digital de Lia Ferreira, 2023 ___ Esta série de “Leituras Ilustradas”, em que me proponho ilustrar

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Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)
Artes Visuais
José Ferreira Fernandes

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Eu tinha 50 anos quando chegaram os telemóveis. Demasiado tarde. É certo, além de telecomunicar, eles vinham com uma fantástica rede de informações e passei a ir menos ao arquivo do jornal para saber como escrever: Khrushchev ou Khrushchov, Yeltsin ou Iéltsin? Vantagem que não era grande coisa porque naquela altura o senhor da Rússia passou a chamar-se Putin, perpétuo de cargo e nome fácil de memorizar. É certo também, sendo aparelho sem fio, que

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Crónica
Literatura
Inês Brasão

Crónica

Quando eu andava na escola primária, subia a Rua Arquiteto Paulino Montez e despedia-me da Cláudia um pouco antes de chegar a casa. Não éramos bem vizinhas, porta a porta, mas quase. A Cláudia era irmã do Albertino e de mais três irmãs.  A casa era de esquina e tinha um pátio gigante. Naqueles tempos, era um pátio gigante, mas há dias passei por ele e pareceu-me minúsculo. O Albertino, seu irmão, fez-se Beto. Assim

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Fragmentos do diário de Rui Teixeira III
Literatura
João Berhan

Fragmentos do diário de Rui Teixeira III

Acabei por desenvolver com o namorado da Luísa uma relação interessante no plano da tépida cumplicidade de género depois de ele ter ficado para almoçar no dia em que me veio visitar com o intuito inaugural de me desfazer o trombil, ainda estou para descobrir se real ou figurativamente, por motivos que se prendiam, grosso modo, com o desconhecimento das minhas verdadeiras intenções para com a sua namorada, motivos que prontamente debelei apresentando-lhe a minha

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Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu
Literatura
Filipe Nunes Vicente

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Figura incontornável da pós-modernização portuguesa. Lisboeta de pouso, nascida no Ribatejo (Santarém, 1961) e em berço fidalgo, cedo arregaçou as mangas. Foi para Londres estudar arte de rua e de instalação com apenas dezoito anos.  Ungida desde cedo com preocupações sociais, recusou candidatar-se a bolsa ou sequer receber ordenado. Numa entrevista à revista K, conduzida por Rui Zink (1991), explicou: ”Com tantos desempregados e imigrantes, não creio ter o direito de roubar o pão a quem dele precisa” (as citações

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És Um Jardim Fechado, Minha Irmã E Minha Esposa, Um Jardim Fechado, Uma Fonte Selada.*
Artes Visuais
João Amaro

És Um Jardim Fechado, Minha Irmã E Minha Esposa, Um Jardim Fechado, Uma Fonte Selada.*

O jardim não é, pois, a pequena forma de paisagem, ele tem o seu esquema simbólico próprio. Na perspectiva do otium, ele não é a redução, à escala humana, da generosa Natureza, não mais do que uma metábole ou sinédoque pela qual ela se apresentaria. Muito pelo contrário, é através de uma separação dela que ele se constitui – e quase em sentido oposto. Anne Cauquelin, A Invenção da Paisagem    Aderimos à tese de

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Aventuras da Bélinha e do cão preto
Artes Performativas
Álvaro Domingues

Aventuras da Bélinha e do cão preto

Personagens: um cão de guarda e uma voz humana Época e lugar: lugar sagrado embutido num muro   Cão (momentaneamente sentado por cima das Alminhas): O mundo é um aborrecimento. Quase ninguém passa por este lugar. Contam-me os antepassados que houve tempo em que havia missa todos os dias naquela capela e terço ao fim da tarde; tocava a sineta e quando calhava havia festa e procissão. À vista do nicho aqui por baixo, toda

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Weimar #6
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #6

ALTARZINHO – MENTIRA – ANDAR A PÉ – ÓRGÃOS – TRABALHO DIGNO   ALTARZINHO A ideia de um Altarzinho acabou por fazer o seu caminho. Agradava a todos. Longe iam os dias em que o altar era uma nave suspensa num palco imenso, longe iam as plataformas no céu, para sentar os dignitários políticos e espirituais, longe as cascatas povoadas por peixes vermelhos chegados do Japão, longe as bailarinas seminuas, sincronizadas e louras ao som

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Wittgenstein em Alcochette

Wittgenstein em Alcochette

Não é raro o uso de alegorias fantasiosas para dar inteligibilidade a certos hábitos linguísticos; a origem da perturbação desses hábitos não se explica de outro modo. Nada me autoriza a reclamar a verdade desta proposição; sei que é verdadeira porque aprendi assim. Eis ali o homem com desgosto de

Princípios de genealogia

Princípios de genealogia

Explica-se a coisa com alguma facilidade. Há um problema geracional contra o qual não há nada a fazer. O Dr. A foi guitarra-baixo (uma Fender vermelha) numa banda de garagem que animava bailes nos arredores de S. João do Estoril. Era primo de C, que frequentava um grupo de Belém onde se

Os Enamoramentos

Os Enamoramentos

Enamoramientos I, estudo sobre Los Enamoramientos, de Javier Marías, ilustração digital de Lia Ferreira, 2023 Leitura ilustrada do livro Los Enamoramientos, de Javier Marías, 2011. Ouvi esta obra em audiolivro, na língua original, estando disponível a edição (escrita) em português, pela editora Alfaguara, com o título de Os Enamoramentos. Enamoramientos

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Eu tinha 50 anos quando chegaram os telemóveis. Demasiado tarde. É certo, além de telecomunicar, eles vinham com uma fantástica rede de informações e passei a ir menos ao arquivo do jornal para saber como escrever: Khrushchev ou Khrushchov, Yeltsin ou Iéltsin? Vantagem que não era grande coisa porque naquela

Crónica

Crónica

Quando eu andava na escola primária, subia a Rua Arquiteto Paulino Montez e despedia-me da Cláudia um pouco antes de chegar a casa. Não éramos bem vizinhas, porta a porta, mas quase. A Cláudia era irmã do Albertino e de mais três irmãs.  A casa era de esquina e tinha

Fragmentos do diário de Rui Teixeira III

Fragmentos do diário de Rui Teixeira III

Acabei por desenvolver com o namorado da Luísa uma relação interessante no plano da tépida cumplicidade de género depois de ele ter ficado para almoçar no dia em que me veio visitar com o intuito inaugural de me desfazer o trombil, ainda estou para descobrir se real ou figurativamente, por

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Figura incontornável da pós-modernização portuguesa. Lisboeta de pouso, nascida no Ribatejo (Santarém, 1961) e em berço fidalgo, cedo arregaçou as mangas. Foi para Londres estudar arte de rua e de instalação com apenas dezoito anos.  Ungida desde cedo com preocupações sociais, recusou candidatar-se a bolsa ou sequer receber ordenado. Numa entrevista à revista

Aventuras da Bélinha e do cão preto

Aventuras da Bélinha e do cão preto

Personagens: um cão de guarda e uma voz humana Época e lugar: lugar sagrado embutido num muro   Cão (momentaneamente sentado por cima das Alminhas): O mundo é um aborrecimento. Quase ninguém passa por este lugar. Contam-me os antepassados que houve tempo em que havia missa todos os dias naquela

Weimar #6

Weimar #6

ALTARZINHO – MENTIRA – ANDAR A PÉ – ÓRGÃOS – TRABALHO DIGNO   ALTARZINHO A ideia de um Altarzinho acabou por fazer o seu caminho. Agradava a todos. Longe iam os dias em que o altar era uma nave suspensa num palco imenso, longe iam as plataformas no céu, para