Numa entrevista a propósito da edição de um disco, Maria Reis afirmava: «Se tu entras na minha vida […] vais estar numa canção», depois de ter assumido que «[t]oda a história da música é isto». Há muitas maneiras de descrever canções e uma das mais originais talvez seja dizer que são «resquícios», como o faz na canção com o mesmo nome em Chove na Sala, Água nos Olhos (2019). A canção acaba com os versos: «Eu sei eu sei sou louca por pensar / Que a nossa história não acaba sem resquício», implicando que uma relação nunca está de facto terminada e que dela sobra sempre algo. Que esse algo possa ser uma canção parece estranho, mesmo que se esteja a insinuar que as canções possam ser apontamentos biográficos, visto ser de esperar que o produto de uma actividade artística seja um objecto completo e autónomo e não somente uma sobra.
No final de «Soror Mariana», Reis parece retomar a questão, cantando: «Lembra-te das coisas que escrevi / Ouve-me a cantar eu oiço-te a ti». O que está implícito nestes versos já não é apenas um resquício de uma relação, mas que uma pessoa só existe através da voz de quem canta. Aqui, a palavra resquício já parece fraca. Essa debilidade é reforçada pela dissociação entre a escrita — que deve ser lembrada — e a voz — pela qual a outra pessoa existe. Este movimento exige tudo a quem escreve e canta, tornando a existência da outra pessoa irrelevante e eliminando, portanto, a pertinência biográfica. Tudo o que é necessário para que esta pessoa de quem se fala exista é ouvir uma canção; identificar um ponto fora da canção que lhe dê sentido é fútil.
A consequência evidente segue-se na canção «Um Ai!», em que a autora pergunta: «Ahhh o que é que eu sou?». A única resposta possível para quem pensa a escrita de canções como Reis é dizer que não passa de «um ai», uma interjeição, literalmente um som: até à produção desse som, não tem existência. Esta canção, e a descrição que faz de si, resulta aliás de um movimento interior descrito nos primeiros versos: «quis olhar pra cá / cá pra dentro e ver / há quem diga que é melhor esquecer do que sentir». Esquecer, neste contexto, equivale a não escrever; por outro lado, sentir não é apenas um acto passageiro, mas uma espécie de acto de exposição contínua, visto que se sente pela canção e é da natureza da canção, quer seja gravada quer seja tocada ao vivo, ser pública e continuamente repetida. Será por isso que, na mesma entrevista, Reis afirma: «No fundo, sinto que a minha motivação para fazer música é a mesma. […] É o lugar onde me sinto mais bonita, mais confiante, mais eu, com tudo o que faz parte do processo: ficar horas a tocar guitarra, escrever um tema, deixá-lo a marinar, duvidar, seguir em frente e no final saber que é uma coisa que deixa de ser só minha.»
Ao propor que alguém existe pela sua voz, como explicado a propósito de «Soror Mariana», é natural que a frustração de escrever canções que não sejam boas se expresse na repetição do verso «a melhor versão de ti», como o faz em «Desaparece» (Benefício da Dúvida, 2022); neste caso, por a pessoa de quem se fala numa canção ser irrelevante, a melhor versão de alguém estará apenas dependente da arte de quem cria e dos limites criativos do artista. Há por isso legitimidade em pensar que, na mesma canção, quando canta: «Dеsperdiçaste tantas horas / Na mesma pеssoa / Tranquiliza pensa só em quem queres ser», não esteja a falar de outra coisa que não seja do tempo que levou a escrever a canção. Isto torna o verso «pensa só em quem queres ser» num momento mais complexo: o que dita a forma da canção não é a outra pessoa, mas quem a autora pretende ser. Ao escrever uma canção, Reis está a pensar em quem ela é, não na natureza da pessoa que é o tema da canção; não está, portanto, a fazer mais do que a escrever a sua própria biografia: o que está para lá das canções — a vida quotidiana — é que deixa resquícios nesta biografia. Se assim for, quando afirma que ao cantar ouve outra pessoa, o que de facto ouve é uma projecção de si própria. E talvez o melhor elogio que se possa fazer a certo tipo de poetas seja precisamente o de que estão a falar sozinhos; o elogio da loucura e da solidão são praxe noutros cânticos negros.




