Fotografia_de-aj_aaaab-para_unsplash

Canais Portugueses com Sinal Aberto Para o Racismo

Incrédula, vejo, revejo, e volto a ver. Aqueles 30 segundos de imagens televisivas sugerem-me uma narrativa radicalmente diferente daquela que engorda títulos na véspera do segundo turno das Presidenciais do Brasil, disputadas no passado dia 30 de Outubro.
De um lado leio: “Jornalista da RTP sofre tentativa de assalto durante directo”. Do outro lado assisto ao vídeo, filmado na cidade brasileira de São Paulo, e o que me salta à vista é o preconceito, a discriminação, e um julgamento sumário.
Apesar de a câmara não conseguir mostrar mais do que um par de miúdos inconvenientes, para a imprensa portuguesa as palavras do repórter Daniel Catalão valem mais do que 1.000 imagens.
Ou, pelo menos, valem mais do que a presunção de inocência de dois brasileiros, rotulados pelo jornalista de “meliantezinhos”, e descritos como “os típicos rapazinhos” que andam normalmente a tentar roubar smartphones.
Mas, quem sou eu para opinar sobre o que aconteceu se não estava lá? Com que autoridade questiono o “insuspeito” Daniel Catalão?
Quem me arremessa essas e outras perguntas, entre comentários bélicos nas redes sociais, também não estava em São Paulo, mas não hesita em suspeitar da minha legitimidade para falar. Afinal, explica-me, sou “pessoa da mesma laia dos brasileiros” e, por inerência, indigna de confiança.
Enquanto sou confrontada com o meu ‘carácter duvidoso’, a história de Daniel Catalão vai alimentando uma longa, xenófoba e racista narrativa de que a natureza do brasileiro é criminosa.
Ao mesmo tempo, o silêncio ruidoso da RTP sugere que os seus jornalistas têm luz verde para transformar os vieses em factos.
Muda-se de canal e a interferência racista permanece, agora na TVI. Sem qualquer constrangimento, o apresentador Cláudio Ramos decide avançar as mãos sobre o cabelo de uma mulher negra, tratada como uma ‘espécie de atracção exótica’. Cláudio Ramos não pede permissão para tocar, porque se acha no direito de o fazer, e qual ‘proprietário’ todo-poderoso, ainda se dá ao luxo de comentar a sensação táctil, que compara a estar num édredon. À excepção de uma pessoa – a apresentadora Maria Botelho Moniz –, em estúdio ninguém estranha o gesto, violentamente normalizado.
E assim, de palavras em gestos, o espectáculo racista continua, sem grandes interrupções nem objecções.


Crime com direito de antena


Basta observar como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) respondeu às queixas apresentadas em 2019 contra a participação de Mário Machado num programa da TVI.
Apesar de várias entidades terem unido vozes contra o canal, acusando-o de branquear a imagem do líder da extrema-direita, a ERC determinou que o facto de ter sido várias vezes condenado e preso por diversos crimes de violência, sequestro, posse de arma e discriminação racial não poderia implicar a “perda de quaisquer direitos civis, profissionais ou políticos”.
Mas, pergunto: deveria envolver o ganho de direito de antena?
Só mesmo num país em que o racismo não é crime, e micro-agressões racistas são vistas como piada, e até transmitidas com honras televisivas.
Este exemplo ilustra-o bem: em entrevista ao 11, canal de futebol da Federação Portuguesa de Futebol, o defesa guineense Nanu ouviu de um jornalista uma pergunta inacreditável.
“Onde aprendeste a correr assim? Não foi a fugir à polícia, não?”, questionou Pedro Sousa ao atleta, em 2019. Pediu desculpas, e a agressão seguiu como antes. Impune.
Já no ano passado, o Canal Q mostrava, no programa “As receitas do chef Bernas”, como é que a brincar a brincar se descobre a velha portugalidade.
E sim, sei que o humor é a assinatura de marca do Q. Mas foi de horror que se cobriu a emissão dedicada a Angola, apresentada como “um dos países africanos que teve a sorte e o privilégio de ser Portugal” numa altura em que o mesmo era “o maior país do mundo”.
Acrescentou-se ao recheio a indicação de que “Angola é um país repleto de extraordinários recursos naturais que compõem uma paisagem rica e cidades que parecem um bocado o bairro do Aleixo (…) Mas pronto, problema deles, eles é que quiseram ser independentes, eles que se orientem”.
A receita terminava com uma pitada generosa de lusotropicalismo. “O período áureo foi quando os portugueses e angolanos viviam em comunhão, até que eles correram connosco porque queriam o país só para eles, num surto claramente egoísta. Os brancos tratavam muito bem os pretinhos. Na fazenda da minha família, por exemplo, até deixavam os pretinhos comerem com eles à mesa, quer dizer, não era uma mesa, era um fardo de palha, e não era na mesma divisão, era num anexo. Mas, pronto, o que conta é a intenção. Hoje em dia Angola tem diamantes e petróleo, mas poderia ter pastéis de nata e instalações da Joana Vasconcelos. Mesmo assim, visitem para eles serem relembrados do que perderam”.
Importa escrever que não é preciso tanto, porque sabemos que perdemos vidas. Mas também sabemos que isso não passa na televisão.

Relacionados

Dicas de beleza para futuros falecidos
Boa Vida
Rafaela Ferraz

Dicas de beleza para futuros falecidos

Há duas fases da vida em que se torna absolutamente essencial ter uma rotina de cuidados de pele: a vida propriamente dita, e depois a morte. Felizmente, a indústria da beleza fatura cerca de 98 mil milhões de dólares por ano nos EUA, a indústria funerária 23 mil milhões, e

Ler »
George Carlin e a Verdade na Comédia
Artes Performativas
Pedro Goulão

George Carlin e a Verdade na Comédia

“Dentro de cada cínico, existe um idealista desiludido” Quando comecei a escrever na Almanaque, o Vasco M. Barreto pediu-me que não escrevesse sobre o estafado tema dos limites do humor. Aceitei, mesmo tendo em conta que isso era um limite ao humor, pelo menos o meu, e que alguns números

Ler »
A queda do Governo e o Império Romano
Em Destaque
André Canhoto Costa

A queda do Governo e o Império Romano

1. Quando o Criador, na sua infinita sabedoria, inspirou ao apóstolo a visão tenebrosa do Apocalipse, nunca imaginou vir a ser superado pelos comentadores políticos portugueses na noite do dia 8 de novembro de 2023. Com efeito, os quatro cavaleiros saídos da abertura do primeiro selo do rolo manuscrito na

Ler »