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Websummit

Encontrei-me com Cláudia Vilar[1] numa pequena vila do Oeste. Cheguei atrasada e veio ao meu encontro no seu corpo firme, de sorriso aberto. Cláudia é empregada de segunda. Ser empregada de mesa de 2ª categoria significa ter a responsabilidade de fazer o serviço de roda e servir os clientes, em espaço de restaurante. No caso de Cláudia, o trabalho é prestado no interior de uma unidade hoteleira de 5 estrelas. Além da “simpatia”, é requisito de um empregado de mesa de 2ª categoria “o saber trinchar (desossar e despinhar), conhecer as regras de serviço e protocolo, conhecimentos de vinhos, de bar, de cozinha, pastelaria e cafetaria, para além de ter de dominar pelo menos dois idiomas (um deles o inglês). Exigem-se ainda a um empregado de mesa todas as regras de educação, ética, discrição, cortesia, etc. que o bom senso deve fazer imperar, bem como o gosto por aquilo que se faz”. Esta é a descrição da categoria profissional publicada na revista Fórum Estudante, edição on-line.

Cláudia cresceu nos Olivais Sul, nos anos sessenta. O pai fazia manutenção de equipamentos em hotéis. A mãe, o trabalho doméstico. A escola não lhe ofereceu grandes estímulos, embora hoje se arrependa de ter interrompido os estudos. Nas suas palavras, uma das explicações para este seu desafeto pela escola é que “a tendência [dos professores] é sempre puxar por aqueles que já sabem que dão menos trabalho. Mas aqueles que sabem menos a matéria não são promovidos. Eu acho que percebi o que é um bom professor. Aquele que consegue ir buscar aqueles que não têm grande interesse e que se sentam nas cadeiras cá atrás, em vez de agarrar só aqueles que já têm o entusiasmo e o interesse.” Nesta sua explicação, imaginei o meu professor de Sociologia de Educação, o saudoso Sérgio Grácio, a roer-se de inveja com tão belo e claro resumo da teoria da reprodução social. Mas Cláudia não encontrou professores na forma deste ideal, e a saída da escola, no 9º ano, fez com que começasse a trabalhar cedo. Passou por tabacarias, trabalhinhos de balcão, recolha de garrafas, enfim, um pouco de tudo, um pouco faz-tudo. Esse faz-tudo foi, afinal, uma maneira de poder realizar o seu primeiro sonho dos tempos de juventude: ter uma mota, espécie de crachá da sua independência. Trabalhou, enfim, para juntar dinheiro e realizar esse sonho. E conseguiu. Num tom de riso sincero, confessou-me que nunca tinha perguntado se podia comprar uma mota porque iam dizer que ela era maluca. Então, apareceu já com ela comprada diante da família.

Cláudia casou com 22 anos e é mãe de quatro filhos. Divorciou-se passado poucos anos e criou os filhos sozinha. No início da vida de casada, Cláudia ingressou num hotel de 5 estrelas, na zona das avenidas novas, em Lisboa, para fazer formação e aprender a profissão de empregada de mesa. Antes tinha experimentado trabalhar na empresa do marido, mas cedo percebeu quanto essa dupla proximidade acentuava problemas e dependências na vida de casal. A formação hoteleira saciou os seus requisitos de então e as suas memórias de início de carreira são, afinal, felizes. Lisboa estava longe do boom turístico a que assistimos nos últimos anos do milénio, mas, nos anos 80, alguns hotéis ganhavam destaque e clientela internacional, e esse facto tinha uma interessante moeda de troca para os funcionários: o convívio com diferentes perfis de gestão e aprendizagens constantes, em especial no ramo da gastronomia internacional. Cláudia Vilar falou-me desses tempos com alguma nostalgia, uma vez que o seu trabalho se foi precarizando, em particular nos últimos tempos, não só em termos de um acumulado de horas de trabalho diário, mas também de uma acumulação de tarefas e requisitos de polivalência cada vez mais evidentes e frequentes, sem que esse poli-esforço tenha um manifesto crédito no valor do seu ordenado.

Em face de alguma insistência (bacoca) da minha parte, em perguntar sob o aspeto rotineiro e mecânico da sua vida profissional, como se quase todos os trabalhos não tivessem aspectos rotineiros, Cláudia Vilar contrapôs com uma manifestação corporal de nariz torcido e desagrado, mas também um reconhecimento de que a sua profissão é altamente desvalorizada. Tinha, é certo, consciência das rotinas, uma apurada noção da degradação das condições de trabalho, dos jogos de bastidores, da sobre-exploração do pessoal mais jovem. Mas tinha, também, um sense of pride, um orgulho em torno de uma competência crescente que a tornou uma das mais requisitadas, e cotadas, na função que exerce.

Aliás, Cláudia Vilar expressou-me, de novo com uma lógica cristalina, o sistema mecânico em que o seu trabalho assentava: “mesmo aquele parafuso que vai apertar, vai fazer com que as coisas funcionem, que às vezes basta estar desaparafusado, as coisas não funcionam. Portanto, todos fazemos parte da máquina, independentemente do empregado de mesa, se for rececionista, se for governanta, somos todos parte da máquina. Portanto, todos temos de ser respeitados e toda a gente tem que nos respeitar, todos os colegas entre todos, não é a das limpezas, ou a da copa, das mesas, não! Somos todos colegas. Isto do meu ponto de vista. E imagine só o simples facto de eu chegar com a bandeja à copa e deixar tudo de qualquer maneira. É nesse pormenor que eu costumo dizer que faz, às vezes, a diferença!”. Depois de ouvir a forma como esquematizava o seu sistema de trabalho perfeito, achei que, embora partindo do taylorismo, rapidamente o ponto da sua descrição era sobretudo o da não-hierarquização dos diferentes trabalhos no plano do que leva um organismo a funcionar.

Vem esta história resumida da vida e do trabalho de Cláudia Vilar, empregada de segunda, a propósito de uma entrevista que alguém da organização da Web Summit Lisboa deu à Antena 1, muito recentemente. Esse alguém, cujo nome não captei, defendeu o espírito do evento porque, no passado, quando íamos às escolas todos queriam ser uns coitadinhos, mas hoje vamos às escolas e todos queremos ser o Cristiano Ronaldo. Simplesmente fabuloso. Até eu fiquei galvanizada. Meu caro amigo organizador da Web Summit, cujo nome não conheço, queria dedicar-te umas palavras finais: “Eu também gostava de ser chairman(woman) de um hotel de 6 estrelas no Dubai. Acontece que, se nesse hotel não existirem pelo menos 6 ou 7 copeiros nas cozinhas situadas muito provavelmente dois pisos abaixo do solo, aqueles cujo trabalho diário é lavar a louça grossa e miúda que chega suja das refeições preparadas a 500 euros cada; ou, dito de outra forma, se o hotel não tiver um conjunto de trabalhadores que passa a maior parte dos seus turnos a lavar panelas gigantes horríveis (só não sabe que são horríveis e dificílimas de lavar quem nunca o fez), e todas as miudezas de loiças, tachos e talheres que possamos imaginar, podes crer que o chairman(woman) não vai conseguir ter o restaurante de hotel a funcionar, nem sequer o próprio Hotel. Resta saber, caro amigo, se achas que o Cristiano Ronaldo é, aqui, em sentido figurativo, o tipo do topo a quem irás convidar para palestrar do alto da sua refeição bem tomada num qualquer hotel ao lado do evento, ou se é quem lava o prato onde o chairman (woman) comeu, ganhando em troca um ordenado miserável para que o hotel possa ter lucros exorbitantes. Ou talvez devêssemos remunerar um copeiro sumptuosamente. Esses copeiros, como a Cláudia Vilar, empregada de mesa de 2ª categoria, que fará a roda e o serviço dos Cristianos que lá se sentarem, bem podiam ser convidados para a Web Summit Lisboa.

 

[1] Nome fictício.

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