Nº 3 – Janeiro 2023

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente
Cinema e Audiovisual
José Carlos Fernandes

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira acima da lei e cujo entendimento da “ética republicana” é estritamente subordinado ao proveito pessoal, poderá imaginar-se quão nocivo é para o carácter de um

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As coisas mais aborrecidas
Literatura
Filipe Nunes Vicente

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de coleira com GPS. Somos linces ibéricos em extinção, os cientistas sabem sempre de cada passo nosso.   Tenho trabalhado nas contra-medidas, claro. Ter o zingarelho desligado

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Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Artes Performativas
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez pelas mãos de um filme, uma trilogia romântica dos anos noventa, daquelas que nos enchem de esperanças para a vida toda (the right place, the

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Sobre cânticos negros
Música
Telmo Rodrigues

Sobre cânticos negros

Numa entrevista a propósito da edição de um disco, Maria Reis afirmava: «Se tu entras na minha vida […] vais estar numa canção», depois de ter assumido que «[t]oda a história da música é isto». Há muitas maneiras de descrever canções e uma das mais originais talvez seja dizer que são «resquícios», como o faz na canção com o mesmo nome em Chove na Sala, Água nos Olhos (2019). A canção acaba com os versos:

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Vivos-mortos – até que a vida nos repare?
Sociedade
Paula Cardoso

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Guardo da experiência várias cicatrizes, uma delas perfeitamente palpável. Lembro-me de que andava entretida com o meu primeiro ano de faculdade e que, até me encontrar naquela sala de espera, nunca me tinha passado pela cabeça outro destino que não fosse viver. Quatro anos de licenciatura pela frente, um emprego com algum conforto financeiro a médio prazo, uma relação bem-amada, quatro filhos para superar a matemática da família nuclear, e, enquanto o futuro se construía

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<i>Avatar</i>, história e catarse
Cinema e Audiovisual
Paulo Pinto

Avatar, história e catarse

Conhecem aquelas pessoas que, ao ouvir uma piada, dissecam-na ou divagam a propósito em vez de se rirem? Ou aqueles memes sobre psicólogos, que olham para as reações dos espetadores em vez do écran onde decorre a ação? É mais ou menos o que vou fazer aqui e agora. Em vez de lançar um enorme “uau!” de espanto acerca do grande blockbuster da quadra, Avatar: O Caminho da Água, vou dizer algumas coisas que giram

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O folhetim Alberto Manguel
Literatura
Diogo Ramada Curto

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e mesmo esses carecem de verificação, são os seguintes: nasceu em Buenos Aires, em 1948, passou a infância em Israel e a adolescência na Argentina; quando

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Inventário da vida privada #2
Sociedade
Tota Alves

Inventário da vida privada #2

Ganhar a vida 1. Fui levantar dinheiro às quatro da manhã na Rua do Rosário, que por acaso é o nome da minha mãe. Quando saiu o cartão, apareceu um moço por trás que me disse – dá-me o cartão. Não fiquei nervosa, dei-lhe o cartão. Ele inseriu-o na ranhura e pediu o código – trinta, trinta e dois. Eu fiquei sempre ao lado dele, tranquila, esperando o grande assalto. Mas no ecrã apareceu escrito

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Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Harry Todger e o Príncipe Sobressalente

Se, como uma sucessão de eventos e “casos de polícia” na política portuguesa tornou patente nos últimos meses, bastam alguns anos passados nos círculos do poder – mesmo nos mais afastados do centro – para inculcar em vulgares plebeus a ideia de que pertencem a uma casta superior, que paira

As coisas mais aborrecidas

As coisas mais aborrecidas

Antes do pódio, as que recebem apenas diplomas mas que com esforço e dedicação podem um dia vir a receber medalhas:     Telemóveis  Nos bons tempos, um tipo podia dizer com simplicidade desarmante: Telefonaste-me? Não estive em casa o dia todo. Hoje, isso é impossível porque nos puseram uma espécie de

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

[O]ne person’s ‘barbarian’ is another person’s ‘just doing what everybody else is doing. Susan Sontag   Caro leitor que me olhas do outro lado (da janela do computador, a prótese-extensão que os humanoides carregam constantemente). Tinha pensado em falar-te sobre Viena, desde a última vez: estive lá a primeira vez

Sobre cânticos negros

Sobre cânticos negros

Numa entrevista a propósito da edição de um disco, Maria Reis afirmava: «Se tu entras na minha vida […] vais estar numa canção», depois de ter assumido que «[t]oda a história da música é isto». Há muitas maneiras de descrever canções e uma das mais originais talvez seja dizer que

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Guardo da experiência várias cicatrizes, uma delas perfeitamente palpável. Lembro-me de que andava entretida com o meu primeiro ano de faculdade e que, até me encontrar naquela sala de espera, nunca me tinha passado pela cabeça outro destino que não fosse viver. Quatro anos de licenciatura pela frente, um emprego

<i>Avatar</i>, história e catarse

Avatar, história e catarse

Conhecem aquelas pessoas que, ao ouvir uma piada, dissecam-na ou divagam a propósito em vez de se rirem? Ou aqueles memes sobre psicólogos, que olham para as reações dos espetadores em vez do écran onde decorre a ação? É mais ou menos o que vou fazer aqui e agora. Em

O folhetim Alberto Manguel

O folhetim Alberto Manguel

Do pouco que se sabe acerca de Alberto Manguel, há dados que necessitam de ser confirmados.  Mas, de modo geral, será sempre necessário escrutinar o figurão em causa, uma vez que lhe foram concedidas condições de privilégio, pelo menos à escala da Câmara Municipal de Lisboa. Os dados mais seguros, e

Inventário da vida privada #2

Inventário da vida privada #2

Ganhar a vida 1. Fui levantar dinheiro às quatro da manhã na Rua do Rosário, que por acaso é o nome da minha mãe. Quando saiu o cartão, apareceu um moço por trás que me disse – dá-me o cartão. Não fiquei nervosa, dei-lhe o cartão. Ele inseriu-o na ranhura

Capa do n.º 3 da Almanaque

Capa do n.º 3 da Almanaque

Capa do Nº 3 da Almanaque, Janeiro 2023, ilustração de Lia Ferreira e layout de João Lagido.