Uma mulher culta, linda e divorciada disse-me qual a razão do súbito desinteresse do homem com quem saíra três ou quatro vezes:
— Fui demasiado oferecida.
— Oferecida…?
— Sim, ele percebeu que eu estava interessada.
Esta conversa foi em 2022, não nos anos 1930, quando as minhas avós passavam horas à janela, em Castelo Branco e no Porto, à espera que os namorados passassem para as seduzir — namorados com quem casaram, naturalmente.
Na altura, os papéis eram inequívocos. Elas: inacessíveis, fleumáticas e ariscas, a fazer de conta de que estavam à janela só por estar, num desinteresse aborrecido, um mero acaso. Eles: ilusionistas improvisados, a tirar truques de sedução da cartola, um elogio à cor dos olhos ou do cabelo, talvez um piropo romântico a pisar o risco.
Quase 90 anos depois, a norma social continua a dizer que o primeiro passo da sedução deve ser deles, nunca delas. Em Lisboa e no Porto, em Madrid e em Nova Iorque, talvez em todos os lugares, é raro uma mulher ir dançar sozinha a uma discoteca ou sentar-se sozinha num bar. As mulheres vão com amigas, com um velho amigo, com amigos gay, com colegas, com primas, com vizinhas. Vão de todas as maneiras, desde que acompanhadas. Se for sozinha, a mulher está “à caça” e isso não é bonito.
As mulheres vão “à caça” tanto como os homens, mas não vou entrar na discussão sobre a norma. Pelo menos hoje. Falo do ponto anterior ao momento em que começa o jogo da sedução: um homem está a beber sozinho ao balcão de um bar e ninguém repara. Apetecia-lhe uma cerveja, arejar, ouvir música. Mas se no balcão está uma mulher sozinha, aqui há gato. Divorciou-se, o marido enganou-a, é uma deprimida, está à procura de sexo, será que é depravada como Messalina, a imperatriz romana, ou promíscua como Júlia, a filha do imperador Augusto que dormiu com 80 mil homens? No mínimo, é uma oferecida. Será muito diferente nas redes sociais?
Quando o Vasco Barreto me desafiou a escrever para a Almanaque, disse-me que queria “convidar muitas mulheres” porque “a paridade” era “um ponto de honra”. Na altura, tinha 18 mulheres e 23 homens confirmados como colunistas, um rácio de 0,71. Tive de perguntar como ler o número. Resposta: “0,71 quer dizer que temos 10 homens por cada 7 mulheres.” A ideia, disse Barreto, era “ser praticamente escandinavo”. Assim foi. O rácio viria a subir para 0,81 e a Almanaque nasceu com 51 cronistas: 32 homens e 26 mulheres.
Com a troca de emails, cheguei ao nome da crónica (o,71) e, como pedido, ao “tema nicho”. Que é este: uma vez por mês, vou escrever sobre homens e mulheres, paridade, igualdade e misoginia, o preconceito mais antigo do mundo.
Há quem culpe Aristóteles pelos dois milénios que temos desta estranha forma de nos organizarmos. As mulheres não nascem submissas, mas é isso que acontece pelo menos desde que ele explicou que “o homem é por natureza superior e a mulher inferior”, dando como prova o facto de as mulheres terem menos dentes do que os homens — são infantis como as crianças — e não ficarem carecas com a idade. No livro A Brief History of Misogyny (Robinson, 2006), Jack Holland diz que, segundo Aristóteles, “o sémen do homem deve transportar a alma ou o espírito, e todo o potencial para que a pessoa se torne um humano completo”. A mulher é “recipiente da semente masculina, contribui apenas com a matéria, o ambiente nutritivo”. Aristóteles, diz Holland, lançou a ideia de que “o homem é o principal actuante, o que avança”, e que “a mulher é passiva, a que recebe o avanço”. Uma ideia que teima em circular por aí.
A amiga que se autoculpabiliza por ter sido “demasiado oferecida” acredita que, se tivesse sido mais casta, mais recatada, mais fugidia, mais fingida, os dates ter-se-iam tornado em alguma coisa mais comprometida, quem sabe namoro, talvez amor. Não foi isso que ela fez e a culpa é dela.
Consigo imaginar outras hipóteses para explicar o murchar do encontro:
1.Ele é cego.
2.Ele é parvo.
3.Ele não se sentiu atraído por ela.
4.Ele assustou-se com a beleza dela.
5.Ele gostou dela, mas não quer envolver-se.
6.Ele está apaixonado por outra mulher.
7.Ele é gay.
8.Ele está a curar um desgosto de amor.
São todas possibilidades realistas, mas todas foram deitadas para o lixo. Norma social oblige.
“Até as mulheres mais independentes e feministas dão por si a gostar do estilo conquistador com que os homens olham para elas, e a desejar serem o objecto submisso nos seus braços. São estes desejos incompatíveis com a sua independência? Traem eles os séculos de feminismo que as antecedem? Podemos esperar que sejam os homens a ‘dar o primeiro passo’ e exigir igualdade de sexos?”, pergunta Manon Garcia, professora de Filosofia na Universidade de Yale, no prefácio do seu livro We Are Not Born Submissive (Princeton University Press, 2021). Não sei. Quando acabar de ler partilho.
Mas sei que as mulheres vivem esta estranha coisa a que Simone de Beauvoir chamou os “encantos da passividade”. Essa é a expressão que a escritora escolheu para explicar porque é que as mulheres aceitam ser submissas — a começar por ela própria, que se achava menos inteligente do que o namorado de toda a vida, Jean-Paul Sartre, e se submeteu a um papel secundário na relação com ele no dia em que, tendo passado o primeiro exame da agrégation — que ele chumbara um ano antes — Sartre lhe disse qualquer coisa como “a partir de agora, és a minha protegida”. A lata.




