Nº 5 – Março 2023

Teatro Cósmico #5
Artes Performativas
José Maria Vieira Mendes

Teatro Cósmico #5

Parem de nos salvar Num muro junto à Praça do Chile, em Lisboa, alguém escreveu: “Parem de nos salvar. Ass.: Golfinhos”. Associo esta frase a um episódio que um camarada das artes performativas, o André e. Teodósio, me contou. Por altura da estreia do seu espetáculo, que se chamava Metanoite (Fundação Calouste Gulbenkian, 2007), um espectador cruzou-se com ele no final e comentou: “Gostei muito, é desafiante, super experimental, acho muito bem, mas olha…” (e

Ler »
Rever  <i>O Mundo do Silêncio</i>
Ciências
Gonçalo Calado

Rever O Mundo do Silêncio

Há muito que mergulho com uma garrafa de ar comprimido às costas, mas ainda me lembro da primeira vez que respirei por uma na gelada piscina dos bombeiros de Lisboa. Num primeiro instante mais a medo, pois até esse dia sempre bloqueara a respiração para imergir, mas logo veio a festa: “agora ninguém me para!”. E não parou. Esse poderoso aparelho, a que chamamos escafandro autónomo, foi uma daquelas invenções da Segunda Guerra Mundial: Émile

Ler »
Impressões a partir de <i>Ramiro</i>
Artes Visuais
Lia Ferreira

Impressões a partir de Ramiro

Graças a um comentário não sei de quem, a não sei que post de outrem que não retive, soube que a RTP2 tinha – em boa hora – passado cedo e a más horas (5 e tal da manhã!) o filme Ramiro (2017) de Manuel Mozos, que há muito acumulo na minha listinha de filmes “para ver mais tarde”, no Filmin. Não foi tarde, nem foi cedo, sentei-me e vi-o, através das gravações automáticas da

Ler »
Simpatia inacabada #5
Literatura
Alda Rodrigues

Simpatia inacabada #5

Problemas de tradução (2) Tradutor: imitador; falsário; traidor; criatura abnegada e generosa que cultiva o apagamento. Se incluísse uma entrada dedicada aos tradutores num novo Dicionário das Ideias Feitas, um Flaubert dos tempos modernos teria muito que tomar em consideração. Há séculos de lugares-comuns sobre tradução literária. Estes chavões obscurecem a prática, em vez de a descreverem correctamente, e têm contribuído para a desvalorização e o apagamento do trabalho dos tradutores. Para alguém que começa

Ler »
Joana d’Arques, a shock jock em lume brando
Artes Performativas
Afonso Madeira Alves

Joana d’Arques, a shock jock em lume brando

Na América, por volta das duas da tarde de um tempo que por cá passava da hora, um homem adulto indignou-se. A causa da sua indignação entrara-lhe com estrondo pelo rádio do carro que conduzia, torturando-lhe o filho adolescente, amarrado ao banco pelo cinto de segurança. De pouco lhes valendo o aviso prévio do conteúdo potencialmente ofensivo que se seguia, palavras foram ouvidas, todas ditas num único fôlego, brutalmente encadeadas como uma combinação de Sugar

Ler »
A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3
Sociedade
Luisa Semedo

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

Nota Introdutória. A (cont.)   Ali, Mohammed   “Não, eu não vou a 10 000 milhas de casa para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para continuar a dominação dos senhores de escravos brancos sobre pessoas mais escuras no mundo.” Mohammed Ali   Num trabalho com os meus alunos sobre figuras importantes da desobediência civil ou de resistência e luta pelos Direitos Humanos, por entre os Martin Luther Kings, Nelson Mandelas, Gandhis

Ler »
Marialvas ou Libertinos?
Cinema e Audiovisual
Paulo Pinto

Ancient guilty apocalyptical pleasure

Foi com entusiasmo juvenil que me pus, há semanas, um pouco antes da bronca das partilhas de conta da Netflix, a ver o mais recente frisson de fast-food “histórica” (muito idêntica à original, isto é, gordurosa, nada nutritiva, cheia de emulsionantes e intensificadores de sabor, mas que devoramos avidamente e inundados de guilty pleasure): a série Ancient Apocalypse. Para quem não esteja bem a ver do que se trata, adianto que é uma série da

Ler »
Pastagem rotacionada
Artes Performativas
Álvaro Domingues

Pastagem rotacionada

Personagens: 5 ovelhas adultas e duas crianças Época e lugar: Inverno num lugar que já foi outro   Ovelha malhada (distraída a roer erva): Que viemos aqui fazer? Ovelha mais ao fundo (compenetrada no comer): Não faço a mínima ideia. Continua a comer que está ali alguém a fotografar. Se te perguntarem alguma coisa, diz mé com um bocadinho de vibrato, pouco. Ovelha malhada (sem parar de roer erva escassa):  Mé é o que habitualmente

Ler »
Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Sociedade
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

We’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their house and look in for a change. – Stella, Rear Window (1954).     Podes fechar a janela? Um pouco mais? Pergunto-te, muda, com um movimento breve de olhos, acreditando em poderes telepáticos, teus, que ainda não mencionaste mas decerto possuis. Pareces anuir a cabeça, mas era um pássaro que parecia dirigir-se à carruagem. Presságios? Recordo-me da pomba morta

Ler »
A varanda da Maianga
Boa Vida
Marta Lança

A varanda da Maianga

1. “Sete e Meio”, assim ficou conhecido o apartamento na Maianga, em Luanda onde, entre 2005 e 2007, morei com artistas angolanos, Orlando, Kiluanji, Ihosvanny, Yonamine, Francisca e o bebé Njamy, os mais perenes, outros em temporadas de média duração[1]. Ficava num sétimo andar (e meio), num prédio de arquitetura moderna, semelhante aos edifícios da Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa, mas degradado pela passagem do tempo e negligente manutenção. Bem localizado, dali podíamos

Ler »
Teatro Cósmico #5

Teatro Cósmico #5

Parem de nos salvar Num muro junto à Praça do Chile, em Lisboa, alguém escreveu: “Parem de nos salvar. Ass.: Golfinhos”. Associo esta frase a um episódio que um camarada das artes performativas, o André e. Teodósio, me contou. Por altura da estreia do seu espetáculo, que se chamava Metanoite

Rever  <i>O Mundo do Silêncio</i>

Rever O Mundo do Silêncio

Há muito que mergulho com uma garrafa de ar comprimido às costas, mas ainda me lembro da primeira vez que respirei por uma na gelada piscina dos bombeiros de Lisboa. Num primeiro instante mais a medo, pois até esse dia sempre bloqueara a respiração para imergir, mas logo veio a

Impressões a partir de <i>Ramiro</i>

Impressões a partir de Ramiro

Graças a um comentário não sei de quem, a não sei que post de outrem que não retive, soube que a RTP2 tinha – em boa hora – passado cedo e a más horas (5 e tal da manhã!) o filme Ramiro (2017) de Manuel Mozos, que há muito acumulo

Simpatia inacabada #5

Simpatia inacabada #5

Problemas de tradução (2) Tradutor: imitador; falsário; traidor; criatura abnegada e generosa que cultiva o apagamento. Se incluísse uma entrada dedicada aos tradutores num novo Dicionário das Ideias Feitas, um Flaubert dos tempos modernos teria muito que tomar em consideração. Há séculos de lugares-comuns sobre tradução literária. Estes chavões obscurecem

Joana d’Arques, a shock jock em lume brando

Joana d’Arques, a shock jock em lume brando

Na América, por volta das duas da tarde de um tempo que por cá passava da hora, um homem adulto indignou-se. A causa da sua indignação entrara-lhe com estrondo pelo rádio do carro que conduzia, torturando-lhe o filho adolescente, amarrado ao banco pelo cinto de segurança. De pouco lhes valendo

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

A Maravilhosa Aritmética da Igualdade (de A a Z) #3

Nota Introdutória. A (cont.)   Ali, Mohammed   “Não, eu não vou a 10 000 milhas de casa para ajudar a matar e queimar outra nação pobre simplesmente para continuar a dominação dos senhores de escravos brancos sobre pessoas mais escuras no mundo.” Mohammed Ali   Num trabalho com os

Marialvas ou Libertinos?

Ancient guilty apocalyptical pleasure

Foi com entusiasmo juvenil que me pus, há semanas, um pouco antes da bronca das partilhas de conta da Netflix, a ver o mais recente frisson de fast-food “histórica” (muito idêntica à original, isto é, gordurosa, nada nutritiva, cheia de emulsionantes e intensificadores de sabor, mas que devoramos avidamente e

Pastagem rotacionada

Pastagem rotacionada

Personagens: 5 ovelhas adultas e duas crianças Época e lugar: Inverno num lugar que já foi outro   Ovelha malhada (distraída a roer erva): Que viemos aqui fazer? Ovelha mais ao fundo (compenetrada no comer): Não faço a mínima ideia. Continua a comer que está ali alguém a fotografar. Se

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

We’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their house and look in for a change. – Stella, Rear Window (1954).     Podes fechar a janela? Um pouco mais? Pergunto-te, muda, com um movimento breve de olhos, acreditando em poderes telepáticos, teus,

A varanda da Maianga

A varanda da Maianga

1. “Sete e Meio”, assim ficou conhecido o apartamento na Maianga, em Luanda onde, entre 2005 e 2007, morei com artistas angolanos, Orlando, Kiluanji, Ihosvanny, Yonamine, Francisca e o bebé Njamy, os mais perenes, outros em temporadas de média duração[1]. Ficava num sétimo andar (e meio), num prédio de arquitetura