Incrédula, vejo, revejo, e volto a ver. Aqueles 30 segundos de imagens televisivas sugerem-me uma narrativa radicalmente diferente daquela que engorda títulos na véspera do segundo turno das Presidenciais do Brasil, disputadas no passado dia 30 de Outubro.
De um lado leio: “Jornalista da RTP sofre tentativa de assalto durante directo”. Do outro lado assisto ao vídeo, filmado na cidade brasileira de São Paulo, e o que me salta à vista é o preconceito, a discriminação, e um julgamento sumário.
Apesar de a câmara não conseguir mostrar mais do que um par de miúdos inconvenientes, para a imprensa portuguesa as palavras do repórter Daniel Catalão valem mais do que 1.000 imagens.
Ou, pelo menos, valem mais do que a presunção de inocência de dois brasileiros, rotulados pelo jornalista de “meliantezinhos”, e descritos como “os típicos rapazinhos” que andam normalmente a tentar roubar smartphones.
Mas, quem sou eu para opinar sobre o que aconteceu se não estava lá? Com que autoridade questiono o “insuspeito” Daniel Catalão?
Quem me arremessa essas e outras perguntas, entre comentários bélicos nas redes sociais, também não estava em São Paulo, mas não hesita em suspeitar da minha legitimidade para falar. Afinal, explica-me, sou “pessoa da mesma laia dos brasileiros” e, por inerência, indigna de confiança.
Enquanto sou confrontada com o meu ‘carácter duvidoso’, a história de Daniel Catalão vai alimentando uma longa, xenófoba e racista narrativa de que a natureza do brasileiro é criminosa.
Ao mesmo tempo, o silêncio ruidoso da RTP sugere que os seus jornalistas têm luz verde para transformar os vieses em factos.
Muda-se de canal e a interferência racista permanece, agora na TVI. Sem qualquer constrangimento, o apresentador Cláudio Ramos decide avançar as mãos sobre o cabelo de uma mulher negra, tratada como uma ‘espécie de atracção exótica’. Cláudio Ramos não pede permissão para tocar, porque se acha no direito de o fazer, e qual ‘proprietário’ todo-poderoso, ainda se dá ao luxo de comentar a sensação táctil, que compara a estar num édredon. À excepção de uma pessoa – a apresentadora Maria Botelho Moniz –, em estúdio ninguém estranha o gesto, violentamente normalizado.
E assim, de palavras em gestos, o espectáculo racista continua, sem grandes interrupções nem objecções.
Crime com direito de antena
Basta observar como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) respondeu às queixas apresentadas em 2019 contra a participação de Mário Machado num programa da TVI.
Apesar de várias entidades terem unido vozes contra o canal, acusando-o de branquear a imagem do líder da extrema-direita, a ERC determinou que o facto de ter sido várias vezes condenado e preso por diversos crimes de violência, sequestro, posse de arma e discriminação racial não poderia implicar a “perda de quaisquer direitos civis, profissionais ou políticos”.
Mas, pergunto: deveria envolver o ganho de direito de antena?
Só mesmo num país em que o racismo não é crime, e micro-agressões racistas são vistas como piada, e até transmitidas com honras televisivas.
Este exemplo ilustra-o bem: em entrevista ao 11, canal de futebol da Federação Portuguesa de Futebol, o defesa guineense Nanu ouviu de um jornalista uma pergunta inacreditável.
“Onde aprendeste a correr assim? Não foi a fugir à polícia, não?”, questionou Pedro Sousa ao atleta, em 2019. Pediu desculpas, e a agressão seguiu como antes. Impune.
Já no ano passado, o Canal Q mostrava, no programa “As receitas do chef Bernas”, como é que a brincar a brincar se descobre a velha portugalidade.
E sim, sei que o humor é a assinatura de marca do Q. Mas foi de horror que se cobriu a emissão dedicada a Angola, apresentada como “um dos países africanos que teve a sorte e o privilégio de ser Portugal” numa altura em que o mesmo era “o maior país do mundo”.
Acrescentou-se ao recheio a indicação de que “Angola é um país repleto de extraordinários recursos naturais que compõem uma paisagem rica e cidades que parecem um bocado o bairro do Aleixo (…) Mas pronto, problema deles, eles é que quiseram ser independentes, eles que se orientem”.
A receita terminava com uma pitada generosa de lusotropicalismo. “O período áureo foi quando os portugueses e angolanos viviam em comunhão, até que eles correram connosco porque queriam o país só para eles, num surto claramente egoísta. Os brancos tratavam muito bem os pretinhos. Na fazenda da minha família, por exemplo, até deixavam os pretinhos comerem com eles à mesa, quer dizer, não era uma mesa, era um fardo de palha, e não era na mesma divisão, era num anexo. Mas, pronto, o que conta é a intenção. Hoje em dia Angola tem diamantes e petróleo, mas poderia ter pastéis de nata e instalações da Joana Vasconcelos. Mesmo assim, visitem para eles serem relembrados do que perderam”.
Importa escrever que não é preciso tanto, porque sabemos que perdemos vidas. Mas também sabemos que isso não passa na televisão.




