Nº 1 – Novembro 2022

«Estudo de nu masculino», Desenho académico, grafite com toques brancos (entre 1750 e 1799), Biblioteca Nacional Digital.
Filosofia e História
André Canhoto Costa

Marialvas ou Libertinos?

As guerras culturais e o romance sobre o século XVIII I – O Estado da Arte 1.   A revolta contra a domesticação do género masculino foi uma das obsessões do romantismo. Ao longo do século XX, por razões evidentes, mas pouco exploradas, a esmagadora maioria dos especialistas – historiadores, sociológicos, antropólogos, filósofos – chegaram tarde ao debate sobre os modelos de género. Inebriados por barricadas, disparos de artilharia e discursos revolucionários, deixaram cair no

Ler »
Astória
Filosofia e História
Paulo Pinto

Astória

Não serão abundantes as palavras que suscitam reações tão desiguais e desconcertantes como a palavra História. Há quem a idolatre, a invoque ex cathedra ou a ostente na lapela; alguns usam-na como simples adereço ou adorno descartável, muitos minimizam-na ou ignoram-na. Para não falar de quem a despreza ou renega. Uns consideram que o seu peso é incomensurável, outros ligeiro, outros ainda, irrelevante. Depende. Como pode algo desprovido de massa ter pesos tão distintos? A

Ler »
A vida agitada na rodela circulatória, de Álvaro Domingues.
Literatura
Álvaro Domingues

A Vida Agitada na Rodela Circulatória

Personagens: 6 perdizes vagamente aparentadas: 3 mais velhas e 3 mais novas Época e lugar: numa semana qualquer, algures no asfalto, numa rotunda próxima de várias autoestradas   Perdiz (acabada de chegar à rotunda com o grupo que ficou um pouco mais para trás): Olha que coincidência virmos todas parar aqui! (virando ligeiramente a cabeça e baixando o pio) Quem são aquelas três aqui à frente? Perdiz (a do grupo da frente com peito avantajado

Ler »
Stranger Things & o Estado da Netflix
Cinema e Audiovisual
Ana Cabral Martins

Stranger Things & o Estado da Netflix

O verão é tempo de blockbusters e se isso há uns anos era sinónimo de idas ao cinema para escapar ao torrão do sol e aproveitar filmes de acção, super-heróis ou dinossauros, em 2022 também foi sinónimo de ficar em casa e ver séries pensadas como grandes eventos. Foi o caso de Stranger Things para a plataforma Netflix — que chegou num momento bastante circunspecto da vida desta empresa de Silicon Valley.  Stranger Things é

Ler »
Um Negro no País das Loiras
Literatura
João Pedro George

Um Negro no País das Loiras

O meu olhar varreu as estantes. Vi Aquilinos Ribeiro, Vergílios Ferreira, Cardosos Pires, Fernandos Namora, Agustinas Bessa-Luís, Antónios Lobo Antunes… Não sabia por onde começar. Um tipo como eu perde-se num alfarrabista como aquele: uma cave semi-clandestina, escura e húmida, onde é difícil circular, cheia de livros até ao tecto e a todo o comprimento das paredes.  Entrei. O dono da loja, uma criatura com barriga de homem sedentário, estreito em cima e bojudo no

Ler »
Teatro Cósmico
Artes Performativas
José Maria Vieira Mendes

Teatro Cósmico

Gravidade, zero   Em dezembro de 1999, o encenador Dragan Zivadinov estreia Gravitation Zero – Noordung Biomechanics Theatre, um espetáculo do coletivo esloveno de artistas multidisciplinares Neue Slowenische Kunst (NSK), apresentado, no ar, numa nave de treino russa pertencente ao Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin situado na Cidade das Estrelas, a nordeste de Moscovo. Um voo com 8 espectadores e 7 atores que executam, num ambiente de gravidade zero alcançado em voos parabólicos,

Ler »
A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas
Artes Visuais
Joana Sá

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

“Não escrevas sobre actualidades”, tinha-me pedido o Vasco[1], e eu descansei-o, porque nunca tenho opinião formada assim de um dia para o outro. “Se estiveres com bloqueio, podes sempre escrever sobre livros”, o que não me descansou nada, porque há maternidades que não leio. Mas tinha preparado um texto sério, sobre ciência e arte, para ser o meu primeiro aqui na Almanaque, a sério que tinha. Depois pensei em dizer ao Vasco que afinal não

Ler »
A Auto-Ficção Irrita-me
Literatura
Ana Bárbara Pedrosa

A Auto-Ficção Irrita-me

Não gosto de auto-ficção. Irrita-me a manipulação descarada, ter de pesar demasiadas coisas em conflito. Até assumo que dê jeito que alguém se ofereça à radiografia, que se alcance uma aparente versão destilada da experiência humana. Quem nunca olhou para outro a querer ler o que tinha dentro que atire uma pedra. Eu, se o fizesse sempre, teria de começar um tiroteio de calhaus. O problema é nunca poder desligar-me do x-acto que limita o

Ler »
"nus ou vestidos e com sapatos na mão"
Literatura
Ana Isabel Soares

“nus ou vestidos e com sapatos na mão”

Ia escrever que o primeiro pedaço de Brasil que vi foi (pela janelinha de um avião que não descontinuava a carreira de arranha-céus) o céu de São Paulo – mas é mentira. Não foi nas vizinhanças do Frei Caneca, suores frios no corpo e o meu desprezo pelos avisos de um amigo, que aquele bairro era perigoso, que me mudasse para zona menos off da cidade (que off!, foi amores à primeira vista), como se

Ler »
Dois Contos (I)
Literatura
Telmo Rodrigues

Dois Contos (I)

Construído por um conjunto de entradas de diário, o conto «I Can’t Breathe» (1929), de Ring Lardner, descreve os dias que uma rapariga de dezoito anos passa numa estância de férias com os tios, idosos «com pelo menos 35 anos, talvez até mais», e onde se entretém a jogar golfe, durante o dia, e a dançar, à noite, no salão de baile animado por uma orquestra. Obrigada a viajar com os tios por os pais

Ler »
«Estudo de nu masculino», Desenho académico, grafite com toques brancos (entre 1750 e 1799), Biblioteca Nacional Digital.

Marialvas ou Libertinos?

As guerras culturais e o romance sobre o século XVIII I – O Estado da Arte 1.   A revolta contra a domesticação do género masculino foi uma das obsessões do romantismo. Ao longo do século XX, por razões evidentes, mas pouco exploradas, a esmagadora maioria dos especialistas – historiadores,

Astória

Astória

Não serão abundantes as palavras que suscitam reações tão desiguais e desconcertantes como a palavra História. Há quem a idolatre, a invoque ex cathedra ou a ostente na lapela; alguns usam-na como simples adereço ou adorno descartável, muitos minimizam-na ou ignoram-na. Para não falar de quem a despreza ou renega.

A vida agitada na rodela circulatória, de Álvaro Domingues.

A Vida Agitada na Rodela Circulatória

Personagens: 6 perdizes vagamente aparentadas: 3 mais velhas e 3 mais novas Época e lugar: numa semana qualquer, algures no asfalto, numa rotunda próxima de várias autoestradas   Perdiz (acabada de chegar à rotunda com o grupo que ficou um pouco mais para trás): Olha que coincidência virmos todas parar

Stranger Things & o Estado da Netflix

Stranger Things & o Estado da Netflix

O verão é tempo de blockbusters e se isso há uns anos era sinónimo de idas ao cinema para escapar ao torrão do sol e aproveitar filmes de acção, super-heróis ou dinossauros, em 2022 também foi sinónimo de ficar em casa e ver séries pensadas como grandes eventos. Foi o

Um Negro no País das Loiras

Um Negro no País das Loiras

O meu olhar varreu as estantes. Vi Aquilinos Ribeiro, Vergílios Ferreira, Cardosos Pires, Fernandos Namora, Agustinas Bessa-Luís, Antónios Lobo Antunes… Não sabia por onde começar. Um tipo como eu perde-se num alfarrabista como aquele: uma cave semi-clandestina, escura e húmida, onde é difícil circular, cheia de livros até ao tecto

Teatro Cósmico

Teatro Cósmico

Gravidade, zero   Em dezembro de 1999, o encenador Dragan Zivadinov estreia Gravitation Zero – Noordung Biomechanics Theatre, um espetáculo do coletivo esloveno de artistas multidisciplinares Neue Slowenische Kunst (NSK), apresentado, no ar, numa nave de treino russa pertencente ao Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin situado na Cidade

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

A Coragem que se Aprende com Poetas e Outros Artistas

“Não escrevas sobre actualidades”, tinha-me pedido o Vasco[1], e eu descansei-o, porque nunca tenho opinião formada assim de um dia para o outro. “Se estiveres com bloqueio, podes sempre escrever sobre livros”, o que não me descansou nada, porque há maternidades que não leio. Mas tinha preparado um texto sério,

A Auto-Ficção Irrita-me

A Auto-Ficção Irrita-me

Não gosto de auto-ficção. Irrita-me a manipulação descarada, ter de pesar demasiadas coisas em conflito. Até assumo que dê jeito que alguém se ofereça à radiografia, que se alcance uma aparente versão destilada da experiência humana. Quem nunca olhou para outro a querer ler o que tinha dentro que atire

"nus ou vestidos e com sapatos na mão"

“nus ou vestidos e com sapatos na mão”

Ia escrever que o primeiro pedaço de Brasil que vi foi (pela janelinha de um avião que não descontinuava a carreira de arranha-céus) o céu de São Paulo – mas é mentira. Não foi nas vizinhanças do Frei Caneca, suores frios no corpo e o meu desprezo pelos avisos de

Dois Contos (I)

Dois Contos (I)

Construído por um conjunto de entradas de diário, o conto «I Can’t Breathe» (1929), de Ring Lardner, descreve os dias que uma rapariga de dezoito anos passa numa estância de férias com os tios, idosos «com pelo menos 35 anos, talvez até mais», e onde se entretém a jogar golfe,