Mascaras

Pessoa – a Primeira ou a Terceira

A escolha da voz deve ser o maior desafio de quem se prepara para mergulhar numa narrativa longa. Ali, está grande parte do que o romance poderá vir a ser: a primeira pessoa é tecnicamente mais fácil, a terceira mais desafiante; a primeira é mais íntima, a terceira mais abrangente.

Quem escreve na terceira pessoa pode pôr o narrador com rasgos aleatórios sem ter de os explicar. Pode surgir a palavra «sinalagmático», pode aparecer uma referência a Ruy Coelho. Na primeira, só se pode escrever «sinalagmático» se ficar claro para o leitor o motivo pelo qual o narrador conhece a palavra, e só se pode falar de Ruy Coelho se fizer sentido que o narrador o conheça. Se a personagem sai do tasco, um Michel Teló sai melhor no texto.

Assim, escrever na primeira pessoa implica um trabalho de depuração absoluta. Aqui, entra a depuração de um mundo, tendo o autor de fazer uma circunscrição mental do que seria o universo de quem narra (frequentemente, isto implica o estudo de um mundo com que não se está familiarizado, que tanto pode ser maniento como popular – ou seja, pode implicar estudar calão) e tendo de se assumir que a utilização dos recursos técnicos não terá toda a liberdade. Pelo contrário, é preciso criar uma forma de falar consonante com a voz que fala. Isto implica ter de se abdicar de boas frases e boas ideias, de circunscrever o vocabulário e, por vezes, de limitar a narrativa. Não dá para mostrar k, x e y se o narrador só consegue ter acesso a k. A credibilidade tem de se impor ao que dava jeito meter na narrativa.

Como é preciso a adaptação a uma cabeça – tantas vezes ridícula, tantas vezes torpe, tantas vezes vil –, é preciso mandar ao ar qualquer vaidade autoral, não deixar que uma queda para a erudição estrague tudo. Para além disso, ao confinar-se a uma só visão, o autor tem de fazer um exercício que lhe permita a extrapolação dessa cabeça, roubando o desconcerto à vida. No meio, convém ainda que o leitor acredite no narrador, mesmo que não acredite na veracidade do que diz. É tudo muito simples, pois não? Pelo menos, tecnicamente a coisa é mais fácil, até porque é tortuoso, na terceira pessoa, ter de meter na prosa as indicações quase à didascália: «O Manel achava que, a Maria sentia que etc., Parecia a Sua Excelência óbvio».

Para além disso, a utilização das formas verbais na terceira pessoa obriga a uma repetição constante, e o trabalho de limar isto é muitos dias do juízo. Se o narrador é A e está a comentar com B os jogos do Mundial, a forma verbal explica tudo: «reclamei», «enfureceu-se». Se o narrador não é nenhum daqueles, antes de se pôr «reclamou» ou «enfureceu-se», tem de se explicitar o sujeito. Parece coisa simples, mas aguentar uma narrativa longa assim exige destreza de mão e implica a repetição constante dos nomes dos sujeitos ou a escrita dos pronomes. Aconselho a experiência a quem julgar que não. A coisa parecerá escorreita, mas depois o texto terá uma overdose de «o Manel», «a Maria», «Sua Excelência», «ele», «ela», «Sua Graça», e a pós-edição irá soar a escultura, escrutinando onde será possível matar essas gorduras.

Na primeira pessoa, o texto sai mais limpo. E o leitor tem a sorte de estar logo dentro de uma cabeça a ver a cena à volta, ao invés de estar por cima, longe dela, quase como quem não lhe pertence. Um bom exemplo disto – e desengane-se quem achava que eu vinha para aqui com haute culture, Homeros e Joyces – é o romance Tu, de Caroline Kepnes. Admito-o sem vergonhas: foi uma maravilha ser um maluquinho da cabeça a achar que matar gente nem era assim tão mau.

Dificuldades metodológicas é o que sobra de um lado e de outro, e no meio disto há que pesar o alcance do romance. Como não há fórmulas mágicas, não admira a ninguém que os escritores sejam gente às aranhas, não raras vezes inaptos para a vida, obcecados com assuntos que não interessam a ninguém, nem que acordem torturados pela obsolescência da utilização do ponto e vírgula.

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