1. Percorri o solo europeu sobre os carris do interrail, ainda a Chéquia se chamava Checoslováquia. E em 1997, saí do ninho lisboeta para o Erasmus em Paris. Quem podia — a bolsa mal chegava para pagar a renda — erasmava, era parte do ritual de iniciação “devir europeu”. Ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador no património de mundividência e ceticismo. Apresentou-me a ambivalente digestão de uma cidade que se considera o centro do mundo, em conflito com o mundo que nela contesta, fazendo-me suspeitar que era no vigor do mundo ailleurs que eu mais desejaria estar. Numa idade de grandes paixões e rejeições, ingénua mas perspicaz, deu-me a ver o tédio (palavra que muito usávamos nos anos 90) de um certo modo parisiense de existência.
A Casa de Portugal da altura não era das mais bonitas. As do Brasil, México e Alemanha marcavam pontos na arquitetura e nas festas da Cité Universitaire. Tenho ideia de que o porteiro da Casa era alcunhado de Mancha Negra, quando os nomes racistas passavam por “carinhosos”. Posso estar a delirar mas vejo o seu gesto subserviente quando entregava a correspondência aos estudantes de Sciences Po ou Filosofia da Sorbonne. Não havia internet, só o sistema meio chauvinista do Minitel, então o porteiro tornava-nos hóspedes importantes de cada vez que entregava bilhetinhos com a sua letra “fulano tal tentou contactá-la”.
Sendo o quarto duplo mais barato, dividi-o com uma rapariga da província e Bíblia à cabeceira. Era estranho partilhar o sono e os puns com uma desconhecida. Mas foi importante para a consciência de classe perceber o trunfo que, para ela e família, significava estudar em Paris. Por razões financeiras, e para não se desviar do que estava ali a fazer, era raro a moça sair. A única vez que furou o esquema faculdade-residência-de-estudante terá sido para ir à Torre Eiffel. A janela do single room dava para o Périphérique, visão desoladora que contribuiu para ir desistindo de Paris, antes de me entregar à sua teia sedutora. Não me restou senão mudar de quarto quando, uma noite, a colega teve uma fúria em pijama por eu recolher depois das 23h. Uma vez no meu quartinho, com direito a cama, pequena casa de banho, chauffage, quadro de cortiça para espetar postais e uma larga secretária só para mim, senti pela primeira vez aquela solidão confortável e exigente, propícia a nos vermos sem o espelho do outro.
Pela vida fora, não voltaria a ter a room of one ‘s own.
2. A cantina da Cité oferecia zona de grelhados, pizzas e saladas de repolho com molho avinagrado. Terá sido aí que descobri a magia das cantinas, lugares românticos de eremitas urbanos. Entre a sopa pouco quente e a fome de saber, os olhares cruzavam-se em ânsia perscrutadora, enquanto os livros de Nouveau Roman acompanhavam garfadas de lombinho com puré. Conversas de ocasião e acesos debates sobre gramática estruturalista e marxismo não estremeciam a base nem a superestrutura. Já a propriedade privada abrandava à sobremesa. À minha medida, também vivia a Hora da Estrela, de Clarice Lispector. No contexto europeu, Lisboa era província tacanha e periférica, e desejava embrenhar-me na oferta cultural e académica de uma cidade por excelência europeia. O edifício que albergava a cantina e o Théâtre de la Cité (foi através do teatro que fiquei a conhecer a escultura de Giacometti, pelo L’Atelier d’Alberto Giacometti, de Jean Genet), era sumptuoso e fazia-nos crer num livro do Harry Potter avant la lettre. Tentava não falhar às vernissages, porque o espetáculo de quiches e canapés, menos vulgares em Portugal, e pessoas de copo na mão a olhar para arte contemporânea, tocante. A comida, que a todos nos move, ia traduzindo a diversidade. Se em Lisboa era exótica a feijoada à brasileira, em Paris alternava entre kebabs, crepes, doçaria árabe e sabores subsarianos. Uma vez fui às ostras em restaurante art déco de luz amarelada. Já o McDonald’s, a metáfora de todos os inimigos era, às escondidas, o abrigo em conta.
Na cozinha do meu piso da Casa de Portugal, as conversas amenas e acolhedoras teciam cumplicidades. Aprendia receitas de pastas italianas com as companheiras de casa, espirituosas e academicamente ambiciosas, enquanto o esparguete cozia e o molho de tomate apurava. Ensinaram-me a fazer pesto antes de o pinhão inflacionar. Dentro dos frigoríficos de outros corredores, os donos trancavam à chave os iogurtes e o camembert em pequenos cacifos. Mas a nossa cozinha era comunitária e magnética, como as cozinhas devem ser. Na cozinha, partilhávamos informações sobre a cidade, sugestões de leitura, música e filmes, e ingredientes dos nossos breves passados. Na cozinha, encontrávamos o ninho protetor perante a grande cidade, num quotidiano natural de residência de estudantes: aquela hora em que cada uma saía da sua toca para o convívio da cozinha. Por vezes, íamos a Oberkampf, Bastilha ou ao Favela Chic, na rua du Faubourg du Temple. Também apreciava a vida noturna de Pigalle, boates, bares e cabarés (como é que sou do tempo de cabarés?), com turistas sedentos de la vida loca. Nas zonas gay friendly e hetero não-friendly dos bares do Marais, instruí-me do “estar a mais”, que muita gente sente a vida inteira. Abastecidas de pinard e de tabaco nas mercearias árabes, longas esperas ao frio pelo Nocturne Bus, metida num casaco de couro de pele farfalhuda, nada quente. Paris foi também a aprendizagem do Inverno agreste.
3. Vivi um episódio literalmente à filme francês. Um rapaz veio ter comigo após projeção do La Chambre Verte de Truffaut, e afirmou sem pejo:
—Je veux te connaître!
Respondi qualquer coisa como —Pardon mon Français, je suis Portugaise, e ele compreendeu, já que a sua concierge também o era. Aceitei uma promenade e rompemos a grande velocidade na sua mota, atravessando o túnel sob a ponte de l’Alma, onde se cheirava ainda o sangue do fatal acidente da Princesa Diana, Dodi Al-Fayed e do chofer Henri Paul. O escândalo que partira o coração a meio mundo era lugar de culto e de romaria, inclusive de japoneses.
O flirt com o parisiense beto da Place de l’Étoile foi sol de pouca dura. [É capaz de haver abundantes namoros nestas crónicas, desde cedo decidi vingar-me dos séculos de carência e de mau sexo que oprimem as mulheres.] Eu vinha de Lisboa amantizada com um rapaz que tocava hardcore e defendia a causa basca. Tínhamos praticamente acabado no Avante, mas ainda combinámos encontro em Barcelona no início do meu Erasmus. Episódio na Catalunha: uma corrida pelo bairro Gótico afora, porque o rapaz, alcoolizado após um jogo que envolvia a Euskadi, desatou a rebentar lâmpadas no chão ao dar com um contentor cheio delas. Ainda nos encontrámos em Londres. Morar no centro da Europa é de fato um luxo que permite (a alguns) visitar outras cidades de comboio. Afortunados do espaço Schengen! Em Londres, fomos a um club onde o dj era nada menos do que o Boy George. Sem telemóveis a documentar não há prova disso, mas eu, que lá estive, fixei na minha cabeça o ambiente de látex, correntes, jaulas, bondage, laca, disco e pastilhas. Ironicamente, apaixonei-me por um amigo da minha nova amiga antropóloga, de olhos grandes e voz serena que, entre tantas trocas de íntimos cigarros na Casa de Portugal, me introduziu ao Orientalismo. O amigo era um arabista de Leiria que fazia Erasmus na School of Oriental and African Studies, também em Londres. Conquistada pela sabedoria e humor do oeste português, o Canal da Mancha passou a ser semelhante ao trajeto Lisboa—Porto, e eu a uma mulher de negócios. Além de trazer à minha vida textos fundamentais como As Dioptrias de Elisa, de António Gancho, e de me oferecer uma das mais belas cartas de amor, Lettre à D.: histoire d’un amour, d’André Gorz (ou será o Fernanda, de Ernesto Sampaio?), no regresso, o arabista de Leiria ainda me mostrou os segredos profundos da A8 e a vida de aldeia do Bairro Alto.
4. Porém, apesar das cartas, viagens, consumo cultural e, sobretudo, o libertador afastamento dos circuitos fechados de Lisboa, retenho, desse ano em Paris, a solidão feroz na cidade. Estava num lugar sem me sentir totalmente nele, por mais que me esforçasse. Punha em prática a “deriva situacionista”, tentando entender os efeitos do ambiente urbano no meu estado psíquico e emocional. Seguia rotas indefinidas, deixava-me ir ao acaso que levaria a qualquer lado, nunca à surpresa verdadeiramente desejada. Era uma deriva literariamente afável. Enfiava-me em salas de cinema com desconto para estudantes e desempregados; aninhava-me no silêncio quente das bibliotecas; subia o boulevard Saint-Michel sentindo-me minúscula perante os edifícios elegantes, com fachadas de pedra e detalhes em ferro forjado; lambia vestígios rebeldes do decepcionante Quartier Latin; folheava livros de poche ou Bd nos bouquinistes; entrava em catedrais e lojas com cheiro a mofo; arrastava-me por museus que saquearam o mundo inteiro; suspirava em jardins de lagos adormecidos; enganava-me a levantar dinheiro; sentava-me em auditórios apinhados de ouvidos interessados (uma vez para assistir ao seminário de Derrida “Le parjure et le pardon”).
Passava tardes a rabiscar diários no Piano Vache, um pub à l’atmosp, com o conforto de poltronas, onde o Inverno ficava à porta (agora há muitos mas para mim era novidade esse conceito de “bar-casa”, podia ser a casa da Edith Piaf). Submergia no jazz e nas conversas entre les uns et les autres, ruído branco que nos faz sentir serenos e agradecidos pela existência de vida em geral, mesmo sem sentido, enquanto mastigava croque monsieurs. Deixava-me ficar ali longas horas, parada, como que a preparar-me para uma vida infinitamente mais aventureira.
Aquele tempo baço de Paris era o meu motor de arranque.
Eu era uma rapariga de 21 anos a ver o mundo a abrir-se, confuso, com demasiados assuntos a conhecer e demasiadas armadilhas a desmontar. Já o sarcasmo esgrimia os seus golpes de defesa e a dor de crescimento migrava dos ossos que esticam para o desencontro com o cenário. Dividia-me entre o privilégio de viver na cidade onde supostamente se acede a tudo (bom cinema, faculdades estimulantes), e a sensação de boiar num oceano domesticado. Frequentava qualquer tipo de ambiente, e podia snobar de todos, tal diletante a gastar cupões de experiências da Odisseia, fartando-se só porque sim. Um gesto insolente e quase extemporâneo de não engolir a colher da sopa europeia, sabendo das ambições e das vias arriscadas para se chegar à Europa. Uma crítica ingrata às ferramentas que nos facilitam a vida, dizendo que nos afastam da Vida sem explicar exatamente que vida é essa que se recusa ou que tanto se busca.
5. Dava preguiça atravessar a cidade colossal, para chegar à faculdade na banlieue norte. As raras vezes em que não faltava às aulas, seguia sonolenta no RER até à Gare du Nord, observava as caras gastas dos trabalhadores em infelizes boulots que dirimem a vivacidade humana. Na linha de metro para Saint-Denis, zona onde tantos emigrantes portugueses assentaram bidonvilles, escutava detalhes sobre as turbulências da noite passada entre flics e magrebinodescendentes, que as contavam com aquela raiva do filme La Haine, do Kassovitz. Ia apanhando o calão da periferia, mas, fechada numa certa timidez e preguiça, baldava-me às apresentações orais para não ter de expor o meu francês suficiente.
No entanto, a Faculdade Paris 8 efervescia de ideias e coletivos. Eu estava habituada à esplanada amarela da Nova, onde se convivia entre ganzas e galhardetes mais ou menos partidários ou tribalistas. Na Faculdade de Paris sentava-me nas assembleias de estudantes, de sindicatos, de coletivos de imigrantes ou em sessões de cinema experimental, e admirava, com a devida distância, aqueles jovens-adultos, cheios de certezas e de convicções. Frequentei aulas de feminismo de segunda vaga com discípulas da Hélène Cixous, um seminário sobre revoluções da América Latina, história da Rússia e, entre colegas lusodescendentes, literatura africana com Michel Laban (só mais tarde relacionei o professor com o senhor das entrevistas a tantos escritores africanos). O nome de Ricoeur estava inscrito na porta de um gabinete e sentia-se a indelével presença de Deleuze, dos situacionistas e de muitos soixantes-huitards. A Faculdade de Paris 8 fora criada precisamente contra aquilo que acontece hoje no mundo académico. A Universidade seria uma verdadeira promessa (e prática) que não atentava contra o espírito, não formava recursos humanos mas sim cabeças para pensar e agir, jamais uma fábrica de funcionários ao serviço do capital. Ali, era possível escolher as cadeiras, montar currículos, debater pedagogias e critérios de avaliação. Tentava-se quebrar a educação para a obediência e a obsoleta coreografia de uma pessoa falar para plateia muda, aniquilar os compadrios ou a alienação académica do mundo real.
6. Que se lixe a culpa da petite-bourgeoise, para algo a experiência de Paris havia de servir nem que fosse apenas para expandir imaginários. Fui sozinha a um concerto dos Portishead no La Villette, e a melancolia na voz de Beth Gibbons fortaleceu a sensação de flâneuse que deambula e se embriaga com a multidão. Prezava a minha coleção de momentos, a apurar a compaixão para os desconhecidos, anjo de As Asas do Desejo, acolhendo a voz interior dos transeuntes. As despesas enumeradas pela mulher de kispo vermelho e gorro na mão; o som das botas militares dos polícias à caça do imigrante e dos sans-papiers; o olhar amedrontado de quem vai ser alvo da rusga; a agradável recordação de campismo no rapaz que segura as alças da mochila; os dedos nervosos e as madeixas de cabeleireiro caro de uma madame em véspera de ser operada; a relação amorosa destruída a encolher o ar dos pulmões de uma rapariga que fuma à varanda.
O som de uma pasta a pousar na plataforma do metro, para logo o operário se lançar aos carris, sendo de seguida esmagado pela carruagem. Deste consegui ouvir-lhe a última prece, um relâmpago misturado com o chiar das rodas metálicas. Seguiu-se aquele baf de ennui pelo atraso motivado por mais um suicídio naquela linha.
Nada de novo na cidade das flores do mal. Engolida no turbilhão de caras ingratamente novas, na violência latente e no excesso da cidade, desmaiei nos braços de um desconhecido. Hora de ponta do metro sentido sul e o cavalheiro seguiu caminho comigo delicadamente ao colo, sem um abanão sequer para saber em que estação me depositar.
7. A grande lição da estadia na Paris das luzes não foi nem estudos, nem romances, nem cultura, mas sim política. O mundo reivindicativo e politizado abria-se para lá da minha Lisboa do Gingão e das lutas contra a PGA. Comovia-me a escutar os acordes e vozes convictos na Internacionale na mesma medida em que desprezava a obediência cobardolas do bom imigrante português. Uma vez visitei o pai de uma conhecida na banlieue sul: o homem criticava as canalhices políticas em Portugal enquanto elogiava os impostos franceses e a sua qualidade de vida, apesar da casa minúscula e do trabalho de merda. No quotidiano da cidade ecoavam lutas de outras partes do mundo. Observava as danças reivindicativas do povo curdo à porta do Les Halles (e os breakdancers que aí faziam palco), as manifestações pró-Palestina a toda a hora, o compromisso intelectual do Institut du Monde Arabe, as homenagens à Resistência nas sinaléticas da cidade.
Lembro-me de apresentar, com um amigo cientista musical, uma sessão sobre o 25 de Abril na presença de Daniel Bensaïd. As reuniões trotskistas eram na cave de uma livraria, onde reconheci alguma inspiração para os cartazes do PSR cá.
Vi-me numa manifestação de desempregados que exigiam um subsídio que seria já duas vezes o nosso salário mínimo. Para mostrar a sua capacidade de persuasão, os chômeurs invadiram a Bourse de Commerce e atiraram veementemente o recheio da instituição pela janela. Voavam computadores, dossiês, secretárias, cadeiras, extintores, folhas e folhas, processos e mais processos até se estatelarem no chão. Depois de amontoado o material de escritório, atearam um grande fogo à burocracia. Apesar da imensa atração por tal fogueira, o gás lacrimogéneo da polícia veio logo dispersar a turba que, assim que podia, voltava à carga, estendendo-se o confronto pela noite fora. Provavelmente faziam aquilo todas as semanas. Era admirável testemunhar a força implacável da luta coletiva. A persistência e a garra contestatária, firme, de barreiras bem vincadas, davam-me algum alento.
8. Viver em Paris trouxe-me uma certa repulsa às cidades competentes e à sua superioridade moral. Cidades que, no virar do século, gentrificaram e vomitaram os seus dejetos, tornando-se cada vez mais securitárias, normalizando o medo e a desconfiança no passo apressado das avenidas retilíneas. Sabendo de onde vimos e para onde vamos, iludidos em escolhas num universo degradante de consumo. Apanhar metro, mudar de linha, descer escadas, ver isto, fazer aquilo, encontrar determinada pessoa, cumprir tarefas, afirmar-se nem que seja através de um smartphone ou de um cartão de crédito, desenhar um círculo com círculos dentro, de recursos e de abastecimento, numa checklist permanente. Executores de ofícios mais ou menos materiais, turistas, transportes, museus e monumentos, animadores de rua, professores, bancários, cantores de fanfarra, homens-estátua, dançarinos de tango, caixas de supermercado, pintores de calçada e caricaturas, punks flautistas, serviços educativos, seguranças entediados, prostitutas entediadas, yuppies entediados que engolem sandes no jardim do Luxemburgo, leitores de jornais entediados na esplanada, que engolem croissants enquanto as opiniões se formam nas suas cabeças.
Nas regras de jogo que potenciam falsas singularidades, há a conversação ininterrupta nas cidades. Às vezes só apetece pedir por favor para ouvir o silêncio que paira sobre as coisas comoventes.
Sou, no entanto, um player de tudo isto, uma veemente consumidora cultural, um espécime de esquerda caviar, mais uma blasée entediada com os confortos do mundo ocidental, que fala de barriga cheia e do alto do seu privilégio. Que ousa duvidar dos pomposos ideais da Europa, de “paz, superação da política de potência”, “solidariedade com os que, na Europa e fora dela, sofrem com a guerra, a miséria, a opressão”. Foi o Vitor Hugo a escrever, quem sou eu para pôr em causa?
9. Na adolescência, Paris foi o primeiro destino europeu (tirando as esticadas por Espanha) com os meus pais e irmão. Acho que cheguei a sentar-me na campa do Jim Morrison, no Père Lachaise, a ouvir o “Riders on the Storm” no walkman. Que figurinha! Entre o Louvre, o Pompidou e o Museu da Tortura que visitámos nessa primeira vez, encontro a melhor síntese sobre a sofisticação da cidade.
Mal a minha filha deixou de mamar, foi igualmente o primeiro destino para onde fui sozinha. Sentia-me outra pessoa porque agora era Mãe e tinha colada à pele a certeza (tão aterrorizadora como maravilhosa) de alguém depender tanto de mim. Exatamente 20 anos volvidos, mil vidas pelo meio, e ainda me encontrava na tal deriva existencial de recém-universitária. Reconheci os beijos dos estudantes sentados ao sol no Jardin du Monde, assim como a sensação de enjoo ao apanhar o RER na Cité Universitaire. Reparei nos cartazes pichados das eleições Macron / Le Pen 2017. Desde o atentado no Bataclan, a formação de autodefesa tornara-se frequente em quase todas as escolas. A população escolar expandiu a diversidade das proveniências e de histórias para contar. Os artistas do sul global bem promovidos e elogiados, assim como a boa cozinha libanesa. O Badiou elogiava o amor enquanto confiança aleatória, que contraria o nosso mundo afunilado de interesses. Manifestações na velha equação coquetéis molotov versus gás lacrimogéneo, tudo no lugar.
No ano passado, passei uma luminosa semana em Paris, a trabalhar com um ator sobre as suas memórias cruzadas entre Moçambique, Portugal e Paris. A cidade saía do buraco da parte mais dura pandemia, havia novos dados na configuração social, tensa e controlada, desafiante e, de novo, entediante. O Hemingway escreveu qualquer coisa sobre que, quem teve a sorte de viver jovem em Paris, seria acompanhado pela vida fora por essa lembrança, essa festa. Talvez este texto não esteja longe dessa constatação, mas menos festiva.




