PARAÍSO – PROGRESSO – LIBERDADE DE EXPRESSÃO – FUTURO – PUROS
VERDADE
O velho Adão que há em nós continua a fazer das suas. De maçã na boca, tornou-se um dos habitantes mais obscenos do Paraíso, obcecado com a mínima manifestação da juventude feminina. A serpente, Adão apertou-a pelo pescoço e usa a sua pele como cinto ou como um colar, mas só quando sai à noite. O jardim do Paraíso, esse está plano como nunca, e aquela montanha de oliveiras velhas, ao fundo, é um disfarce, a parte de cima de um aterro sanitário. Por baixo estão garrafas que vão durar um ou dois milhões de anos, pelo menos, isto se houver no plástico tanta paciência.
PROGRESSO
A palavra Progresso já não é o que era. Antigamente trazia-a no cabelo lavado com champô, ou no interior das meias novas. Esses tempos não voltam mais. A palavra Progresso agora tem a força adolescente dos materiais de construção e da publicidade. Progresso é a marca de uma máquina de lavar, de uma bolacha com chocolate a mais. Eu mesmo, desisti de chamar à minha filha Progresso. Era isso ou Ana. Decidi-me por Ana. Estou contente. Os eletrodomésticos e a comida têm o nome de Felicidade, Tolerância, Progresso e Atenção ao Contribuinte. As novas tecnologias são maravilhosas, são melhores que números. Há notícias de casais a desistir de ter filhos para viver em habitações radicalmente confortáveis. A carpete chama-se Atenção ao Meio Ambiente e a pele do tigre, no meio da sala, onde é tão bom pousar os pés descalços, chama-se Calor Humano.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
A Liberdade de Expressão agora vive no sótão. É uma velha senhora, mas o sexo não é importante. O espaço é pequeno, sala e cozinha, mas a Liberdade de Expressão está agradecida por a deixarem envelhecer assim, no lugar onde trabalhou como porteira. Os condóminos vivem vidas muito ocupadas, é natural que não a visitem, embora falem dela ao jantar. Por vezes ouvem-se ruídos, gritos, mas ninguém acredita que seja a Liberdade de Expressão a gritar, preferem pensar que são gritos na América Latina. É incómodo explicar às crianças porque gritam assim os velhos. O confinamento mudou tudo, ou alguma coisa. Uma mulher jovem leva sopa quente à Liberdade de Expressão, todos os dias. É uma boa ação, é um humanismo. A mulher pousa sopa na soleira da porta e desce antes de poder ouvir o obrigado sussurrado da senhora Liberdade de Expressão. À noite ouvem-se gritos. Gritos seguidos de explicações às crianças pequenas.
FUTURO
O Futuro é muito importante para nós. O Futuro é uma raposa que fala, o Futuro é uma nave espacial. Os políticos falam de acelerar o Futuro, o Futuro é onde vamos viver, o Futuro lava mais branco. Ninguém conhece exatamente a sua forma, o Futuro pode ser um cavalo, o Futuro tem a forma de uma lebre gorda, pendurada de cabeça para baixo, esfolada e fria, preparada para o jantar. No passado, muita gente foi assassinada em nome do Futuro. Homens de gabardine cinzenta anunciavam “finalmente, o Futuro encontrou-te”, antes de acabarem o serviço. Homens sérios, criminosos, czares, meninas de todas as idades, morreu demasiada gente em nome do Futuro mas não é possível confirmar porque, dizem-nos, porque isto passou-se há demasiado tempo.
PUROS
Somos os Puros, os virtuosos, os filhos da certeza, atentos à humanidade e amigos dos animais. Já tínhamos saudades de nós. Reencarnamos facilmente. Já fomos os espectadores do meio, os mais calados, entusiasmados com a fogueira. Já fomos os soldados distraídos a apertar o gatilho, já fomos os leões e os cães, alegrados pelos aplausos da burguesia romana no espetáculo. Repito, já fomos os cães. Repito, reencarnamos facilmente. Temos força, temos purezas e raivas. Temos razão.




