Sociedade

O que é que é normal?
Ciências
Joana Sá

O que é que é normal?

Este texto é sobre normalidade, normalidade estatística e normatividade. Vem a propósito do dia internacional da mulher e das acusações de radicalismo que tendo a sofrer nesta altura por defender a igualdade. Tentarei argumentar que conceitos simples de estatística são úteis para compreender que a normatividade não é “natural”. No dia 15 de Julho de 1940, aos 22 anos de idade, morria nos EUA Robert Wadlow, o homem mais alto do mundo. Por causa de

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Rever  <i>O Mundo do Silêncio</i>
Ciências
Gonçalo Calado

Rever O Mundo do Silêncio

Há muito que mergulho com uma garrafa de ar comprimido às costas, mas ainda me lembro da primeira vez que respirei por uma na gelada piscina dos bombeiros de Lisboa. Num primeiro instante mais a medo, pois até esse dia sempre bloqueara a respiração para imergir, mas logo veio a festa: “agora ninguém me para!”. E não parou. Esse poderoso aparelho, a que chamamos escafandro autónomo, foi uma daquelas invenções da Segunda Guerra Mundial: Émile

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Simpatia inacabada #5
Literatura
Alda Rodrigues

Simpatia inacabada #5

Problemas de tradução (2) Tradutor: imitador; falsário; traidor; criatura abnegada e generosa que cultiva o apagamento. Se incluísse uma entrada dedicada aos tradutores num novo Dicionário das Ideias Feitas, um Flaubert dos tempos modernos teria muito que tomar em consideração. Há séculos de lugares-comuns sobre tradução literária. Estes chavões obscurecem a prática, em vez de a descreverem correctamente, e têm contribuído para a desvalorização e o apagamento do trabalho dos tradutores. Para alguém que começa

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A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3
Sociedade
Luisa Semedo

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

Nota Introdutória. A (cont.)   Ali, Mohammed   “Não, eu não vou a 10 000 milhas de casa para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para continuar a dominação dos senhores de escravos brancos sobre pessoas mais escuras no mundo.” Mohammed Ali   Num trabalho com os meus alunos sobre figuras importantes da desobediência civil ou de resistência e luta pelos Direitos Humanos, por entre os Martin Luther Kings, Nelson Mandelas, Gandhis

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Marialvas ou Libertinos?
Cinema e Audiovisual
Paulo Pinto

Ancient guilty apocalyptical pleasure

Foi com entusiasmo juvenil que me pus, há semanas, um pouco antes da bronca das partilhas de conta da Netflix, a ver o mais recente frisson de fast-food “histórica” (muito idêntica à original, isto é, gordurosa, nada nutritiva, cheia de emulsionantes e intensificadores de sabor, mas que devoramos avidamente e inundados de guilty pleasure): a série Ancient Apocalypse. Para quem não esteja bem a ver do que se trata, adianto que é uma série da

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Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Sociedade
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

We’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their house and look in for a change. – Stella, Rear Window (1954).     Podes fechar a janela? Um pouco mais? Pergunto-te, muda, com um movimento breve de olhos, acreditando em poderes telepáticos, teus, que ainda não mencionaste mas decerto possuis. Pareces anuir a cabeça, mas era um pássaro que parecia dirigir-se à carruagem. Presságios? Recordo-me da pomba morta

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A varanda da Maianga
Boa Vida
Marta Lança

A varanda da Maianga

1. “Sete e Meio”, assim ficou conhecido o apartamento na Maianga, em Luanda onde, entre 2005 e 2007, morei com artistas angolanos, Orlando, Kiluanji, Ihosvanny, Yonamine, Francisca e o bebé Njamy, os mais perenes, outros em temporadas de média duração[1]. Ficava num sétimo andar (e meio), num prédio de arquitetura moderna, semelhante aos edifícios da Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa, mas degradado pela passagem do tempo e negligente manutenção. Bem localizado, dali podíamos

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O ciúme, autópsia breve
Ciências
Filipe Nunes Vicente

O ciúme, autópsia breve

A irmã do ciúme, a inveja, é muito mal vista (tanto quanto popular), mas não chega aos calcanhares do mano. In videre, ver demais. Dante, no canto oitavo do Purgatório, cose os olhos (as pálpebras) aos invejosos que ficam como os falcões (com os olhos tapados antes de serem largados na caça).   Ché a tutti un fil de ferro i cigli fóra E cusce sì, come a sparvier selvaggio   A inveja é chata,

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<i>O Caso Manguel</i>
Literatura
João Pedro George

O Caso Manguel

Regressemos à “Operação Manguel”, o eruditíssimo (dizem-me, quem sou eu para o desmentir) escritor, ensaísta, editor e tradutor nascido em 1948, em Buenos Aires. Que sabemos nós ao certo, hoje, sobre a doação à Câmara Municipal de Lisboa (CML) dos 40 mil livros da biblioteca do argentino e a criação do Centro de Estudos da História da Leitura? Agitemos o sonolento passado recente, reavivemos o fluxo de alguns acontecimentos. A ideia de trazer a biblioteca

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A literatura tem de ser um gatinho fofo?
Literatura
Ana Bárbara Pedrosa

A literatura tem de ser um gatinho fofo?

De repente, o maior perigo que a literatura tem é o de ofender. Noutros tempos, temia-se que não servisse para nada – não no sentido de não ser funcional, instrumental, numa sociedade, mas no de poder não criar impacto. Escrever e não criar um baque, eis o que aterrorizava quem se dedicava à incompreensível mania de inventar histórias. Mas então chegou o século XXI, e com ele, em simultâneo, o medo das palavras e o

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O que é que é normal?

O que é que é normal?

Este texto é sobre normalidade, normalidade estatística e normatividade. Vem a propósito do dia internacional da mulher e das acusações de radicalismo que tendo a sofrer nesta altura por defender a igualdade. Tentarei argumentar que conceitos simples de estatística são úteis para compreender que a normatividade não é “natural”. No

Rever  <i>O Mundo do Silêncio</i>

Rever O Mundo do Silêncio

Há muito que mergulho com uma garrafa de ar comprimido às costas, mas ainda me lembro da primeira vez que respirei por uma na gelada piscina dos bombeiros de Lisboa. Num primeiro instante mais a medo, pois até esse dia sempre bloqueara a respiração para imergir, mas logo veio a

Simpatia inacabada #5

Simpatia inacabada #5

Problemas de tradução (2) Tradutor: imitador; falsário; traidor; criatura abnegada e generosa que cultiva o apagamento. Se incluísse uma entrada dedicada aos tradutores num novo Dicionário das Ideias Feitas, um Flaubert dos tempos modernos teria muito que tomar em consideração. Há séculos de lugares-comuns sobre tradução literária. Estes chavões obscurecem

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

Nota Introdutória. A (cont.)   Ali, Mohammed   “Não, eu não vou a 10 000 milhas de casa para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para continuar a dominação dos senhores de escravos brancos sobre pessoas mais escuras no mundo.” Mohammed Ali   Num trabalho com os

Marialvas ou Libertinos?

Ancient guilty apocalyptical pleasure

Foi com entusiasmo juvenil que me pus, há semanas, um pouco antes da bronca das partilhas de conta da Netflix, a ver o mais recente frisson de fast-food “histórica” (muito idêntica à original, isto é, gordurosa, nada nutritiva, cheia de emulsionantes e intensificadores de sabor, mas que devoramos avidamente e

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

We’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their house and look in for a change. – Stella, Rear Window (1954).     Podes fechar a janela? Um pouco mais? Pergunto-te, muda, com um movimento breve de olhos, acreditando em poderes telepáticos, teus,

A varanda da Maianga

A varanda da Maianga

1. “Sete e Meio”, assim ficou conhecido o apartamento na Maianga, em Luanda onde, entre 2005 e 2007, morei com artistas angolanos, Orlando, Kiluanji, Ihosvanny, Yonamine, Francisca e o bebé Njamy, os mais perenes, outros em temporadas de média duração[1]. Ficava num sétimo andar (e meio), num prédio de arquitetura

O ciúme, autópsia breve

O ciúme, autópsia breve

A irmã do ciúme, a inveja, é muito mal vista (tanto quanto popular), mas não chega aos calcanhares do mano. In videre, ver demais. Dante, no canto oitavo do Purgatório, cose os olhos (as pálpebras) aos invejosos que ficam como os falcões (com os olhos tapados antes de serem largados

<i>O Caso Manguel</i>

O Caso Manguel

Regressemos à “Operação Manguel”, o eruditíssimo (dizem-me, quem sou eu para o desmentir) escritor, ensaísta, editor e tradutor nascido em 1948, em Buenos Aires. Que sabemos nós ao certo, hoje, sobre a doação à Câmara Municipal de Lisboa (CML) dos 40 mil livros da biblioteca do argentino e a criação

A literatura tem de ser um gatinho fofo?

A literatura tem de ser um gatinho fofo?

De repente, o maior perigo que a literatura tem é o de ofender. Noutros tempos, temia-se que não servisse para nada – não no sentido de não ser funcional, instrumental, numa sociedade, mas no de poder não criar impacto. Escrever e não criar um baque, eis o que aterrorizava quem