Sociedade

Origamis<br>excerto de espectáculo para ser inserido noutro espectáculo, alternando com outras histórias</br>
Artes Performativas
Ricardo Alves

Origamis
excerto de espectáculo para ser inserido noutro espectáculo, alternando com outras histórias

O grito – primeiro andamento – moderato A  actriz começa subitamente a gritar. É um longo grito. Não é de raiva nem de pânico, é apenas prolongado. Até que se esgote o ar. No fim, inspira longamente e recomeça. A meio do segundo grito, quando parece adivinhar-se já que os nossos ouvidos vão sofrer este tormento por mais algum tempo, a actriz pára. Começa a fazer um novo origami enquanto narra a história. – Esta

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“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”
Cinema e Audiovisual
Ana Isabel Soares

“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

É lugar-comum que o domínio da roupa e dos tecidos seja tema de mulheres. Não está em causa se a realidade o demonstra ou o infirma – é um tópico literário, por exemplo, dos mais antigos e dos que mais perduram. A Penélope da Odisseia tecia a cada dia a sua espera por Ulisses (tecia depois de desmanchar de noite o tecido, estratagema para enganar os pretendentes que aguardavam a notícia da morte do marido

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Teatro Cósmico #3
Artes Performativas
José Maria Vieira Mendes

Teatro Cósmico #3

Identifico-me imenso Na “lição” Plays de Gertrude Stein, em que a escritora americana relata o modo como se foi aproximando e afastando do teatro para finalmente chegar à escrita de peças-paisagem, que parecem não se esgotar, há três ou quatro passagens sobre o verbo “to know” que me divertem muito. Stein descreve um problema de infância com o teatro que expelia familiaridade equiparando conhecer e saber, e que a excluía e angustiava, mas eu lembrei-me

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Weimar #4
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #4

RESSUSCITAR A FERROVIA – SEXUALIDADE – ARCA DE NOÉ – ESTADO  SOCIAL – PRÍNCIPE  ENCANTADO RESSUSCITAR A FERROVIA Desta vez, com alguma surpresa, o Messias ressuscitou a ferrovia. Foi oficial, mais uma vez. Os Messias eram aos montes, há muitos anos. A imprensa verificava os factos cuidadosamente e batia sempre certo: vêm para nos salvar. A verdade era diferente. No caso do Messias da ferrovia, o trabalho era feito por dezenas de milhares de trabalhadores

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Harry Todger e o Príncipe Sobressalente
Cinema e Audiovisual
José Carlos Fernandes

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira acima da lei e cujo entendimento da “ética republicana” é estritamente subordinado ao proveito pessoal, poderá imaginar-se quão nocivo é para o carácter de um

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As coisas mais aborrecidas
Literatura
Filipe Nunes Vicente

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de coleira com GPS. Somos linces ibéricos em extinção, os cientistas sabem sempre de cada passo nosso.   Tenho trabalhado nas contra-medidas, claro. Ter o zingarelho desligado

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Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Artes Performativas
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez pelas mãos de um filme, uma trilogia romântica dos anos noventa, daquelas que nos enchem de esperanças para a vida toda (the right place, the

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Vivos-mortos – até que a vida nos repare?
Sociedade
Paula Cardoso

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Guardo da experiência várias cicatrizes, uma delas perfeitamente palpável. Lembro-me de que andava entretida com o meu primeiro ano de faculdade e que, até me encontrar naquela sala de espera, nunca me tinha passado pela cabeça outro destino que não fosse viver. Quatro anos de licenciatura pela frente, um emprego com algum conforto financeiro a médio prazo, uma relação bem-amada, quatro filhos para superar a matemática da família nuclear, e, enquanto o futuro se construía

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<i>Avatar</i>, história e catarse
Cinema e Audiovisual
Paulo Pinto

Avatar, história e catarse

Conhecem aquelas pessoas que, ao ouvir uma piada, dissecam-na ou divagam a propósito em vez de se rirem? Ou aqueles memes sobre psicólogos, que olham para as reações dos espetadores em vez do écran onde decorre a ação? É mais ou menos o que vou fazer aqui e agora. Em vez de lançar um enorme “uau!” de espanto acerca do grande blockbuster da quadra, Avatar: O Caminho da Água, vou dizer algumas coisas que giram

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O folhetim Alberto Manguel
Literatura
Diogo Ramada Curto

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e mesmo esses carecem de verificação, são os seguintes: nasceu em Buenos Aires, em 1948, passou a infância em Israel e a adolescência na Argentina; quando

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“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

É lugar-comum que o domínio da roupa e dos tecidos seja tema de mulheres. Não está em causa se a realidade o demonstra ou o infirma – é um tópico literário, por exemplo, dos mais antigos e dos que mais perduram. A Penélope da Odisseia tecia a cada dia a

Teatro Cósmico #3

Teatro Cósmico #3

Identifico-me imenso Na “lição” Plays de Gertrude Stein, em que a escritora americana relata o modo como se foi aproximando e afastando do teatro para finalmente chegar à escrita de peças-paisagem, que parecem não se esgotar, há três ou quatro passagens sobre o verbo “to know” que me divertem muito.

Weimar #4

Weimar #4

RESSUSCITAR A FERROVIA – SEXUALIDADE – ARCA DE NOÉ – ESTADO  SOCIAL – PRÍNCIPE  ENCANTADO RESSUSCITAR A FERROVIA Desta vez, com alguma surpresa, o Messias ressuscitou a ferrovia. Foi oficial, mais uma vez. Os Messias eram aos montes, há muitos anos. A imprensa verificava os factos cuidadosamente e batia sempre

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira

As coisas mais aborrecidas

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Guardo da experiência várias cicatrizes, uma delas perfeitamente palpável. Lembro-me de que andava entretida com o meu primeiro ano de faculdade e que, até me encontrar naquela sala de espera, nunca me tinha passado pela cabeça outro destino que não fosse viver. Quatro anos de licenciatura pela frente, um emprego

<i>Avatar</i>, história e catarse

Avatar, história e catarse

Conhecem aquelas pessoas que, ao ouvir uma piada, dissecam-na ou divagam a propósito em vez de se rirem? Ou aqueles memes sobre psicólogos, que olham para as reações dos espetadores em vez do écran onde decorre a ação? É mais ou menos o que vou fazer aqui e agora. Em

O folhetim Alberto Manguel

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e