Marie-Antoinette com os dois filhos mais velhos nos jardins do Petit Trianon” (1785), por  Adolf Ulrik Wertmüller

No final de Outubro de 2022, após uma sequência declinante de primeiros-ministros que começou com David Cameron (um sonso que, numa jogada de politiquice rasteira, precipitou, inadvertidamente, o Brexit) e terminou em Liz Truss (uma tentativa de remake da Dama de Ferro, mas com o cérebro de uma borboleta), o Partido Conservador percebeu que precisava urgentemente de recuperar altitude e escolheu Rishi Sunak (n.1980, Southampton) para liderar o partido e, concomitantemente, o Governo do Reino Unido. A nomeação de Sunak, ainda que vista como uma melhoria face à inenarrável Truss, atraiu de imediato críticas, umas de natureza mais específica, vindas de quem reprova a prestação de Sunak enquanto Chancellor of the Exchequer (cargo análogo ao nosso Ministro das Finanças) no Governo de Boris Johnson e a sua anterior vinculação a think tanks de direita (como o Centre for Policy Studies e o Policy Exchange), e outras de natureza genérica, vindas de quem entende que a liderança de um país não deveria ser confiada a um milionário.

Antes de abraçar a política, Sunak fez carreira na banca de investimento, nomeadamente na Goldman Sachs, Theleme Partners e Catamaran Ventures (esta última propriedade do seu sogro, o bilionário indiano N.R. Narayana Murthy) e hoje detém, em conjunto com a esposa, Akshata Murty, uma fortuna de 730 milhões de libras, o que faz o casal ocupar o lugar 222 no ranking de fortunas da Grã-Bretanha (pode não parecer impressionante, mas garantiria um lugar no top 10 das fortunas portuguesas) e faz de Sunak o mais rico primeiro-ministro da história britânica. Sunak provém de uma família de origem indiana de classe média-alta – pai médico, mãe farmacêutica – e fez todo o percurso académico no sistema de escolas privadas de elite que é tão determinante na manutenção da forte estratificação da sociedade britânica. Por exemplo, o Winchester College, o colégio interno onde Sunak fez o ensino secundário, cobra propinas anuais de 43 000 libras, mas no outro prato da balança pesa o facto de ter sido fundado em 1382 e ter produzido cinco Ministros das Finanças e um primeiro-ministro (dois, contando com Sunak). O Lincoln College, em Oxford, onde Sunak se licenciou, em 2001, com distinção (“first class honours”), faz parte de uma tradição não menos veneranda, com fundação a remontar a 1427 e uma lista de antigos alunos que inclui um Prémio Nobel, bispos, escritores e actores de renome mundial e uma legião de líderes políticos e altos funcionários. Em 2007, Sunak acrescentou às suas respeitáveis habilitações académicas um MBA conferido por outra universidade de elite: Stanford, na Califórnia.

Para compor o retrato de Sunak & Murty é imprescindível somar uma mansão georgiana em Kirby Sigston, numa aprazível zona rural do North Yorkshire, adquirida em 2015 por 1.5 milhões de libras e que foi, entretanto, beneficiada com piscina interior (no valor de 400.000 libras), spa, ginásio, sala de yoga e court de ténis; uma moradia de 7 milhões de libras e um apartamento mais modesto (só para receber familiares), ambos em Kensington (Londres); e um outro apartamento em Santa Monica, na Califórnia.

Houve quem visse nas críticas com que foi acolhida – sobretudo à esquerda – a nomeação de Sunak como primeiro-ministro uma reacção primária de ódio aos ricos (e, em geral, às pessoas que têm sucesso) e uma manifestação do ressabiamento dos medíocres, e apontasse exemplos de grandes governantes que provieram de meios privilegiados e de governantes calamitosos de origem humilde. Esta amostragem selectiva da História é um exercício inconclusivo e estéril, que em nada ajuda a dilucidar as relações entre fortuna pessoal e governação justa e adequada .

Para começar, durante a maior parte da história da humanidade, os governantes provieram (salvo golpe de Estado sangrento) quase sempre de um meio privilegiado e só no século XIX, quando, nalgumas nações, a democracia e a meritocracia começaram a sobrepor-se aos direitos hereditários, as pessoas “comuns” começaram a desempenhar cargos cimeiros na governação; e só no século XX, com a generalização das democracias parlamentares e da aceitação do princípio “um cidadão, um voto”, começou a ser frequente ver governantes vindos do povo. A apreciação do desempenho dos governantes será sempre turvada pelas inclinações ideológicas de quem julga (por exemplo, Margaret Thatcher foi uma heroína para a direita e uma megera para a esquerda), mas é relativamente consensual apontar que houve indivíduos de origens humildes que se revelaram governantes tenebrosos – Hitler era filho de um modesto funcionário alfandegário, Stalin era filho de um sapateiro – e indivíduos provenientes das elites que foram governantes admiráveis – Winston Churchill era filho de Lord Randolph Churchill, aristocrata e proeminente político britânico (descendente em linha directa do primeiro Duque de Marlborough), e de Jennie Jerome, filha de um banqueiro de investimento americano conhecido como “Rei de Wall Street”. Porém, também podem apontar-se exemplos contrários: Nelson Mandela nasceu na pobreza e nela passou boa parte da juventude, Donald Trump nasceu em berço milionário e criou um multifacetado império empresarial.

Para aumentar a complexidade e subtileza das apreciações sobre o desempenho dos líderes políticos, há que considerar que este depende tanto das virtudes e defeitos do indivíduo quanto das circunstâncias: se a agressividade e determinação de Hitler e a ingenuidade e pusilanimidade de Neville Chamberlain não tivessem propiciado a Churchill ascender a primeiro-ministro e revelar as suas melhores qualidades, talvez fosse lembrado como orador inspirado, escritor talentoso e político fracassado (em 1939, muitos davam a sua carreira política como terminada). Por outro lado, uma governação pode assumir diferentes facetas para diferentes grupos e em diferentes momentos no tempo: por exemplo, não é por Churchill ter dado contributo decisivo para salvar a Europa de um Reich de Mil Anos que podemos ignorar que ele foi também parcialmente responsável por a fome em Bengala, em 1943, ter causado a morte de 2.1 a 3.8 milhões de indianos, ao ter decidido não enviar auxílio às populações esfomeadas, por razões que mesclaram pragmatismo implacável com insensibilidade social e uma visão racista dos indianos.

Seja como for, será demasiado simplista assumir que a oposição a que um milionário ocupe o cargo de primeiro-ministro é necessariamente uma manifestação de ódio de classe. É, por exemplo, válida a objecção de que os múltiplos vínculos do milionário-governante ao mundo dos negócios, ao qual irá regressar após o término do mandato, o inclinam a tomar decisões que beneficiem, mesmo que indirectamente, as suas empresas ou as dos seus parceiros, familiares e amigos, ou a transmitir–lhes informação privilegiada, ou a abster-se de tomar decisões que prejudiquem essa teia de interesses (como poderá ter sido o caso de Donald Trump no que concerne que concerne ao relacionamento dos EUA com a Rússia).

Mesmo que o milionário-governante seja íntegro e consiga fazer uma separação irrepreensível entre as suas decisões enquanto governante e os seus interesses enquanto empresário ou investidor, poderá sempre levantar-se uma objecção mais genérica: será que quem passou toda a vida numa esfera de privilégio e abundância terá a sensibilidade necessária para entender a vida das pessoas comuns e governar em função delas?

Aqui chegados, é preciso que nos interroguemos sobre o que significa “governar bem”: uma coisa é a governação ser competente e eficaz na vertente estritamente “técnica”, outra coisa, bem diversa, é ela eleger como prioridade o bem-estar da população e, em particular, dos seus elementos mais desfavorecidos ou frágeis. Esta distinção foi claramente exposta numa frase infeliz proferida em 2014 por Luís Montenegro (e que irá assombrá-lo até ao fim dos seus dias), quando, na qualidade de líder da bancada parlamentar do PSD, pretendeu enaltecer a governação de Pedro Passos Coelho: “A vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”.

Esta asserção paradoxal só é compreensível se se considerar que por “o país” Montenegro entende os indicadores orçamentais/contabilísticos que são hoje o alfa e o ómega da governação: o PIB, a dívida pública, a dívida pública expressa como percentagem do PIB, as taxas de juro da dívida pública, as classificações atribuídas à dívida pública pelas agências internacionais de notação financeira, etc. E é possível fazer com que estes indicadores melhorem à custa da “vida dos portugueses”, que é traduzida por indicadores como o rendimento médio dos 10% mais pobres, a percentagem da população em risco de pobreza, a percentagem da população que recorre aos bancos alimentares, os gastos do Estado em educação e saúde, o índice de Gini, etc. Uma coisa é governar de forma a impressionar favoravelmente o FMI, a Comissão Europeia e a Moody’s, outra coisa é governar dando prioridade ao bem-estar da população – embora seja legítimo o argumento de que a política de “contas certas” que permite melhorar os indicadores orçamentais/contabilísticos do país é uma via, para, no futuro, promover a melhoria da vida dos cidadãos.

Mesmo admitindo que as duas concepções de governação não sejam divergentes e possam vir a cruzar-se, é inegável que há governantes que, pela sua ideologia, experiência de vida ou mundividência, acabam por dar primazia aos indicadores contabilísticos e descurar os indicadores sociais, o que os expõe à acusação de serem insensíveis aos padecimentos do povo. E o símbolo tradicional de insensibilidade social é a resposta atribuída a Marie-Antoinette, rainha de França, em 1789, ao ouvir dizer que o povo protestava por não ter pão para comer: “Eles que comam brioche”. O brioche é um bolo requintado, cujos ingredientes incluem ovos e manteiga, dando a entender que a rainha não faria a mais pálida ideia das condições de vida do povo (uma Marie-Antoinette do século XXI sugeriria como alternativa ao pão a tosta de abacate). 

O episódio é, muito provavelmente, apócrifo, pois já circulava antes de a princesinha austríaca Maria Antonia se ter casado, aos 14 anos, com Louis-Auguste, delfim de França e futuro Luís XVI. Há quem também invoque em favor de Marie-Antoinette trechos da sua correspondência com a sua família austríaca que sugerem que ela teria alguma consciência do seu privilégio e da dureza da vida do povo; porém, é duvidoso que essas menções passageiras ao sofrimento do povo denotem real conhecimento e compaixão. É bom lembrar que Marie-Antoinette criou no Petit Trianon, a parcela do vasto parque do Palácio de Versailles que Luís XVI destinara ao uso exclusivo da esposa, uma fantasia campestre que ficou conhecida como Aldeia da Rainha (Hameau de la Reine), onde Marie-Antoinette e a sua entourage “brincavam aos pobrezinhos”: envergando simulacros requintados dos trajes de pastores e camponeses, deleitavam-se no regresso à simplicidade e inocência de uma ruralidade idílica que só existia na sua imaginação e em que o trabalho sujo e pesado nas hortas, pomares e estábulos era assegurado pela criadagem e a “beautiful people” se limitava a passear, tagarelar, degustar queijos na leitaria, mordiscar fruta nos pomares, fazer piqueniques e, ocasionalmente, retirar água do poço e mungir uma vaca (usando selhas em porcelana de Sèvres, fabricadas especialmente para a Aldeia da Rainha).

Seja como for, a frase “Eles que comam brioche” ficou irremediavelmente colada a Marie-Antoinette, o mesmo acontecendo com outras atoardas reveladoras de uma vida de luxo obsceno e dissipação que foram difundidas pela propaganda anti-monárquica e que levaram a que a rainha recebesse o epíteto de “Madame Déficit” (como se os seus gastos pessoais fossem a causa da ruína das finanças de França) e contribuíram para que acabasse por ser condenada à guilhotina.

Rishi Sunak pode alegar em seu favor não ter vivido numa bolha de privilégio comparável à de Marie-Antoinette, ou às dos actuais membros da casa real britânica (embora a fortuna do casal Sunak & Murty seja o dobro da fortuna de Carlos III & Camilla) e pode mesmo invocar em seu favor o facto de, aos 18 anos, nas férias de Verão que precederam a sua entrada em Oxford, ter trabalhado como empregado de mesa na Kuti’s Brasserie, um restaurante de Southampton especializado em pratos de caril. Num trecho do documentário Middle classes: Their rise and sprawl (2007), da BBC, Sunak, que, apesar de muito jovem, já somava seis anos de experiência na banca de investimento, no afã de demonstrar a natureza interclassista dos seus relacionamentos, entusiasma-se e comete o deslize de reivindicar ter amigos da classe operária, embora corrija de imediato: “bem, não da classe operária”.

Mas será que para um governante possuir sensibilidade social é necessário ter “amigos da classe operária” ou até a experiência directa da pobreza? Há outras vias, dirão os amantes da literatura: uma das maiores virtudes que é apontada a esta é proporcionar ao leitor experiências que ele nunca teve nem terá, fazendo-o sentir o que é estar na pele dos outros e dando ensejo a que se torne mais empático. E se há coisa que não falta na literatura são relatos – factuais e ficcionais – sobre a vida dos menos favorecidos.

Na rigidamente estratificada sociedade da Era Vitoriana, os romances de Charles Dickens – nomeadamente Oliver Twist (1839), Tempos difíceis (1854) e Grandes esperanças (1861) – trouxeram o tema da pobreza ao conhecimento dos leitores das classes média-alta e alta da Grã-Bretanha, confrontando estes com as condições precárias e até abjectas em que vivia uma fracção considerável da população daquele que era, à data, o país mais rico e poderoso do mundo, o que levou Karl Marx a proclamar que Dickens “revelou ao mundo mais verdades políticas e sociais do que todos os políticos, publicistas e moralistas juntos”.

Entre os escritores de renome que deram a conhecer os bas-fonds da sociedade estão, por exemplo, os neo-realistas George Orwell, com Na penúria em Paris e Londres (1933), ou Albert Cossery, que consagrou aos destituídos boa parte da sua produção, com elucidativos títulos como Os homens esquecidos de Deus (1941), A casa da morte certa (1944), Mandriões do vale fértil (1948) ou Mendigos e altivos (1955), o que levou Henry Miller a escrever, em 1945, que “entre os escritores vivos que conheço, nenhum descreveu de forma mais pungente ou mais implacável a existência das massas humanas submersas”. Em língua portuguesa, há a assinalar os contributos de Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Raul Brandão, Graciliano Ramos ou José Lins do Rego.

Também o cinema tem assestado frequentemente o foco sobre a vida dos estratos desfavorecidos da sociedade, o que originou, inclusive, duas correntes que gozaram (e gozam) de grande apreço crítico: o neo-realismo italiano do pós-II Guerra Mundial e o “kitchen sink realism” (“realismo de lava-louça”, numa tradução literal) que floresceu na Grã-Bretanha nas décadas de 1950 e 1960. Desde então, o realismo social nunca deixou de ter expressão relevante no cinema britânico, graças a realizadores como Mike Leigh e, sobretudo, Ken Loach, cuja carreira, iniciada em 1968, ainda na era do “kitchen sink realism”, se estende até ao presente.

Uma vez que não é provável que Rishi Sunak tenha, entretanto, arranjado “amigos da classe operária”, poderia recomendar-se-lhe, como forma de ganhar alguma familiaridade com as angústias e desafios quotidianos de quem vive nas margens menos iluminadas e asseadas da sociedade britânica, o visionamento da filmografia de Loach, sobretudo Sweet sixteen (2002), que acompanha um rapaz de 16 anos, que abandonou a escola e passa os dias a vadiar e a recorrer à pequena delinquência para ir ganhando uns cobres, enquanto aguarda que a mãe, a cumprir pena de prisão, seja libertada; e I, Daniel Blake (2016), sobre um viúvo de 59 anos cujas maleitas o impossibilitam de trabalhar mas que, apesar de o seu médico ter confirmado a sua incapacidade, vê recusados pela segurança social os subsídios correspondentes à sua condição e se vê envolvido numa espiral de atritos com a obtusa e rígida máquina burocrática do Estado. E, atendendo a que Sunak é de ascendência indiana e professa o hinduísmo, poderia também recomendar-se-lhe a leitura do magistral O sonho de uma outra vida (Behind the Beautiful Forevers, 2012), por Katherine Boo, um relato verídico, simultaneamente pungente e zombeteiro, de como é viver e morrer em Annawadi, um bairro de lata erguido junto ao aeroporto de Mumbai (antiga Bombaim). Também sobre a Índia, mas em registo ficcional, também seria instrutiva a leitura de O tigre branco (2008), por Aravind Adiga, um relatório sob a forma de carta, escrita na primeira pessoa, do percurso do filho de um puxador de riquexós que, graças à astúcia e à ausência de escrúpulos, ascende das ruas lamacentas da sua miserável aldeia natal a proprietário de uma empresa de táxis na feérica Bangalore, cidade-símbolo da Índia moderna e tecnológica. É até possível que Sunak, atendendo à educação esmerada que recebeu, tenha lido Dickens e O tigre banco (que recebeu o Booker Prize), mas é duvidoso que, nessa eventualidade, tais obras tenham sido capazes de moldar a sua mundividência e despertá-lo para as aflições dos que estão na base da pirâmide social.

Acontece que os poderes da literatura – e das artes em geral – estão muito sobrevalorizados: para começar, há que admitir que a maior parte da pequena fracção da população com hábitos de leitura se confina às áreas do entretenimento escapista, da auto-ajuda, das “espiritualidades”, das biografias de “celebridades” e dos livros “utilitários” (sobre saúde, dietas e cuidados a ter com filhos, animais de estimação, empresas e respectivos “colaboradores”). Mesmo que, por acidente, o leitor comum se depare com um livro mais substancial, é improvável que consiga ver para lá das facetas mais prosaicas do enredo e seja capaz de reter mais do que episódios anedóticos ou traços de uma personagem mais garrida e excêntrica. Mesmo entre quem possui biblioteca e/ou estudos (e até doutoramentos!) na área da literatura, a frivolidade campeia e raramente se encontra alguém capaz de emitir sobre um livro um juízo mais elaborado do que “gostei”, “não gostei”, “lê-se bem” ou “é maçador”. Há quem consuma vorazmente livro atrás de livro, sem que daí resulte mais conhecimento do mundo e das suas criaturas do que um fã do ludopédio retira de ver todos os jogos do campeonato nacional, Liga dos Campeões e Liga Europa. E mesmo nos casos em que, chegado à última página, o leitor consegue retirar do livro um ensinamento, é pouco provável que o integre na sua mundividência, ou que sequer se lembre dele passado um mês.

Em síntese: por diversas razões, que têm tanto a ver com os escritores como com os leitores, os livros produzem no leitor muito menos iluminação, maturação e empatia do que é usualmente aceite nos círculos académicos, nos festivais literários e nas revistas e suplementos culturais. Não pode, pois, esperar-se que a elite letrada, que geralmente pertence aos escalões da sociedade que levam vida desafogada, interiorize o que é passar privações através da leitura de um livro que retrata o dia-a-dia dos estratos mais baixos da sociedade.

A “culpa” desta falha de comunicação não está, necessariamente, na falta de talento dos escritores ou na desatenção dos leitores, pois o problema tem raízes mais fundas: por vezes, nem sequer a proximidade, por via de laços familiares, laborais, de amizade ou de vizinhança, parece ser capaz de vencer a incompreensão crónica dos mais abastados face aos pobres e remediados. Quem sempre esteve no 4.º escalão do IRS não faz ideia do que são as limitações e handicaps com que se defronta quem está no 1.º escalão. Quem vive numa casa com piscina interior aquecida e jacuzzi conhece a sensação da água fria sobre a pele, mas não faz ideia do que é ter de tomar duche frio  ao longo do Inverno. Quem só conheceu o sucesso é incapaz de interpretar o fracasso dos outros como podendo ter outra explicação que não seja a falta de discernimento, competência, talento, empenho, disciplina, perseverança. foco e “garra”. Há uns anos, numa “entrevista de vida” a um dos mais proeminentes empresários e filantropos portugueses, quando lhe foi perguntado “Alguma vez foi despedido?”, o entrevistado emitiu uma negativa tão veemente e ultrajada que se diria que lhe tinham perguntado se alguma vez roubara a caixa de esmolas da igreja ou fora detido por exposição indecente. Quando a invasão da Ucrânia pela Rússia levou, de imediato, a que especialistas em geopolítica e economia advertissem que uma das consequências mais preocupantes seria a subida vertiginosa do preço do gás, ouviram-se risos de troça vindos de quem nunca teve de escolher entre pagar a conta do aquecimento e a conta do supermercado ou da farmácia.

O facto de os decisores – sejam eles políticos, empresários ou tecnocratas – que comandam os destinos do mundo serem incapazes de sair da sua esfera mental de conforto e privilégio e não terem noção das atribulações dos desfavorecidos explica, em parte, que, no meio da cornucópia de produtos e serviços gerados pela nossa civilização hiper-tecnológica, continue a haver tantas pessoas a passar privações. Mas o desconhecimento dos governantes em relação aos governados é apenas uma faceta da “síndrome de Marie Antoinette”, que, por sua vez é apenas um aspecto do problema mais vasto que é o de sabermos tão pouco uns sobre os outros e de sermos incapazes de os ver sem ser através do prisma do nosso ego. E nem sequer a convivência assídua com a melhor literatura ou arte oferece garantias de colmatar este alheamento fundamental.

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Como imagem de destaque: “Marie-Antoinette com os dois filhos mais velhos nos jardins do Petit Trianon” (1785), por  Adolf Ulrik Wertmüller.

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