Nº 9 – Outubro 2023

Nada, nicles, pevide.
Artes Visuais
Lia Ferreira

Nada, nicles, pevide.

https://youtu.be/11tEDxlv36Q Apathy of apathies, all is apathy “Nada melhor do que não fazer nada”, murmurava a Rita Lee, defendendo fazer amor por telepatia. Mas se há coisa que ela não era era apática. Na chamada era da mediania, em que o normcore é a estética, a distinção é subversiva.    Dizia Vivienne Westwood, citada nesse primeiro artigo, que “toda a gente parece igual e as únicas pessoas que chamam a atenção são da minha idade.

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Magníficos dias atlânticos
Boa Vida
Gonçalo Calado

Magníficos dias atlânticos

Viver numa ilha não é para todos. Muito menos para quem não nasceu lá ou noutra ilha. Gosto de visitar ilhas. As com pessoas e as sem pessoas. Frequentemente, as ilhas com pessoas têm histórias mais interessantes, ou pelo menos que interessam a mais gente, que não é o mesmo. Um grande amigo estabeleceu-se numa ilha dos Açores há mais de trinta anos. Adaptou-se bastante bem. É mais açoriano do que muitos de berço que

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A Comédia de Improviso<br>(ou o estranho caso dos Commedia a La Carte)
Artes Performativas
Pedro Goulão

A Comédia de Improviso
(ou o estranho caso dos Commedia a La Carte)

O que é a comédia de improviso? Muitas coisas. Frequentemente é um exercício de trapézio sem rede, em que nos maravilhamos com a destreza, harmonia e coordenação de todos, e em que o artista se salva, quanto mais in extremis melhor, de falhar o contacto com o seu trapézio ou parceiro. Não é raro que o artista se esbardalhe no chão, em frente a muitas ou poucas pessoas, algumas delas felizes por verem o desastre

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Da série personagens do meu país (5): Rui Amália
Literatura
Filipe Nunes Vicente

Da série personagens do meu país (5): Rui Amália

Poeta desconhecido e deslumbrado, nasceu em Verride, perto da Figueira da Foz, em 1950. Publicou dois livros de poemas: o primeiro em Setembro de 1974 e o segundo em Junho de 1975. Numa entrevista feita por ele a ele (“uma recriação do espaço transbordante da recusa mercantil do mediatismo“) e publicado  sob  a forma de anúncio pago no Diário de Lisboa, em 1977, explicou as suas raízes literárias:    ” Vivi muito tempo na ilusão

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A honra perdida de José Maria Seleiro: memória do Big Brother 1
Artes Performativas
António Araújo

A honra perdida de José Maria Seleiro: memória do Big Brother 1

Teolinda Gersão, que eu saiba, nunca esteve na “Casa Mais Famosa de Portugal”, e é pena. Em todo o caso, escreveu um conto intitulado “Big Brother isn’t watching you”, no qual umas meninas adolescentes da classe média-baixa, todas com os nomes da praxe (Elizabeth, Carina, Vanessa, Andreia, Débora), negligenciadas pelas famílias e seduzidas pelas vidas glamorosas das revistas cor-de-rosa e dos reality shows, decidem assassinar uma colega, a Tânia, somente na mira da fama.   Saído

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A geologia já é uma ciência
Ciências
Leonardo Azevedo

A geologia já é uma ciência

Num estudo de opinião realizado entre amigos, chegámos à conclusão de que, durante os anos compreendidos entre 2007 e 2019, o físico teórico com maior reconhecimento internacional fora do meio académico terá sido Sheldon Cooper. Quem é o Dr. Cooper? O leitor mais atento, e com melhor memória, talvez consiga recordar este nome como um dos principais personagens da série televisiva The Big Bang Theory. Ao longo de 279 episódios, a série desenvolve-se através de

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A vida suada do Baleia Assassina e do Capitão Fantástico
Literatura
Afonso de Melo

A vida suada do Baleia Assassina e do Capitão Fantástico

Chovia copiosamente naquela manhã de sábado em que o Baleia Assassina e o Capitão Fantástico tinham agendado para o Campo da Feira, em Benavente, o primeiro dos seus tão fenomenais como intermináveis combates até à morte. Havia quem, com ponta de malícia, os apelidasse de combates até à morte lenta, mas nós, nesse tempo, ainda não estávamos aptos para perceber as manigâncias enviesadas dos sentidos do humor.Na véspera, tínhamos ficado à espera numa curva da

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Simpatia Inacabada #9
Literatura
Alda Rodrigues

Simpatia Inacabada #9

NOTAS DE VERÃO E OUTONO: RECOMPOSIÇÃO   Neste Verão, quando Maya Dunietz começou a tocar Emahoy Tségué-Guébrou no jardim de uma galeria de arte em Lisboa, ouviu-se o vento nas árvores e um bando de andorinhas traçou espirais no céu. Pensei que as andorinhas iam acompanhar o concerto chilreando, gorjeando e trinfando, mas não. O próprio melro que entretanto apareceu acabou por voar para uma árvore. Protestou um pouco, mas depois calou-se. Até os pássaros

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A mais trágica e bela estação
Boa Vida
Marta Lança

A mais trágica e bela estação

1. Fim de junho, a camioneta dá entrada na gare de Campanhã, os motores desligam enquanto atendo o telemóvel. É o número da minha mãe, mas surpreende a voz do senhor Manel. “A mãe caiu no corredor do prédio”, ouço os uivos de dor por detrás da voz sóbria do porteiro. Uns dias antes, a voz era a da própria a contar, orgulhosa, das caminhadas com amigas pelas belezas frondosas das ilhas Flores e Corvo,

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Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada
Artes Performativas
Renata Portas

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

The most beautiful location in the world doesn’t mean shit next to Steve McQueen’s face. William Friedkin   Caro leitor anónimo Descia as ruas do Porto na zona oriental da cidade e deparei-me com duas máscaras pousadas (uma veneziana, uma dos Anonymous), esquecidas, dentro de um carro. Duas máscaras: que estórias escondem estes adereços?  Que viram? Uma noite diferente, fantasias? Um assalto?  Uma surpresa a um amigo desaparecido?   Trazer o mesmo rosto todos os

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Nada, nicles, pevide.

Nada, nicles, pevide.

https://youtu.be/11tEDxlv36Q Apathy of apathies, all is apathy “Nada melhor do que não fazer nada”, murmurava a Rita Lee, defendendo fazer amor por telepatia. Mas se há coisa que ela não era era apática. Na chamada era da mediania, em que o normcore é a estética, a distinção é subversiva.   

Magníficos dias atlânticos

Magníficos dias atlânticos

Viver numa ilha não é para todos. Muito menos para quem não nasceu lá ou noutra ilha. Gosto de visitar ilhas. As com pessoas e as sem pessoas. Frequentemente, as ilhas com pessoas têm histórias mais interessantes, ou pelo menos que interessam a mais gente, que não é o mesmo.

A Comédia de Improviso<br>(ou o estranho caso dos Commedia a La Carte)

A Comédia de Improviso
(ou o estranho caso dos Commedia a La Carte)

O que é a comédia de improviso? Muitas coisas. Frequentemente é um exercício de trapézio sem rede, em que nos maravilhamos com a destreza, harmonia e coordenação de todos, e em que o artista se salva, quanto mais in extremis melhor, de falhar o contacto com o seu trapézio ou

Da série personagens do meu país (5): Rui Amália

Da série personagens do meu país (5): Rui Amália

Poeta desconhecido e deslumbrado, nasceu em Verride, perto da Figueira da Foz, em 1950. Publicou dois livros de poemas: o primeiro em Setembro de 1974 e o segundo em Junho de 1975. Numa entrevista feita por ele a ele (“uma recriação do espaço transbordante da recusa mercantil do mediatismo“) e

A honra perdida de José Maria Seleiro: memória do Big Brother 1

A honra perdida de José Maria Seleiro: memória do Big Brother 1

Teolinda Gersão, que eu saiba, nunca esteve na “Casa Mais Famosa de Portugal”, e é pena. Em todo o caso, escreveu um conto intitulado “Big Brother isn’t watching you”, no qual umas meninas adolescentes da classe média-baixa, todas com os nomes da praxe (Elizabeth, Carina, Vanessa, Andreia, Débora), negligenciadas pelas

A geologia já é uma ciência

A geologia já é uma ciência

Num estudo de opinião realizado entre amigos, chegámos à conclusão de que, durante os anos compreendidos entre 2007 e 2019, o físico teórico com maior reconhecimento internacional fora do meio académico terá sido Sheldon Cooper. Quem é o Dr. Cooper? O leitor mais atento, e com melhor memória, talvez consiga

A vida suada do Baleia Assassina e do Capitão Fantástico

A vida suada do Baleia Assassina e do Capitão Fantástico

Chovia copiosamente naquela manhã de sábado em que o Baleia Assassina e o Capitão Fantástico tinham agendado para o Campo da Feira, em Benavente, o primeiro dos seus tão fenomenais como intermináveis combates até à morte. Havia quem, com ponta de malícia, os apelidasse de combates até à morte lenta,

Simpatia Inacabada #9

Simpatia Inacabada #9

NOTAS DE VERÃO E OUTONO: RECOMPOSIÇÃO   Neste Verão, quando Maya Dunietz começou a tocar Emahoy Tségué-Guébrou no jardim de uma galeria de arte em Lisboa, ouviu-se o vento nas árvores e um bando de andorinhas traçou espirais no céu. Pensei que as andorinhas iam acompanhar o concerto chilreando, gorjeando

A mais trágica e bela estação

A mais trágica e bela estação

1. Fim de junho, a camioneta dá entrada na gare de Campanhã, os motores desligam enquanto atendo o telemóvel. É o número da minha mãe, mas surpreende a voz do senhor Manel. “A mãe caiu no corredor do prédio”, ouço os uivos de dor por detrás da voz sóbria do

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

Meia-De-Leite Escura Em Chávena Escaldada

The most beautiful location in the world doesn’t mean shit next to Steve McQueen’s face. William Friedkin   Caro leitor anónimo Descia as ruas do Porto na zona oriental da cidade e deparei-me com duas máscaras pousadas (uma veneziana, uma dos Anonymous), esquecidas, dentro de um carro. Duas máscaras: que