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Vivos-mortos – até que a vida nos repare?

Guardo da experiência várias cicatrizes, uma delas perfeitamente palpável. Lembro-me de que andava entretida com o meu primeiro ano de faculdade e que, até me encontrar naquela sala de espera, nunca me tinha passado pela cabeça outro destino que não fosse viver.

Quatro anos de licenciatura pela frente, um emprego com algum conforto financeiro a médio prazo, uma relação bem-amada, quatro filhos para superar a matemática da família nuclear, e, enquanto o futuro se construía em pensamentos, vi-me rodeada de tantos corpos despojados de Ser que os meus planos de vida ensombreceram de morte.

Ali, entre silêncios pesados e movimentos arrastados, as palavras do meu médico de família começavam a fazer sentido. “Não te assustes. Vou passar-te uma credencial para uma consulta no IPO”.

Segui a recomendação, não por obediência, mas por na altura ainda estar sedada pela ignorância de não fazer a menor ideia de que IPO significava Instituto Português de Oncologia, que por sua vez traduzia o que então era indizível: cancro.

Passei a reconhecer o acrónimo a partir do medo que senti. Menos da morte – certeza absoluta da nossa terrena existência – e mais do definhar em vida.
Assustei-me verdadeiramente com a violência degenerativa da doença, e reside aí uma quota-parte das cicatrizes emocionais gravadas nessa viagem.

Tinha 18 anos, e um caroço na mama esquerda obrigava-me a pensar na morte. Não na minha em concreto – porque sempre acreditei que estava ali para prevenir males maiores, convicção que a biópsia confirmou –, mas na morte lenta, agonizante, imposta por um diagnóstico incapacitante e/ou terminal.

O que faria nessa situação? Conservaria a capacidade de Ser, diante do desfalecer progressivo do meu corpo?

Espero nunca ter de descobrir. Sei, contudo, que num cenário desses gostaria de dispor do direito a uma morte digna.

Mas este texto não é sobre isso, nem sobre o meu desejo de que nenhum veto possa travar a liberdade do recurso à eutanásia.

 

A anestesia dos dias

Esta breve reflexão é sobre viver. Ainda temos energia para o fazer? Ou estamos tão habituados a sobreviver, movidos por automatismos, que já nem conseguimos perceber a diferença?

Penso nisso enquanto observo o frenesim nas ruas, sigo no ritmo acelerado dos dias, e absorvo o afã que nos anestesia. Por vezes – salvaguardadas as devidas diferenças – fico com a mesma sensação que me marcou na sala de espera do IPO: a de estar rodeada de corpos despojados de Ser.

Pergunto-me: como poderemos viver – em vez de apenas sobreviver – num mundo onde a produtividade é mais valorizada do que a nossa humanidade?

Matuto nesta ideia, quando, atrás de mim, algures entre disputas de espaço na carruagem de metro em que me encontro, uma voz especialmente audível me fura os pensamentos: “Tens de estudar para seres alguém na vida”. Viro-me com a missão de dar rosto àquela ‘frase mestra’ de tantas infâncias, mas esbarro num movimento desalinhado de corpos, agitado pelo abrir e fechar de portas que se seguiu.

Retomo o questionamento que tinha interrompido, ainda com aquela frase na cabeça: “Tens de estudar para seres alguém na vida”. Liberto-me dela com mais uma questão. Como esperar que a nossa sociedade seja humanizada se insistimos numa educação desumanizante?

O que significa ser alguém na vida? Porque é que continuamos a confundir Ser com Ter e Fazer?

Será que conseguimos dizer quem somos – e quem aspiramos ser – para além das profissões que exercemos, dos bens que possuímos, e dos lugares que ocupamos nas relações com os outros? O que fica quando estamos sós?

Acredito que viver pede essas e outras definições – ainda que nunca definitivas –, e não creio que seja possível avançar sem deixar cicatrizes. Ao mesmo tempo marcas de vida e de morte.

A que trago do lado esquerdo do peito, e que em tempos me condicionou na escolha do look de praia, não me deixa esquecer o diagnóstico de fibroadenoma. Já as que se camuflaram na pele, invisíveis, porém sensíveis, lembram-me dores que muitas vezes disfarcei de forças, por reconhecer nelas fragilidades.

Todas acabaram por voltar com maior intensidade, para me ensinar que viver também passa por aprender a deixar doer. E reconhecer que cada ciclo que não fechamos acaba por nos fechar, aos poucos e sem nos darmos conta, num descompasso de vivos-mortos. Até que a vida nos repare?

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