Literatura

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira
Literatura
João Berhan

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira

Hoje, para me certificar de que não voltaria a acordar antes do despertador, adiantei o despertador para as quatro e meia da manhã. Às quatro e meia da manhã, como previra, acordei com o despertador, mas não consegui voltar a adormecer depois de o despertador ter tocado. Levantei-me da cama às sete, sete e cogumelos, enfiei os pés nas babuchas e arrastei-me até à cozinha: nada no frigorífico. Tenho de me lembrar de comprar um

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Weimar #1
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #1

PARAÍSO – PROGRESSO – LIBERDADE DE EXPRESSÃO – FUTURO – PUROS   VERDADE  O velho Adão que há em nós continua a fazer das suas. De maçã na boca, tornou-se um dos habitantes mais obscenos do Paraíso, obcecado com a mínima manifestação da juventude feminina. A serpente, Adão apertou-a pelo pescoço e usa a sua pele como cinto ou como um colar, mas só quando sai à noite. O jardim do Paraíso, esse está plano

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Lolita II, ilustração de Lia Ferreira
Artes Visuais
Lia Ferreira

Lo. Lee. Ta

As ilustrações deste artigo, da autoria de Lia Ferreira, foram seleccionadas para Longlist dos World Illustration Awards 2023 Lolita III, ilustração de Lia Ferreira Lolita IV, estudo sobre Lolita, ilustração digital de Lia Ferreira, 2022. Leitura ilustrada do livro Lolita, de Vladimir Nabokov, 1955. O mito de Lolita eu conhecia desde miúda; não sei com que idade, tinha visto o filme de Stanley Kubrick, de 1962, com o mesmo nome. A memória que guardo é

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«Estudo de nu masculino», Desenho académico, grafite com toques brancos (entre 1750 e 1799), Biblioteca Nacional Digital.
Filosofia e História
André Canhoto Costa

Marialvas ou Libertinos?

As guerras culturais e o romance sobre o século XVIII I – O Estado da Arte 1.   A revolta contra a domesticação do género masculino foi uma das obsessões do romantismo. Ao longo do século XX, por razões evidentes, mas pouco exploradas, a esmagadora maioria dos especialistas – historiadores, sociológicos, antropólogos, filósofos – chegaram tarde ao debate sobre os modelos de género. Inebriados por barricadas, disparos de artilharia e discursos revolucionários, deixaram cair no

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A vida agitada na rodela circulatória, de Álvaro Domingues.
Literatura
Álvaro Domingues

A Vida Agitada na Rodela Circulatória

Personagens: 6 perdizes vagamente aparentadas: 3 mais velhas e 3 mais novas Época e lugar: numa semana qualquer, algures no asfalto, numa rotunda próxima de várias autoestradas   Perdiz (acabada de chegar à rotunda com o grupo que ficou um pouco mais para trás): Olha que coincidência virmos todas parar aqui! (virando ligeiramente a cabeça e baixando o pio) Quem são aquelas três aqui à frente? Perdiz (a do grupo da frente com peito avantajado

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Um Negro no País das Loiras
Literatura
João Pedro George

Um Negro no País das Loiras

O meu olhar varreu as estantes. Vi Aquilinos Ribeiro, Vergílios Ferreira, Cardosos Pires, Fernandos Namora, Agustinas Bessa-Luís, Antónios Lobo Antunes… Não sabia por onde começar. Um tipo como eu perde-se num alfarrabista como aquele: uma cave semi-clandestina, escura e húmida, onde é difícil circular, cheia de livros até ao tecto e a todo o comprimento das paredes.  Entrei. O dono da loja, uma criatura com barriga de homem sedentário, estreito em cima e bojudo no

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A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas
Artes Visuais
Joana Sá

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

“Não escrevas sobre actualidades”, tinha-me pedido o Vasco[1], e eu descansei-o, porque nunca tenho opinião formada assim de um dia para o outro. “Se estiveres com bloqueio, podes sempre escrever sobre livros”, o que não me descansou nada, porque há maternidades que não leio. Mas tinha preparado um texto sério, sobre ciência e arte, para ser o meu primeiro aqui na Almanaque, a sério que tinha. Depois pensei em dizer ao Vasco que afinal não

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A Auto-Ficção Irrita-me
Literatura
Ana Bárbara Pedrosa

A Auto-Ficção Irrita-me

Não gosto de auto-ficção. Irrita-me a manipulação descarada, ter de pesar demasiadas coisas em conflito. Até assumo que dê jeito que alguém se ofereça à radiografia, que se alcance uma aparente versão destilada da experiência humana. Quem nunca olhou para outro a querer ler o que tinha dentro que atire uma pedra. Eu, se o fizesse sempre, teria de começar um tiroteio de calhaus. O problema é nunca poder desligar-me do x-acto que limita o

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"nus ou vestidos e com sapatos na mão"
Literatura
Ana Isabel Soares

“nus ou vestidos e com sapatos na mão”

Ia escrever que o primeiro pedaço de Brasil que vi foi (pela janelinha de um avião que não descontinuava a carreira de arranha-céus) o céu de São Paulo – mas é mentira. Não foi nas vizinhanças do Frei Caneca, suores frios no corpo e o meu desprezo pelos avisos de um amigo, que aquele bairro era perigoso, que me mudasse para zona menos off da cidade (que off!, foi amores à primeira vista), como se

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Dois Contos (I)
Literatura
Telmo Rodrigues

Dois Contos (I)

Construído por um conjunto de entradas de diário, o conto «I Can’t Breathe» (1929), de Ring Lardner, descreve os dias que uma rapariga de dezoito anos passa numa estância de férias com os tios, idosos «com pelo menos 35 anos, talvez até mais», e onde se entretém a jogar golfe, durante o dia, e a dançar, à noite, no salão de baile animado por uma orquestra. Obrigada a viajar com os tios por os pais

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Fragmentos do Diário de Rui Teixeira

Fragmentos do Diário de Rui Teixeira

Hoje, para me certificar de que não voltaria a acordar antes do despertador, adiantei o despertador para as quatro e meia da manhã. Às quatro e meia da manhã, como previra, acordei com o despertador, mas não consegui voltar a adormecer depois de o despertador ter tocado. Levantei-me da cama

Weimar #1

Weimar #1

PARAÍSO – PROGRESSO – LIBERDADE DE EXPRESSÃO – FUTURO – PUROS   VERDADE  O velho Adão que há em nós continua a fazer das suas. De maçã na boca, tornou-se um dos habitantes mais obscenos do Paraíso, obcecado com a mínima manifestação da juventude feminina. A serpente, Adão apertou-a pelo

Lolita II, ilustração de Lia Ferreira

Lo. Lee. Ta

As ilustrações deste artigo, da autoria de Lia Ferreira, foram seleccionadas para Longlist dos World Illustration Awards 2023 Lolita III, ilustração de Lia Ferreira Lolita IV, estudo sobre Lolita, ilustração digital de Lia Ferreira, 2022. Leitura ilustrada do livro Lolita, de Vladimir Nabokov, 1955. O mito de Lolita eu conhecia

«Estudo de nu masculino», Desenho académico, grafite com toques brancos (entre 1750 e 1799), Biblioteca Nacional Digital.

Marialvas ou Libertinos?

As guerras culturais e o romance sobre o século XVIII I – O Estado da Arte 1.   A revolta contra a domesticação do género masculino foi uma das obsessões do romantismo. Ao longo do século XX, por razões evidentes, mas pouco exploradas, a esmagadora maioria dos especialistas – historiadores,

A vida agitada na rodela circulatória, de Álvaro Domingues.

A Vida Agitada na Rodela Circulatória

Personagens: 6 perdizes vagamente aparentadas: 3 mais velhas e 3 mais novas Época e lugar: numa semana qualquer, algures no asfalto, numa rotunda próxima de várias autoestradas   Perdiz (acabada de chegar à rotunda com o grupo que ficou um pouco mais para trás): Olha que coincidência virmos todas parar

Um Negro no País das Loiras

Um Negro no País das Loiras

O meu olhar varreu as estantes. Vi Aquilinos Ribeiro, Vergílios Ferreira, Cardosos Pires, Fernandos Namora, Agustinas Bessa-Luís, Antónios Lobo Antunes… Não sabia por onde começar. Um tipo como eu perde-se num alfarrabista como aquele: uma cave semi-clandestina, escura e húmida, onde é difícil circular, cheia de livros até ao tecto

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

“Não escrevas sobre actualidades”, tinha-me pedido o Vasco[1], e eu descansei-o, porque nunca tenho opinião formada assim de um dia para o outro. “Se estiveres com bloqueio, podes sempre escrever sobre livros”, o que não me descansou nada, porque há maternidades que não leio. Mas tinha preparado um texto sério,

A Auto-Ficção Irrita-me

A Auto-Ficção Irrita-me

Não gosto de auto-ficção. Irrita-me a manipulação descarada, ter de pesar demasiadas coisas em conflito. Até assumo que dê jeito que alguém se ofereça à radiografia, que se alcance uma aparente versão destilada da experiência humana. Quem nunca olhou para outro a querer ler o que tinha dentro que atire

"nus ou vestidos e com sapatos na mão"

“nus ou vestidos e com sapatos na mão”

Ia escrever que o primeiro pedaço de Brasil que vi foi (pela janelinha de um avião que não descontinuava a carreira de arranha-céus) o céu de São Paulo – mas é mentira. Não foi nas vizinhanças do Frei Caneca, suores frios no corpo e o meu desprezo pelos avisos de

Dois Contos (I)

Dois Contos (I)

Construído por um conjunto de entradas de diário, o conto «I Can’t Breathe» (1929), de Ring Lardner, descreve os dias que uma rapariga de dezoito anos passa numa estância de férias com os tios, idosos «com pelo menos 35 anos, talvez até mais», e onde se entretém a jogar golfe,