Nº 3 – Janeiro 2023

A tomada de posse do Exmo. <i>Sr</i>.
Cinema e Audiovisual
Afonso Madeira Alves

A tomada de posse do Exmo. Sr.

Entre a obra queirosiana que o plano nacional de leitura nos dispensa de tresler, esconde-se Alves & C.ª, um curto romance de José Maria de Eça de Queiroz, editado e publicado em 1925 por José Maria de Eça de Queiroz, vinte e cinco anos depois da morte de José Maria de Eça de Queiroz. A igualdade antroponímica da frase anterior, uma jiga-joga capaz de ludibriar o maior dos atilados, é facilmente desconstruída se auxiliada pelos

Ler »
Aprendo depressa a chamar-te de realidade. Carta de São Paulo
Boa Vida
Marta Lança

Aprendo depressa a chamar-te de realidade. Carta de São Paulo

Em 2017 passei uma temporada em São Paulo, 20 anos após ter vivido em Paris, um ano e pouco antes do desastre Bolsonaro, entre o impeachment da Dilma e o golpe baixo do Lula preso. Escrevia-se e gritava-se muito “Fora Temer”, o ambiente era politicamente sinistro, não imaginava que podia piorar tanto.  1. Troca de casas entre amigas, apartamento em espelho Penha de França vs. Santa Cecília, com quarto e brinquedos para criança e livros

Ler »
A monótona vida de Uóchinton Maria, a quem chamavam o Homem Porco
Literatura
Afonso de Melo

A monótona vida de Uóchinton Maria, a quem chamavam o Homem Porco

«Ergo-me ante o Sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós…» Álvaro de Campos   1. Décimo segundo filho de uma numerosa prole de dezoito rapazes, não se pode dizer que Uóchinton Maria fosse um menino feliz. Desde cedo lhe foi detectada uma tendência indómita para a contemplação. Os olhos grandes, esbugalhados, fixavam-se facilmente em qualquer objecto, por mais desinteressante que fosse. O Dr. Aníbal Chimbica, do lugar de Oronhe, freguesia

Ler »
Simpatia inacabada #3
Artes Visuais
Alda Rodrigues

Simpatia inacabada #3

Apanhar amoras Eu tencionava escrever uma crónica sofisticadíssima, dos pontos de vista literário, filosófico e lexical, mas ocorreu-me que será a primeira Simpatia Inacabada de 2023 e, no início do ano, prefiro dar um passeio. Depois de uma tempestade ou de um ano passar, como um comboio de alta velocidade, deixa incongruências e sinais que parecem dotados de uma história ou de um significado próprios, a que não temos acesso. O mundo está cheio de

Ler »
Marialvas ou Libertinos?
Cinema e Audiovisual
Marco António

The Coming Storm

Quando soube da notícia de uma ação policial na Alemanha que levou à detenção de 25 pessoas, o meu “sexto sentido” aprumou-se. Por várias razões. Uma, porque nasci na Alemanha, tenho pelo país um carinho muito especial — mesmo sendo português, identifico-me como “um bocadinho alemão” — e, por isso, notícias marcantes vindas de lá captam sempre a minha atenção. Outra, porque a notícia dava conta de que os detidos faziam parte de um grupo

Ler »
Origamis<br>excerto de espectáculo para ser inserido noutro espectáculo, alternando com outras histórias</br>
Artes Performativas
Ricardo Alves

Origamis
excerto de espectáculo para ser inserido noutro espectáculo, alternando com outras histórias

O grito – primeiro andamento – moderato A  actriz começa subitamente a gritar. É um longo grito. Não é de raiva nem de pânico, é apenas prolongado. Até que se esgote o ar. No fim, inspira longamente e recomeça. A meio do segundo grito, quando parece adivinhar-se já que os nossos ouvidos vão sofrer este tormento por mais algum tempo, a actriz pára. Começa a fazer um novo origami enquanto narra a história. – Esta

Ler »
“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”
Cinema e Audiovisual
Ana Isabel Soares

“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

É lugar-comum que o domínio da roupa e dos tecidos seja tema de mulheres. Não está em causa se a realidade o demonstra ou o infirma – é um tópico literário, por exemplo, dos mais antigos e dos que mais perduram. A Penélope da Odisseia tecia a cada dia a sua espera por Ulisses (tecia depois de desmanchar de noite o tecido, estratagema para enganar os pretendentes que aguardavam a notícia da morte do marido

Ler »
Teatro Cósmico #3
Artes Performativas
José Maria Vieira Mendes

Teatro Cósmico #3

Identifico-me imenso Na “lição” Plays de Gertrude Stein, em que a escritora americana relata o modo como se foi aproximando e afastando do teatro para finalmente chegar à escrita de peças-paisagem, que parecem não se esgotar, há três ou quatro passagens sobre o verbo “to know” que me divertem muito. Stein descreve um problema de infância com o teatro que expelia familiaridade equiparando conhecer e saber, e que a excluía e angustiava, mas eu lembrei-me

Ler »
Uma coisa não é só uma coisa
Ciências
Joana Lobo Antunes

Uma coisa não é só uma coisa

Há factos que hoje tomamos como certos, como sabermos que é a Terra que anda à volta do Sol, que as espécies têm evoluído ao longo do tempo e de acordo com os seus habitats, e que não há geração espontânea de vida. Sabemos também, sem qualquer sombra de dúvida, que só há um novo organismo porque havia um preexistente e não por um qualquer sopro miraculoso. Mas nem sempre foi assim. Durante séculos, a

Ler »
Weimar #4
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #4

RESSUSCITAR A FERROVIA – SEXUALIDADE – ARCA DE NOÉ – ESTADO  SOCIAL – PRÍNCIPE  ENCANTADO RESSUSCITAR A FERROVIA Desta vez, com alguma surpresa, o Messias ressuscitou a ferrovia. Foi oficial, mais uma vez. Os Messias eram aos montes, há muitos anos. A imprensa verificava os factos cuidadosamente e batia sempre certo: vêm para nos salvar. A verdade era diferente. No caso do Messias da ferrovia, o trabalho era feito por dezenas de milhares de trabalhadores

Ler »
A tomada de posse do Exmo. <i>Sr</i>.

A tomada de posse do Exmo. Sr.

Entre a obra queirosiana que o plano nacional de leitura nos dispensa de tresler, esconde-se Alves & C.ª, um curto romance de José Maria de Eça de Queiroz, editado e publicado em 1925 por José Maria de Eça de Queiroz, vinte e cinco anos depois da morte de José Maria

Aprendo depressa a chamar-te de realidade. Carta de São Paulo

Aprendo depressa a chamar-te de realidade. Carta de São Paulo

Em 2017 passei uma temporada em São Paulo, 20 anos após ter vivido em Paris, um ano e pouco antes do desastre Bolsonaro, entre o impeachment da Dilma e o golpe baixo do Lula preso. Escrevia-se e gritava-se muito “Fora Temer”, o ambiente era politicamente sinistro, não imaginava que podia

A monótona vida de Uóchinton Maria, a quem chamavam o Homem Porco

A monótona vida de Uóchinton Maria, a quem chamavam o Homem Porco

«Ergo-me ante o Sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós…» Álvaro de Campos   1. Décimo segundo filho de uma numerosa prole de dezoito rapazes, não se pode dizer que Uóchinton Maria fosse um menino feliz. Desde cedo lhe foi detectada uma tendência indómita para

Simpatia inacabada #3

Simpatia inacabada #3

Apanhar amoras Eu tencionava escrever uma crónica sofisticadíssima, dos pontos de vista literário, filosófico e lexical, mas ocorreu-me que será a primeira Simpatia Inacabada de 2023 e, no início do ano, prefiro dar um passeio. Depois de uma tempestade ou de um ano passar, como um comboio de alta velocidade,

Marialvas ou Libertinos?

The Coming Storm

Quando soube da notícia de uma ação policial na Alemanha que levou à detenção de 25 pessoas, o meu “sexto sentido” aprumou-se. Por várias razões. Uma, porque nasci na Alemanha, tenho pelo país um carinho muito especial — mesmo sendo português, identifico-me como “um bocadinho alemão” — e, por isso,

“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

“Na cabaia de veludo/debruada a carmim cru”

É lugar-comum que o domínio da roupa e dos tecidos seja tema de mulheres. Não está em causa se a realidade o demonstra ou o infirma – é um tópico literário, por exemplo, dos mais antigos e dos que mais perduram. A Penélope da Odisseia tecia a cada dia a

Teatro Cósmico #3

Teatro Cósmico #3

Identifico-me imenso Na “lição” Plays de Gertrude Stein, em que a escritora americana relata o modo como se foi aproximando e afastando do teatro para finalmente chegar à escrita de peças-paisagem, que parecem não se esgotar, há três ou quatro passagens sobre o verbo “to know” que me divertem muito.

Uma coisa não é só uma coisa

Uma coisa não é só uma coisa

Há factos que hoje tomamos como certos, como sabermos que é a Terra que anda à volta do Sol, que as espécies têm evoluído ao longo do tempo e de acordo com os seus habitats, e que não há geração espontânea de vida. Sabemos também, sem qualquer sombra de dúvida,

Weimar #4

Weimar #4

RESSUSCITAR A FERROVIA – SEXUALIDADE – ARCA DE NOÉ – ESTADO  SOCIAL – PRÍNCIPE  ENCANTADO RESSUSCITAR A FERROVIA Desta vez, com alguma surpresa, o Messias ressuscitou a ferrovia. Foi oficial, mais uma vez. Os Messias eram aos montes, há muitos anos. A imprensa verificava os factos cuidadosamente e batia sempre