A irmã do ciúme, a inveja, é muito mal vista (tanto quanto popular), mas não chega aos calcanhares do mano. In videre, ver demais. Dante, no canto oitavo do Purgatório, cose os olhos (as pálpebras) aos invejosos que ficam como os falcões (com os olhos tapados antes de serem largados na caça).
Ché a tutti un fil de ferro i cigli fóra
E cusce sì, come a sparvier selvaggio
A inveja é chata, plana, quase honesta. Se virem bem, até é tolerada se vestida de um sorriso: Ai, tenho tanta inveja de ti, os teus filhos não te dão trabalho nenhum. Claro que também existe a soturna e calada. Medra na mirada ao carro novo do vizinho ou às curvas esguias da cunhada. Até existem sistemas de pensamento e doutrina que aproveitam a inveja. Dos que alimentaram o ódio aos ricos (mesmo que fossem kulaks remediados) aos que elegem o emigrante como ladrão do bem-estar nativo. Corre sempre bem, nunca falha.
A inveja pretende apenas desapossar o outro de um objecto ou de um bem (tangível ou material). É aquisitiva e o interesse é pelo que se inveja. Se eu invejar a casa do Ferreira e por acaso ele for à falência e ma vender por tuta e meia, eu não quero saber mais do homem para nada.
Por outro lado, a inveja de uma coisa é plana e achatada porque o desejo que temos da coisa exclui as relações pessoais. No caso acima descrito, posso nunca ter trocado uma palavra com o Ferreira: ele não me interessa, só quero o que ele tem. Aqui existem por vezes semelhanças com o mano ciúme, sim: os outros são uns sortudos ou uns bandidos, a nós, que somos uns seres de luz coitados, nada nos é dado de mão beijada, etc. Semelhanças, apenas.
O ciúme é de outro campeonato. Os campeões têm ciúme até de gatos ou de pessoas da televisão. O ciúme sexual ou amoroso, o mais famoso, é básico, é para amadores, nem lhe vou dar espaço. O rizoma, o que esculpe o ciúme, é um enorme vazio, desculpem o palavrão, gravitacional. Os ciumentos de lei são sociopatas sem nada dentro. Se por acaso se ligam a uma pessoa, só vivem através dela. A bem dizer ligam-se a várias pessoas, mas não se ligam a nenhuma. O vazio aspira tudo.
Os moralistas antigos não exportavam o seu exemplo pessoal, traçavam linhas mais largas. Caio Rufo, um estóico pouco conhecido (só ficaram fragmentos), entendia que os deuses puseram umas coisas sob nosso controlo e outras não. Sob o nosso controlo, dizia Rufo (fragmento 38), os deuses puseram a capacidade de usarmos a razão para sermos justos, bons e respeitadores. Fora do nosso controlo, os deuses deixaram tudo o resto. Tudo o resto que não controlamos deixa-nos a possibilidade de confiar no universo e ceder-lhe o que ele pedir: os nossos filhos, o nosso país, o nosso corpo. Isto não é para todos, muito menos para os ciumentos: não cedem nada, não esquecem nada.
O ciúme nem sequer é mau. Querer a atenção exclusiva do outro (pode ser uma filha, um amante, etc.) esbarra na realidade: por isso o ciumento consegue destruir a relação com o objecto que é suposto amar. Já a maldade é um artifício da sobrevivência. Ser mau significa não ter descoberto outra forma de conseguir o que se precisa. Pode ser para satisfazer uma necessidade ou um desejo. Por exemplo, uma dose de uma qualquer substância ou o amor de alguém que o quer dar a outro.
Os ciumentos, para serem maus, teriam de sentir desejo ou necessidade. Ora, o vazio não conhece nada disso.




