Sociedade

Princípios de genealogia
Literatura
Francisco José Viegas

Princípios de genealogia

Explica-se a coisa com alguma facilidade. Há um problema geracional contra o qual não há nada a fazer. O Dr. A foi guitarra-baixo (uma Fender vermelha) numa banda de garagem que animava bailes nos arredores de S. João do Estoril. Era primo de C, que frequentava um grupo de Belém onde se reuniam D, B, E e F. Bom: F era uma estudante de germânicas, irmã de G, baterista da banda. O que aconteceu foi isto: entre

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Teatro Cósmico #4
Artes Performativas
José Maria Vieira Mendes

Teatro Cósmico #4

Andar e cair Quando uma criança cai desamparada na rua (e é frequente as crianças caírem), logo um adulto prestável estende o braço para a levantar, os pais correm para a libertar do chão e a criança atarantada mostra no olhar uma espécie de incompreensão perante a movimentação e a rapidez da reação crescida. Não a deixam estar no chão, deitada, porque a prostração é sinal de dor, de incapacidade ou de vergonha. Reza a

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Não Sei (Mas…)
Ciências
Joana Sá

O Maravilhoso Potencial da Inutilidade

Tinha este texto “na gaveta”, mas acaba de ser anunciada uma possível fusão entre o Instituto Gulbenkian de Ciência, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o Instituto de Medicina Molecular, da Universidade de Lisboa. A ideia, dizem-me, é criar o maior instituto de ciências da vida da Península Ibérica, com uma forte componente biomédica e ligação ao Hospital de Santa Maria. Uma vez que esta fusão surge na sequência de uma série de outras decisões políticas

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Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)
Artes Visuais
José Ferreira Fernandes

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Eu tinha 50 anos quando chegaram os telemóveis. Demasiado tarde. É certo, além de telecomunicar, eles vinham com uma fantástica rede de informações e passei a ir menos ao arquivo do jornal para saber como escrever: Khrushchev ou Khrushchov, Yeltsin ou Iéltsin? Vantagem que não era grande coisa porque naquela altura o senhor da Rússia passou a chamar-se Putin, perpétuo de cargo e nome fácil de memorizar. É certo também, sendo aparelho sem fio, que

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Crónica
Literatura
Inês Brasão

Crónica

Quando eu andava na escola primária, subia a Rua Arquiteto Paulino Montez e despedia-me da Cláudia um pouco antes de chegar a casa. Não éramos bem vizinhas, porta a porta, mas quase. A Cláudia era irmã do Albertino e de mais três irmãs.  A casa era de esquina e tinha um pátio gigante. Naqueles tempos, era um pátio gigante, mas há dias passei por ele e pareceu-me minúsculo. O Albertino, seu irmão, fez-se Beto. Assim

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Serotonina: uma história física e moral *
Ciências
Vasco M. Barreto

Serotonina: uma história física e moral *

Primeira parte Somos compostos por milhares de moléculas diferentes. Mas se pedirmos a alguém na rua que enumere todas as moléculas que conhece existentes no corpo humano, talvez essa pessoa não chegue às três dezenas. Eis uma lista possível: água, oxigénio, dióxido de carbono, colesterol, triglicerídeos, colagénio, glucose, ADN, ARN, hemoglobina, anticorpos, pepsina, melanina, ATP, dopamina, adrenalina, testosterona, progesterona e estrogénio, oxitocina, várias vitaminas e poucas mais. Nas últimas décadas, uma das moléculas a ter

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“Quem vendeu a minha pátria?”
Sociedade
Marta Lança

“Quem vendeu a minha pátria?”

1. A certa altura do governo Sócrates, por via das robustas bolsas INOV-Art*, houve debandada de jovens do setor cultural. Como o país não tinha (tempo verbal hesitante) muito para oferecer a esta gente, a atriz Beatriz Batarda esteve bem quando, no lançamento oficial do programa, aconselhou os bolseiros: “Vão e não voltem”. Então, de Nova Iorque ao Cairo, em versão culti do programa “Os Portugueses no Mundo”, ei-los que partiam novos, e de facto

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0,71 — Ela entrou e disse: “Tu usas fuck-me shoes?!”
Artes Visuais
Bárbara Reis

0,71 — Ela entrou e disse: “Tu usas fuck-me shoes?!”

Os sapatos vermelhos são uma coisa nos pés de uma menina e outra completamente diferente nos pés de uma mulher. Aos cinco anos, são a melhor escolha para ir a uma festa de família ou à Missa do Galo. A partir dos 20, roçam o mau gosto. Se forem de salto alto, são provocadores. Se forem de salto-agulha — os stiletto —, abre-se a porta do herético. Chegados aqui, há duas possibilidades: se a mulher

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Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu
Literatura
Filipe Nunes Vicente

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Figura incontornável da pós-modernização portuguesa. Lisboeta de pouso, nascida no Ribatejo (Santarém, 1961) e em berço fidalgo, cedo arregaçou as mangas. Foi para Londres estudar arte de rua e de instalação com apenas dezoito anos.  Ungida desde cedo com preocupações sociais, recusou candidatar-se a bolsa ou sequer receber ordenado. Numa entrevista à revista K, conduzida por Rui Zink (1991), explicou: ”Com tantos desempregados e imigrantes, não creio ter o direito de roubar o pão a quem dele precisa” (as citações

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Weimar #6
Literatura
José Gardeazabal

Weimar #6

ALTARZINHO – MENTIRA – ANDAR A PÉ – ÓRGÃOS – TRABALHO DIGNO   ALTARZINHO A ideia de um Altarzinho acabou por fazer o seu caminho. Agradava a todos. Longe iam os dias em que o altar era uma nave suspensa num palco imenso, longe iam as plataformas no céu, para sentar os dignitários políticos e espirituais, longe as cascatas povoadas por peixes vermelhos chegados do Japão, longe as bailarinas seminuas, sincronizadas e louras ao som

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Princípios de genealogia

Princípios de genealogia

Explica-se a coisa com alguma facilidade. Há um problema geracional contra o qual não há nada a fazer. O Dr. A foi guitarra-baixo (uma Fender vermelha) numa banda de garagem que animava bailes nos arredores de S. João do Estoril. Era primo de C, que frequentava um grupo de Belém onde se

Teatro Cósmico #4

Teatro Cósmico #4

Andar e cair Quando uma criança cai desamparada na rua (e é frequente as crianças caírem), logo um adulto prestável estende o braço para a levantar, os pais correm para a libertar do chão e a criança atarantada mostra no olhar uma espécie de incompreensão perante a movimentação e a

Não Sei (Mas…)

O Maravilhoso Potencial da Inutilidade

Tinha este texto “na gaveta”, mas acaba de ser anunciada uma possível fusão entre o Instituto Gulbenkian de Ciência, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o Instituto de Medicina Molecular, da Universidade de Lisboa. A ideia, dizem-me, é criar o maior instituto de ciências da vida da Península Ibérica, com uma

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Desesperadamente à procura de um telemóvel em 1950 (+ -)

Eu tinha 50 anos quando chegaram os telemóveis. Demasiado tarde. É certo, além de telecomunicar, eles vinham com uma fantástica rede de informações e passei a ir menos ao arquivo do jornal para saber como escrever: Khrushchev ou Khrushchov, Yeltsin ou Iéltsin? Vantagem que não era grande coisa porque naquela

Crónica

Crónica

Quando eu andava na escola primária, subia a Rua Arquiteto Paulino Montez e despedia-me da Cláudia um pouco antes de chegar a casa. Não éramos bem vizinhas, porta a porta, mas quase. A Cláudia era irmã do Albertino e de mais três irmãs.  A casa era de esquina e tinha

Serotonina: uma história física e moral *

Serotonina: uma história física e moral *

Primeira parte Somos compostos por milhares de moléculas diferentes. Mas se pedirmos a alguém na rua que enumere todas as moléculas que conhece existentes no corpo humano, talvez essa pessoa não chegue às três dezenas. Eis uma lista possível: água, oxigénio, dióxido de carbono, colesterol, triglicerídeos, colagénio, glucose, ADN, ARN,

“Quem vendeu a minha pátria?”

“Quem vendeu a minha pátria?”

1. A certa altura do governo Sócrates, por via das robustas bolsas INOV-Art*, houve debandada de jovens do setor cultural. Como o país não tinha (tempo verbal hesitante) muito para oferecer a esta gente, a atriz Beatriz Batarda esteve bem quando, no lançamento oficial do programa, aconselhou os bolseiros: “Vão

0,71 — Ela entrou e disse: “Tu usas fuck-me shoes?!”

0,71 — Ela entrou e disse: “Tu usas fuck-me shoes?!”

Os sapatos vermelhos são uma coisa nos pés de uma menina e outra completamente diferente nos pés de uma mulher. Aos cinco anos, são a melhor escolha para ir a uma festa de família ou à Missa do Galo. A partir dos 20, roçam o mau gosto. Se forem de

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Da série personagens esquecidas de Portugal (1): Eduarda D’Orey e Abreu

Figura incontornável da pós-modernização portuguesa. Lisboeta de pouso, nascida no Ribatejo (Santarém, 1961) e em berço fidalgo, cedo arregaçou as mangas. Foi para Londres estudar arte de rua e de instalação com apenas dezoito anos.  Ungida desde cedo com preocupações sociais, recusou candidatar-se a bolsa ou sequer receber ordenado. Numa entrevista à revista

Weimar #6

Weimar #6

ALTARZINHO – MENTIRA – ANDAR A PÉ – ÓRGÃOS – TRABALHO DIGNO   ALTARZINHO A ideia de um Altarzinho acabou por fazer o seu caminho. Agradava a todos. Longe iam os dias em que o altar era uma nave suspensa num palco imenso, longe iam as plataformas no céu, para